Uma Mulher no Escuro



Baixar 1.39 Mb.
Pdf preview
Página13/37
Encontro10.07.2022
Tamanho1.39 Mb.
#24203
1   ...   9   10   11   12   13   14   15   16   ...   37
Uma Mulher no Escuro - Raphael Montes (2)
EXAME 013052022, A Cinco Passos de Voce - Rachael Lippincott, WORKSHOP TER 25JAN protected
o monstro é minha história de terror favorita” —, deixou a bolsa grande com o
telescópio desmontado em cima do sofá e, como um técnico contratado, pediu
para ver a caixa de eletricidade.
Havia algo de diferente nele. Parecia ainda mais alto e mais magro, como um
tronco seco. Seu rosto fino e ossudo estava marcado por duas olheiras profundas,
e tinha deixado crescer uma barba rala que o deixava com uma aparência mais
madura. Talvez finalmente estivesse disposto a assumir a idade, Victoria pensou.
Mas as roupas eram as de sempre: bermuda de tactel laranja e camiseta preta
com o prisma de The Dark Side of the Moon, do Pink Floyd. Então, ela reparou
na novidade: Arroz tinha pintado as unhas de preto. Talvez não tivesse
amadurecido tanto, no fim das contas.
Ao ver seu amigo no canto da cozinha, passando os olhos pelos interruptores do
apartamento, Victoria teve certeza de que sua vida tinha virado de cabeça para
baixo. Era como uma montanha-russa da qual ela não conseguia sair. Antes, o
apartamento era um espaço sagrado, só dela, que ninguém mais podia acessar.
Tia Emília tinha estado lá apenas uma vez, logo que ela se mudara, só para
conhecer o lugar (e para garantir que a sobrinha-neta não tinha bebida alcoólica


nos armários da cozinha). Então, em menos de uma semana, o dr. Max tinha
passado a noite com ela e agora Arroz estava ali, com as mãos na cintura,
analisando a fiação. Victoria não tinha muita certeza de que ele sabia o que
estava fazendo, mas preferiu não perguntar. A distância entre eles a incomodava,
mas era melhor do que a intimidade excessiva.
“Vou conseguir câmeras pra você”, Arroz disse depois de alguns minutos.
“Mas elas não vão ficar tão escondidas, por causa dos fios.”
“Não tem problema.”
“Vai me contar o que aconteceu?”
“Melhor não.”
“Você fez algo errado?”
“Não exatamente.”
“Sempre quis vir na sua casa, mas nunca pensei que seria desse jeito.” Arroz
uniu as mãos e estalou os dedos. “Não gosto de ficar longe de você, Vic.”
“Nem eu.”
“E não gosto que me procure só quando precisa de ajuda. Mereço mais.”
“Eu sei.”
“Você tem alguém?”
Ela piscou os olhos, surpresa.
“Um namorado, um noivo…?”, ele continuou. “Nunca falamos sobre esse
assunto.”
“O que isso tem a ver?”
“Você me falou que foi ameaçada… E, desculpa dizer, mas você parece do tipo
que se interessa pelo cara errado.”


Mas sou do tipo que não se interessa por ninguém, Victoria pensou, enquanto o
sorriso de Georges invadia sua mente, contrariando-a.
Arroz pareceu ler algo em sua expressão.
“Quem é?”
“Por favor, vamos falar de outra coisa.”
Ele balançou a cabeça e se afastou na direção da janela.
“Vai montar o telescópio?”, Victoria perguntou, incomodada com o silêncio.
“Sabe qual é o problema? Fico olhando pra você e não entendo… Do que você
gosta? Como veio parar aqui? Quem é você, Vic?”
“Arroz, eu…”
Ele ergueu as mãos no ar.
“Já sei, sem perguntas. Vou montar o telescópio.”
Desviando os olhos, ele prendeu a cabeleira em um coque volumoso e sentou no
chão, abrindo a sacola. Victoria se serviu de um copo de leite e se recostou na
bancada da cozinha, de braços cruzados. Arroz encaixava as peças e ajustava o
foco do telescópio sem falar nada. De vez em quando, ela o flagrava
observando-a discretamente, enquanto os dedos ossudos giravam uma roldana ou
fixavam o tripé. Depois de quase uma hora, Arroz se levantou e chegou perto
dela.
“Está pronto”, disse, então pediu um copo de leite também.
Ela o serviu e puxou um banquinho próximo à janela. Inclinou o tronco,
pressionando o olho esquerdo contra o telescópio. Recostada próximo a uma
saída de esgoto, uma moradora de rua com dois bebês de colo vendia chicletes e
balas. Minutos depois, uma senhora baixinha se aproximou para lhe oferecer
sopa. Victoria girou a lente, focalizando o posto de gasolina que havia na
esquina mais distante. Enxergava até o uniforme dos funcionários.
“Obrigada, vai ajudar.”


“Obrigada, vai ajudar.”
Ela sorriu para Arroz.
“Eu entendi, não se preocupe.” Ele virou o copo em três longas goladas.
“Você me enxerga como amigo. Só isso.”
Victoria desviou os olhos e levou a mão à boca, arrancando as cutículas com os
dentes.
“Tenho que ir pro trabalho, Arroz.”
“Eu te acompanho.”
Ela suspirou.
“Não se preocupa, Vic”, ele disse. “Vou respeitar seu espaço.”
Victoria se trancou no quarto para mudar de roupa. Pegou o caderno de
Santiago, aberto sobre a cama com as páginas para baixo, e guardou na mochila.
No bolso, guardou o canivete suíço, que agora era como um talismã sem o qual
não saía. Em poucos minutos, descia as escadas conversando com Arroz. Ao
longo do caminho, ele pareceu mais leve, talvez vitorioso por ter conhecido o
apartamento dela. Contou histórias sobre dois flagras recentes que fizera com o
telescópio em Copacabana: uma mulher com uma serra elétrica amarelo-ovo e
um homem chegando de terno em casa, despindo-se diante do espelho ao som de
uma música lenta e então se montando com um vestido dourado. Victoria achara
as duas histórias divertidas, mas deviam ser invenções dele. Despediram-se na
estação Carioca, entre camelôs, bancas de jornal e um pastor evangélico fazendo
sua pregação.
No Café Moura, a sensação de montanha-russa aumentou, como se o carrinho
tivesse entrado em uma sequência de loopings. Georges estava lá, na mesa de
sempre, digitando no computador. Depois do que ela havia feito no dia anterior,
esperava que ele buscasse outro lugar para escrever. Ou que a esnobasse de
propósito, caso continuasse frequentando o café. Mas Georges não era nada
vingativo: o rosto dele se iluminou ao vê-la chegar. Victoria não resistiu e lhe
devolveu um sorriso tímido de canto da boca. Teve vontade de se aproximar e


pedir desculpas por ter fugido no dia anterior, mas não o fez.
Seu Beli perguntou como ela estava, então contou que havia visitado tia Emília
naquela manhã, mas não mencionara nada do que havia ocorrido, como ela
pedira. Insistiu que Victoria deveria fazê-lo logo. Ela concordou e subiu para
atender as mesas no segundo andar do café. Lá de cima, observava Georges
trabalhando. À distância, notou como ele ficava bonito, compenetrado em seu
ofício, introspectivo e com uma postura solene.
Victoria trabalhou a tarde inteira, esforçando-se para manter a cabeça vazia.
Vez ou outra, dava uma espiada lá embaixo, e seu olhar cruzava com o do
escritor. Como num jogo, ela o desviava depressa, ou ele o fazia. Segundos
depois, os dois voltavam a se olhar, rindo. Por volta das cinco, seu Beli subiu ao
segundo andar e avisou que havia uma ligação para ela no telefone fixo. Victoria
ficou surpresa: era raro que alguém ligasse para ela no trabalho. O psiquiatra era
um dos poucos que tinham aquele número, então imaginou que fosse ele. Desceu
as escadas e, apoiando-se na bancada do caixa, levou o fone ao ouvido.
“Victoria, aqui é o delegado Aquino”, disse a voz do outro lado. “Preciso que
venha à delegacia o mais rápido possível. O pai de Santiago foi assassinado.”
12.
Átila tinha sido encontrado morto naquela manhã. No dia anterior, Bruna, a
esposa, e a filha tinham viajado bem cedo para resolver pendências no Rio de
Janeiro. Pouco antes do almoço, elas haviam voltado e encontrado Átila no meio
da sala, coberto de sangue. Bruna chamara a polícia na mesma hora, enquanto
tentava esconder os olhos da filha, que gritava e chorava sem parar.
Com a mochila abraçada ao corpo magro, Victoria escutava o delegado
apresentar os fatos. Sua roupa, aquecida pelo sol brutal daquele dia, emanava
calor, e o ventilador precário da sala não dava conta de diminuir o desconforto.
Uma sensação estranha percorria seu íntimo. Não era medo ou ansiedade, mas
uma impotência assustadora. Algo próximo do que os condenados deviam sentir
pouco antes da execução.
“Como ele morreu?”, ela perguntou, quando o delegado parou de falar.
Aquino levou as mãos às têmporas.


Aquino levou as mãos às têmporas.
“A facadas”, disse, finalmente. “E o rosto dele estava pichado.”
“De preto?”
“É.”
A vista de Victoria ficou nebulosa. Ela arregalou os olhos, invadida por imagens
dolorosas: Valentina com os dedos enrugados brincando na piscina da casa,
mordendo o patinho de borracha. Valentina encarando o pai com a garganta
aberta e tinta preta escorrendo pelas bochechas. Ela sabia bem como era. Ainda
lembrava. Fixou os olhos num ponto distante para se manter desperta.
“Como está a menina?”, quis saber.
“Sedada.”
Ao acordar no hospital, Victoria ficara perguntando à tia-avó sobre seus pais e
seu irmão. Mesmo tendo visto toda a família morta, demorara alguns dias para
assimilar a ideia. Talvez o mesmo acontecesse com Valentina.
A culpa foi a primeira a vir à tona no caldeirão de sentimentos que dominava
Victoria. De certo modo, ela era responsável pela morte de Átila e pela dor da
menina. Sentiu a pressão baixar.
“Vocês se encontraram no domingo, não?”, Aquino comentou. “Como foi a
conversa?”
Victoria deu de ombros.
“Normal.” A palavra soava absurda em voz alta.
“Normal? Ele pareceu incomodado? Talvez ameaçador?”
“Não. Ameaçador, não. Ele me tratou bem.”
“E você? Pode ter parecido ameaçadora a ele?”
Victoria não gostou do tom do delegado. Era como se fosse suspeita.
Observou atenta o rosto magro e calvo dele, com aspecto fúnebre. Parecia um


Observou atenta o rosto magro e calvo dele, com aspecto fúnebre. Parecia um
personagem de filme de terror.
“Por que está me perguntando isso?”
Aquino fez um gesto vago com a mão.
“Só quero saber o que conversaram.”
Victoria suava. Não queria mencionar o caderno, porque não queria que a polícia
o apreendesse.
“Santiago acreditava que tinha sido abandonado pelo pai após a prisão. E o
culpava por isso”, ela se esforçou para dizer. “Átila não tinha notícias dele fazia
anos.”
“Então ele mentiu pra você.” Aquino abriu uma pasta bege sobre a mesa e pegou
uma folha de dentro dela. “Segundo Bruna informou, na semana passada o
correio entregou um pacote para Átila. Era bem pesado e não tinha remetente.
Foi ela quem recebeu. Mais tarde, o marido o abriu sozinho no quarto. Ela
percebeu que ele ficou estranho na hora. Parecia perturbado pelo conteúdo. A
mulher tentou conversar a respeito, mas Átila disse que o problema era só dele e
que ia resolver sozinho. Ela preferiu não insistir. Agora há pouco, quando foi
pegar uma roupa no armário para o marido ser enterrado, ela encontrou esse
bilhete.”
Aquino estendeu o papel para Victoria. Como ela não fez menção de pegá-lo, ele
o deixou sobre a mesa. A letra perfeita, arredondada, escrita em caixa-alta, era a
mesma do caderno. Ela leu movendo os lábios tensos, mas sem emitir som.

Baixar 1.39 Mb.

Compartilhe com seus amigos:
1   ...   9   10   11   12   13   14   15   16   ...   37




©historiapt.info 2022
enviar mensagem

    Página principal