Uma Mulher no Escuro



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Uma Mulher no Escuro - Raphael Montes (2)
EXAME 013052022, A Cinco Passos de Voce - Rachael Lippincott, WORKSHOP TER 25JAN protected
21 de maio de 1993, sexta
Aconteceu uma coisa diferente na escola hoje. Voltei mais cedo do recreio, o
Igor e o Gabriel estavam em cima do tablado do professor. Eles estavam
esfarelando o giz do quadro-negro e juntando o pó dentro de um saco plástico. O
Igor pediu ajuda e, sem pensar muito, obedeci. Depois, o Gabriel subiu em uma
carteira e colocou o giz nas pás do ventilador, que estava desligado. O Igor me
entregou o outro saco plástico e mandou colocar no ventilador de trás.
No meio da aula de português, recebi da Rayane um pedacinho de papel
dobrado, escrito: “Diz pra ele que está com calor”. Olhei para trás e o Igor
piscou para mim. Era dele o recado. De novo, obedeci.
Quando o professor ligou os ventiladores, o pó de giz começou a cair como se
fosse neve, fazendo todo mundo rir. Igor puxou o coro de “Bate o sino” e toda a
turma cantou junto. O professor ficou muito bravo. Fui parar na diretoria de
novo. Eu, Igor e Gabriel. Levei outra anotação pra casa, e o idiota do diretor
garantiu que na próxima vez vou ser suspenso. Foi muito engraçado. Na saída, o
Igor me chamou pra ir na casa dele amanhã. Disse que o Gabriel também vai e
que a gente pode ficar jogando video game até tarde.
Até que o Igor e o Gabriel não são tão insuportáveis assim.
22 de maio de 1993, sábado
Fiquei a tarde toda na casa do Igor hoje. A mãe dele é bem diferente do que eu
pensava. Ela é gorda e legal, ri alto e fala sem parar. O pai não estava em casa
(acho que eles estão se separando, mas o Igor não quer contar). Ficamos jogando
Master System, mas o Gabriel ganhava quase sempre, porque ele também tem
video game em casa e joga o dia inteiro.
No fim da tarde, a mãe legal dele fez nuggets e não se importou que a gente
colocasse muito ketchup. Daí o Gabriel começou a falar da semana de atividades
na serra, que vai ser em um sítio em Petrópolis. O Igor comentou que é muito
legal, porque a gente vai no ônibus da escola e dorme em beliches, então não
tem muito controle. Foi lá que ele perdeu o BV no ano passado.
Aí ele perguntou se eu era BV. Eu não sabia o que era BV, e ele explicou que era


Aí ele perguntou se eu era BV. Eu não sabia o que era BV, e ele explicou que era
“boca virgem”, quem nunca beijou ninguém. Fiquei com vergonha e menti. Falei
que tinha ficado com uma menina na outra escola. Eles não acreditaram e
começaram a me sacanear. Ficaram perguntando quem eu queria beijar lá na
escola. Eu não queria falar da Rayane, mas também não quero que achem que
sou bicha. Daí o Igor falou que tocava muita punheta pensando nas professoras,
tipo a Sofia, a Sandra e a Ana Luísa. Eles riram, e eu fiquei sem entender. O Igor
me cutucou e disse que eu tinha cara de que tocava muita punheta.
Eu não sabia o que era punheta. Mas, como o Igor tinha falado que tocava, então
concordei. Só que os dois sacaram a mentira e morreram de rir. Depois acabaram
explicando, e voltei pra casa com muita vontade de experimentar. Fui direto pro
banho.
23 de maio de 1993, domingo
Hoje passei o dia no sofá vendo TV. Meu pai ficou no quarto e saiu no meio da
tarde pra ajudar a d. Teresinha a comprar ração para os bichos dela. Quando ele
saiu, corri pro banheiro. Tinha passado o dia cheio de vontade de tocar punheta
de novo. Sentei na privada, fechei os olhos e pensei na Rayane, enquanto mexia
no pinto. A pele é meio presa e dói um pouco, mas é uma dor boa. Fiquei muito
tempo ali, até que senti a ardência que o Gabriel tinha falado. Quis fazer mais,
mas ouvi a porta de casa batendo. Vesti a cueca depressa e dei descarga para
disfarçar.
[…]
13 de junho de 1993, domingo
A mãe do Igor passou o dia fora e a gente ficou sozinho na casa dele, jogando
video game. Aí, o Igor pausou o jogo e perguntou se eu queria fazer algo legal
de verdade. Ele abriu o armário e jogou um spray no meu colo. Os dois nunca
tinham me chamado pra grafitar com eles. O Gabriel disse que eu tinha que fazer
um ritual pra entrar no grupo. A gente saiu de casa levando o spray na mochila.
Perguntei o que a gente ia pichar, mas o Igor só riu baixinho. Então parou na
frente da casa da d. Teresinha, que é bem grande e tem grade baixa. Os bichos
dela ficam presos nos fundos, e o Gabriel disse que a gente ia pular o muro.
Eu não queria. Ali é muito movimentado, alguém podia ver. E a casa do diretor


Eu não queria. Ali é muito movimentado, alguém podia ver. E a casa do diretor
fica bem do lado. Mas eles falaram que eu não ia entrar no grupo, aí, pulei. Os
cachorros da d. Teresinha começaram a latir lá de trás. Na janela da frente, tinha
dois gatos, um branco e um preto. Gabriel me mandou assinar a parede, mas eu
nem tinha assinatura. Pensei um pouco e fiz um 22, que é meu número da sorte.
A assinatura do Igor é tipo um tridente do demo, e a do Gabriel parece uma
omelete, mas ele disse que é uma tartaruga.
Fiquei com pena da d. Teresinha e falei que queria ir embora, mas o Igor abriu a
mochila, pegou outro spray e me entregou. Tinha um símbolo de caveira no
rótulo. O Gabriel pegou o gato branco que estava na janela e disse que eu tinha
que pichar. Eu tentei dizer que não, mas ele insistiu. Mirei o spray na bunda, mas
acabei acertando os olhos sem querer. O gato reclamou e ficou tentando me
arranhar. Quando o Gabriel largou ele, achei que o bicho fosse me atacar. Mas
não. Ele ficou se debatendo, gemendo alto, enquanto a tinta preta engolia a pele
dele. Aquilo não era normal. Olhei para a lata sem entender e perguntei o que
tinha ali. O gato mexia as patinhas no ar e sangrava. O Igor disse que era tinta
com soda cáustica. Fiquei sem reação, olhando o bicho em carne viva. O Igor
deu um soquinho no meu ombro e falou: “bem-vindo ao time”. Depois, pulou o
muro e saiu correndo.
9.
A luz da manhã invadiu a janela do apartamento, criando um semicírculo na
bancada da cozinha. Conforme as horas avançaram, o desenho foi se
transformando em um círculo completo e atingiu em cheio o rosto de Victoria,
imersa em um sono profundo no sofá, com o caderno aberto sobre o peito. Ela
despertou ofegante. Tinha passado a madrugada lendo o diário de Santiago. A
maior parte dos registros descrevia episódios ordinários, como idas ao médico,
fins de semana com o pai e programas de TV.
Ainda num estado de letargia, ela ficou olhando a foto dos três meninos na
escola, guardada na contracapa do caderno. Os outros dois deviam ser Igor e
Gabriel. Victoria ficara enojada com os trechos sobre masturbação e com a
invasão à casa de d. Teresinha. Tinta com soda cáustica? Então as brincadeiras
deles não se limitavam a jogar ovos em carros, como Átila dissera. Aquilo era
muito mais sério. Ele não tinha lido o diário do filho?
Era como investigar a intimidade de alguém próximo, mas ao mesmo tempo
distante. Victoria conhecia quase todos aqueles nomes, de vizinhos e
professores. Seus pais eram mencionados diversas vezes. Deitada, ela alcançou o


professores. Seus pais eram mencionados diversas vezes. Deitada, ela alcançou o
celular na mesa de centro. Além das dezenas de ligações de Arroz, havia uma
mensagem do dr. Max para confirmar a sessão do dia. Antes de se sentar no sofá,
ela respondeu que iria.
A ameaça de Santiago era como um perigo silencioso e indecifrável. Mesmo
dentro do apartamento, Victoria se sentia desamparada. O que ele esperava dela?
Não podia se deixar levar pela paranoia, ou estaria perdida. Espreguiçou-se,
estalando os ossos, e encaixou a perna mecânica, apoiada ali perto. Olhou para o
caderno sobre a almofada, aberto no ponto onde tinha parado. Queria continuar a
leitura. Estava certa de que encontraria algo, mas precisava de um tempo para se
recuperar. A imagem do gato de d. Teresinha se contorcendo de dor ainda
revolvia seu estômago. Tinha dormido muito pouco — quatro horas, no máximo
— e sentia o impacto da falta de descanso nos ombros doloridos e nos olhos
pesados.
O banho quente ajudou a melhorar seu estado. Teve vontade de pegar sob a
cama as caixas antigas onde guardava os álbuns de família, documentos antigos
e recordações familiares (como cartas do Papai Noel e do Coelhinho da Páscoa
com dicas para encontrar presentinhos escondidos), mas estava atrasada.
Guardou o canivete suíço no bolso da calça e saiu, atenta às pessoas na calçada e
ao interior dos carros. Estranhou um homem na esquina com os olhos fixos nela
e atravessou a rua, já começando a suar frio. Contornou o quarteirão para se
aproximar dele pelas costas, com o canivete firme na mão. A poucos metros,
percebeu que era um vendedor de rua, com uma banca de balas e chicletes. Ao
vê-la, ele abriu um sorriso safado e perguntou se queria chupar alguma coisa.
Victoria se afastou sem dizer nada.
Chegou ao consultório quinze minutos atrasada, tocou a campainha e esperou
dois segundos. Teve uma surpresa quando a porta se abriu: o médico estava de
cara limpa. Ela nunca o tinha visto sem barba, e não conseguiu conter o espanto.
“Eu sei… Fiquei diferente”, o dr. Max disse, abrindo passagem.
“Como está a mão?”, ela perguntou, vendo que o curativo continuava ali.
“Cicatrizando. Não se preocupe com isso.”


“Cicatrizando. Não se preocupe com isso.”
A convivência mais próxima parecia não haver alterado a relação deles no
consultório. O psiquiatra parecia mais desperto e jovial, apesar dos cabelos
grisalhos e de uma preocupação discreta em seu semblante. Pela primeira vez,
Victoria enxergava certa fragilidade nele. Não tinha tantas novidades para contar
e continuava a preferir não mencionar o diário por enquanto. Ele quis saber
como ela estava lidando com as coisas agora que começavam a se assentar.
Victoria explicou que não sabia muito bem o que fazer: continuava a se sentir
ameaçada e com medo, sem ideia do que Santiago pretendia. A possibilidade de
que ele estivesse de volta era alarmante. Ela temia perder o controle a qualquer
momento.
“Sua vida saiu dos trilhos muito cedo”, o dr. Max disse. “E agora você tenta
controlar tudo.”
“Eu queria que fosse possível.”
Ele sorriu, complacente.
“Eu sei. Mas, como não é, você acaba compensando.”
“Como?”
“Fugindo… Já falamos disso. A bebida foi uma espécie de fuga. E sua família
também é, muitas vezes.”
“A morte da minha família é real”, Victoria disse, ofendida. “A pichação na
minha parede também.”
“A questão é o que você faz com essa realidade… Olho pra você e vejo duas
Victorias se equilibrando numa corda bamba. Por um lado, você é uma mulher
madura, que trabalha, paga contas e tem as responsabilidades comuns de uma
pessoa de vinte e quatro anos que mora sozinha. Por outro lado, às vezes se
comporta como uma criança, evitando relações afetivas mais complexas e
idealizando uma família perfeita.”
O tom professoral era irritante. Ela teve vontade de se levantar e dar um soco
na cara dele. Em vez disso, perguntou:


“O que quer que eu faça?”
“A pergunta certa é: o que você quer fazer? Vai se trancar em casa e viver como
se tivesse quatro anos ou vai aceitar o passado e tomar consciência de quem é
hoje?”
“Tenho consciência de quem sou hoje.”
“É verdade…” Ele descruzou as pernas. “Você não se esconde de si mesma.
Só se esconde do mundo.”
O psiquiatra se inclinou, ficando com o rosto a centímetros do dela. Ele
continuava a falar, mas Victoria não o escutava mais. Esperou ansiosamente pelo
fim da sessão e se despediu sem encostar nele. O que o dr. Max queria, afinal?
Que ela seguisse em frente como se nada tivesse acontecido? Diante da sombra
de Santiago, tinha muita dificuldade de encaixar Arroz e Georges em sua vida.
Nutria algo pelo escritor, não podia negar, mas tampouco podia contar o que
estava acontecendo. Ele nunca entenderia.
Depois da consulta, ela atravessava a rua da Assembleia quando teve a
impressão de estar sendo observada por dois homens. Colocou a mão no bolso,
sentiu o peso do canivete e apressou o passo, sem olhar para trás. Chegou ao
Café Moura pouco antes das dez e meia, ofegante. Margot e Ellen foram
correndo ao seu encontro, entre preocupadas e curiosas.
“Tive uns problemas de família”, ela explicou, escondendo a perturbação.
Seu Beli surgiu da cozinha e lhe deu um abraço que Victoria não conseguiu
recusar. Ela contou rapidamente o que havia acontecido. O português ficou
alarmado, mas Victoria garantiu que estava tudo bem e pediu que ele não
comentasse nada com tia Emília. Ela mesma contaria, na hora certa.
Victoria passou os olhos pelo salão. Como não era hora do almoço, ainda estava
um pouco vazio, com apenas cinco mesas ocupadas. No canto onde Georges
costumava sentar, um casal conversava, trocando carícias e rindo.
Victoria foi para o banheiro lavar o rosto. Diante do espelho, percebeu que
estava ainda mais magra. Não havia comido quase nada nos últimos dias — a


estava ainda mais magra. Não havia comido quase nada nos últimos dias — a
mandíbula protuberante a denunciava, e os olhos pareciam mais fundos.
Trabalhou o dia inteiro e até conseguiu se esquecer dos problemas, concentrada
em organizar os pedidos, servir as mesas e controlar a quantidade de salgados no
forno. Lá do fundo, como um mecanismo inconsciente, olhava para a porta toda
vez que alguém entrava, mas Georges não apareceu. Às sete da noite, ela se
despediu de seu Beli garantindo que voltaria no dia seguinte.
Ao atravessar a porta, viu Georges recostado em um poste na outra esquina,
terminando de fumar um cigarro. Sentiu alívio ao ver que ele a estava esperando,
mas tentou disfarçar o entusiasmo. Georges jogou a guimba no chão e pisou em
cima, então colocou as mãos nos bolsos e foi em sua direção.
“Tive um frila e não pude vir antes”, ele disse. “Estava só esperando pra falar
com você.”
“Não sabia que você fumava.”
“Só quando estou nervoso”, Georges disse, baixando os olhos e aproximando o
rosto do dela. “Por que está me evitando?”
“Não é pessoal.”
“Prefere que eu me afaste?”
Victoria levou o indicador à boca para roer a unha.
“Achei que você também tinha gostado de mim”, ele insistiu.
“Preciso me proteger.”
“De quem?”
O gosto de sangue preencheu sua boca. Queria contar a ele, mas não conseguia.
Subitamente, tudo ao redor a incomodou — o calor, o barulho, as pedras
portuguesas na calçada e o cheiro de cigarro que emanava de Georges.
Desvencilhou-se dele, correndo pela rua da Assembleia. No largo da Carioca,
suava frio, apesar da brisa fresca que varria a praça. Seguiu pela rua do Lavradio
na direção da Lapa, passando em frente a motéis vagabundos e bares com


na direção da Lapa, passando em frente a motéis vagabundos e bares com
executivos, todos esfregando sua felicidade na cara dela.
Ao entrar em casa, acendeu todas as luzes, tirou o jeans e se deitou de camiseta
no sofá, abraçada a Abu, que cheirava ao perfume doce que passara nele para
compensar o do spray de tinta. Pegou o caderno sobre a mesa de centro e voltou
a ler. Georges, Arroz, o dr. Max… Todos aqueles homens e suas malditas
pressões logo desapareceram de seu pensamento.
10.
DIÁRIO DE SANTIAGO

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