Uma Mulher no Escuro



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Uma Mulher no Escuro - Raphael Montes (2)
EXAME 013052022, A Cinco Passos de Voce - Rachael Lippincott, WORKSHOP TER 25JAN protected




Sumário
1.
Capa
2.
Folha de rosto
3.
Dedicatória


4.
Epígrafe
5.
Prólogo
6.
Vinte anos depois
1.
1
2.
2
3.
3
4.
4
5.
5
6.
6
7.
7
8.
8
9.
9
10.
10
11.
11
12.
12
13.
13
14.
14
15.
15
16.
16
17.
17
18.
18


19.
19
20.
20
21.
21
22.
22
23.
23
24.
24
25.
25
26.
26
27.
27
28.
28
29.
29
30.
30
7.
Sobre o autor
8.
Créditos
Landmarks
1.
Cover
2.
Title Page
3.
Body Matter
4.
Epigraph
5.
Prologue
6.
Part


7.
Copyright Page
8.
Table of Contents
Ao meu avô Menezes, que me conta muitas histórias
A noite era o momento das afinidades bestiais, de aproximar-se mais de si
mesmo.
Patricia Highsmith, Strangers on a Train
Prólogo
31 de maio de 1998 — domingo
Victoria acordou com o latido dos cachorros no quintal da vizinha. Assustada,
sentou na cama e olhou pela janela do quarto, no segundo andar da casa. Ainda
era noite. Lá fora, sua árvore favorita balançava com o vento forte. As folhas
secas se soltavam e batiam no vidro antes de cair no jardim dos fundos. Diante
do armário, a pilha de caixas de presente criava uma sombra de aparência
monstruosa. Ela acendeu o abajur, pegou Abu e ficou abraçada ao ursinho
branco sob o lençol. Permaneceu alguns segundos parada, com os olhos bem
abertos, encarando as estrelas que papai colara no teto brilharem no escuro.
Estava com sede, mas a preguiça de descer as escadas até a cozinha era maior do
que tudo. O sábado tinha sido incrível, mas cansativo. Para comemorar o
aniversário dela, papai e mamãe tinham feito uma festa de princesa. O quintal
fora enfeitado com coroas douradas e bexigas coloridas. Havia um bolo enorme,
doces, cachorro-quente e pipoca. As amiguinhas da escola e o pessoal da rua
tinham sido convidados. Victoria usara um vestido de princesa, e papai e mamãe
haviam lhe dado de presente o lacinho mais bonito que já tinha visto, prateado e
com brilhantes. Ela havia corrido o dia inteiro de um lado para o outro, dançado
Chiquititas com as amigas — mexe, mexe, mexe com as mãos —, ganhado
muitos presentes e cantado parabéns.
Agora, seus pés ardiam. Os cachorros continuavam a latir, cada vez com mais
raiva. Era estranho, porque eles costumavam ser mansos, diferente dos gatos da
d. Teresinha. Victoria adorava rolar com os cachorros na grama, ficava toda suja
de lama, e a mãe não se importava. Então, veio outro som: um gemido alto,
agudo, interrompido de repente. De dentro da casa.


Ela colocou os pés para fora da cama, pegou os óculos no criado-mudo e, ainda
agarrada a Abu, deslizou pelo chão com as meias coloridas que ganhara da tia
Emília. Girou a maçaneta e arriscou dar alguns passos para fora, sem acender a
luz. Gritos vinham do quarto dos adultos, no início do corredor. Uma luz
amarela escapava por debaixo da porta, iluminando os primeiros degraus da
escada. Mamãe chorava aos soluços, papai falava alto, de um jeito que não era
dele, e parecia nervoso. Estavam brigando?
“Não precisa ter medo, Abu”, Victoria murmurou para o ursinho.
Como era possível que Eric não estivesse escutando? Era verdade que o irmão
dormia pesado e roncava alto, mas… O choro da mãe ficou mais alto. Victoria
ouviu uma voz que não reconheceu. Eric também estava envolvido na briga? Os
pais deviam estar dando uma bronca nele por sair escondido. Victoria sabia
muito bem que era feio mentir, mas o irmão, que já tinha dez anos, parecia ainda
não ter aprendido.
Uma mão agarrou seu braço enquanto outra tapou sua boca, impedindo-a de
gritar. Victoria chutou o ar.
“Calma, sou eu.”
Ela reconheceu a voz do irmão e parou de se debater. Pensou em reclamar por
conta do susto, mas algo no rosto dele a fez ficar quieta na mesma hora. Victoria
nunca o tinha visto tão pálido.
“Tem alguém aqui”, Eric disse, baixinho, puxando a irmã para o quarto dele.
Eric fechou a porta devagar e girou a chave. O lugar fedia a chiclete, chulé e
biscoito. Ela ajeitou os óculos no rosto para ver melhor o que o irmão estava
procurando no fundo do armário. Quando ele se virou, segurava o sabre de luz
que ganhara no aniversário de nove anos.
“Vai pra debaixo da cama, Vic.”
A menina obedeceu depressa, ficando de barriga para baixo. Do lado de fora do
quarto, a confusão continuava. Os latidos aumentaram e eles escutaram o
estrondo de algo pesado rolando pela escada, como um móvel ou uma mala de
viagem. Não dava mais para escutar a voz do papai. De repente, os gritos da mãe
se tornaram distantes, como se tivesse descido para a cozinha. Em vez de chorar,


se tornaram distantes, como se tivesse descido para a cozinha. Em vez de chorar,
ela implorava por ajuda. Victoria esticou a cabeça para fora da proteção da cama.
“Fica aqui”, Eric mandou. Ainda que tentasse disfarçar o medo, as pernas dele
tremiam. “Vou chamar a polícia.”
O único telefone da casa ficava no térreo, ao lado da televisão da sala.
“Não”, ela disse, começando a chorar baixinho. “Não vai.”
Eric se aproximou da porta e a destrancou devagar, pronto para enfrentar o que
quer que fosse. Ele ergueu o sabre de luz em posição de ataque. Victoria se
esforçou para ver o que podia de onde estava: a porta entreaberta, o tapete sujo,
os pés descalços do irmão desaparecendo no corredor escuro. Esperou alguns
segundos. Não conseguia ouvir mais nada. Nem gritos nem ofensas. Nenhum
sinal do papai ou da mamãe. Só os latidos lá longe. Era como se tudo não
passasse de um pesadelo. Mas seu coração batia forte, lembrando que aquilo era
bem real.
Victoria percebeu então que estava fazendo xixi nas calças. Ia levar uma bronca
da mãe. Talvez até ficasse de castigo, o que ela odiava. Ia explicar que tinha
ficado com medo e… Outro estrondo. Daquela vez, mais perto. Alguém rolou
pelo chão, vidros se quebraram. Eric urrou de dor. Então veio uma sequência de
baques surdos, como objetos quebrados. Ela nunca tinha ouvido
uma briga do tipo. Queria fazer algo, mas estava paralisada.
Eric surgiu em seu campo de visão, rastejando no chão. Ele a encarou por um
instante. Havia horror em seus olhos. Levou o indicador trêmulo à boca, para
que Victoria permanecesse em silêncio. Ela notou o sangue nas pernas dele e
sufocou um grito. Um vulto apareceu na porta, ergueu Eric pela gola e o jogou
na cama com força. Victoria deitou de lado e envolveu os joelhos com os braços,
mantendo Abu dentro da conchinha. A cada golpe, os gritos do irmão perdiam
força, transformados em sussurros gorgolejantes. Filetes de sangue escorriam
pela beirada da cama e gotejavam perto dela.

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