Uma Mulher no Escuro



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Uma Mulher no Escuro - Raphael Montes (2)
EXAME 013052022, A Cinco Passos de Voce - Rachael Lippincott, WORKSHOP TER 25JAN protected
deixe o tempo acabar com nosso amor. Eu faço tudo e o impossível e você não
dá valor. A gente ficou se olhando, mas a merda da garrafa nunca apontava pra
gente. Fiquei esperando, esperando. O Caio beijou a Tati, a Natália deu um
selinho no Arthur e o Rodrigo beijou a Letícia. Aí eu girei a garrafa e ela caiu
pro Igor perguntar pra Rayane. Ela escolheu “consequência” e o Igor disse “me
beija”. Fiquei sem reação na hora. O Igor foi para cima dela e deu um beijão, na
frente de todo mundo. O pessoal começou a gritar e a rir, mas eles continuaram
beijando. Acho que a Rayane gostou, porque colocou a língua pra fora e tudo.
Levantei, amassei o copo de refri que estava tomando e joguei no chão. Saí
sentindo meu rosto ficar todo vermelho. Meu corpo tremia de raiva. Minha
vontade era pegar uma faca no refeitório e matar a Rayane e o Igor enquanto eles
dormiam.
Fiquei no meio do mato, chorando encostado numa árvore. Aí, aconteceu…
Escutei alguém se aproximando. Pensei que fosse a Rayane, mas não. Era o
verdadeiro amor da minha vida. É claro que eu não sabia disso na hora. Nunca
tinha reparado nela, não desse jeito. Na verdade, quando vi ela vindo, só tentei
enxugar o rosto correndo, porque não queria que ninguém me visse assim, mas
não deu tempo.
Ela colocou a mão na árvore em que eu estava encostado e ficou me olhando,
sem dizer nada. Então, falou pra gente jogar um jogo, que ia tentar adivinhar por
que eu estava chorando. Acertou de primeira. Como prêmio, pediu um abraço.
Foi gostoso sentir o corpo dela perto do meu, seus peitos maravilhosos e seu
coração batendo forte. O hálito quente dela no meu pescoço me deixou todo


coração batendo forte. O hálito quente dela no meu pescoço me deixou todo
arrepiado.
Depois… Não sei se fui eu ou se foi ela. Quando vi, a gente já estava bem perto,
se beijando. Senti a língua dela nos meus dentes e enfiei a minha na boca dela
também. Foi um pouco nojento no início, mas depois achei uma delícia.
Passou um tempo e ela recuou, cheia de vergonha, dizendo que aquilo não era
certo, que ia embora, que não podia continuar, era perigoso.
Eu não queria que ela fosse embora. Puxei ela pra perto, fiz carinho no rosto
dela, disse que era linda e insisti para ela ficar mais. Ela aceitou. Me pediu pra
chamar ela de Rapunzel, e eu gostei. A gente se beijou de novo e de novo, e meu
pinto ficou duro sem precisar da punheta. Foi tipo um sonho. Só que acordado.
Então, a gente escutou o barulho de outras pessoas saindo do dormitório e ela se
afastou. Andou de volta pro galpão, prendendo os cabelões sem olhar pra trás.
Fiquei sentado no escuro por muito tempo. E decidi que ninguém merecia saber
o que tinha acontecido. Se eu contasse, podia estragar tudo. Vou continuar
amigo do Igor e do Gabriel, mas nunca, nunca vou perdoar o que o Igor fez
comigo. Ele e a Rayane se merecem.
Agora tenho minha Rapunzel. E esse é um segredo só nosso.
11.
Eram seis da manhã quando Victoria virou a última página do caderno. As
anotações de Santiago acabavam ali — no fim de semana na serra em 1993. Sua
mente estava a mil: queria entender o que aqueles episódios significavam e que
relação teriam com o crime cometido anos depois. Afinal, por que mais Santiago
diria ao pai para entregar o diário a ela?
Aproximando os olhos, ela reparou nos pedacinhos de papel já amarelados,
quase se desfazendo, presos à espiral enferrujada. Consultou o número total de
folhas na contracapa — quatrocentas e cinquenta — e contou uma a uma para
confirmar sua suposição: havia apenas trezentas e vinte e duas ali. Atordoada,
contou mais uma vez para confirmar, e constatou que faltavam mesmo folhas.
Átila talvez soubesse de alguma coisa. Embora tivesse pedido que não o
procurasse mais, ela pegou o celular e ligou. Não importava que ainda fosse


procurasse mais, ela pegou o celular e ligou. Não importava que ainda fosse
cedo. Se o pegasse de surpresa e ainda sonolento talvez fosse até melhor.
O telefone chamou por um minuto inteiro sem resposta. Ela desligou e tentou
outras três vezes, então decidiu ligar de novo mais tarde. Seguiu para o banheiro,
onde tomou a medicação do dia sem se encarar no espelho. Mais uma vez, tinha
dormido muito pouco. Seu rosto devia estar amassado. Era bem possível que as
olheiras estivessem piores do que nunca. Mesmo assim, decidiu que não passaria
nenhuma maquiagem. Era o rosto dela, e ninguém tinha nada a ver com aquilo.
Concluiu que podia se dar ao luxo de mais algumas horinhas de descanso antes
do trabalho e foi para a cama. De olhos fechados, tentou pensar da perspectiva
de um menino chegando a uma nova escola, ansioso para fazer amigos e viver
uma história de amor. Ela não tivera aquelas experiências. Na escola, sempre
evitara conversar e não nutrira interesse especial por ninguém. As crianças
cochichavam e apontavam para ela. Alguns garotos mais velhos a tinham
apelidado de highlander, porque havia sobrevivido à tragédia familiar.
Sem conseguir dormir, Victoria levantou da cama e entrou no banho. Aos
poucos, sua balança emocional se equilibrava. Além de tia Emília, seu Beli e o
dr. Max, ela tinha Arroz em sua vida, mas algum mecanismo de defesa patético a
impedia de se abrir um pouco que fosse com ele. Sentada na privada, passou a
toalha áspera pela cicatriz enorme na perna esquerda, pouco abaixo da patela,
sentindo as terminações nervosas que respondiam ao toque. Era doloroso, mas
também fazia com que se sentisse viva. Encaixou a perna mecânica e vestiu o
jeans largo, depois ligou para Arroz. Ele atendeu no primeiro toque:
“Vic, eu te liguei tantas vezes essa semana…”
“Arroz, estou sendo ameaçada.”
“O quê? Por quem?”
“Quero instalar câmeras no meu apartamento. Você me ajuda?”
“Eu… Claro”, ele disse, confuso. “Vou ver o que consigo. Mas demora um
pouco.”
“Preciso o mais rápido possível.”
Ele pareceu pensar um instante.


“Enquanto isso, posso te emprestar meu telescópio.”
“Ótimo”, ela disse. “Me encontra no metrô da Cinelândia em uma hora?”
“Posso levar na sua casa.”
Victoria não queria Arroz ali.
“É difícil montar sozinha, Vic”, ele insistiu.
Ela suspirou.
“Anota meu endereço.”
Arroz esfregou as solas dos tênis fosforescentes no tapete para limpar a sujeira e
entrou de cabeça baixa, com o rosto protegido pelos cabelos compridos caídos
na frente dos olhos. Era evidente a barreira entre os dois — ele não encostou
nela, não se aproximou para beijá-la ou abraçá-la nem fez perguntas sobre o que
estava acontecendo. Em vez disso, comentou os livros na estante — “O médico e

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