Uma leitura de senhor das moscas e suas várias perspectivas resumo



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O estado de natureza humano

Procurar por apenas uma área de análise na narrativa de William Golding, Senhor das Moscas (1954) é bem redutor, pode-se dizer que há vários campos de interpretação e inúmeras áreas de discussão sobre o desenrolar da história das crianças que ficaram perdidas na ilha. Pendendo para a problemática principal da narrativa, a degeneração do ser humano perante a falta de um contrato social e de uma estrutura concreta de leis e direitos, com supervisão sancionadora, faz com que essas crianças saiam do controle, desrespeitando os limites sociais e rompendo com a civilidade (são crianças britânicas) ao extremo, chegando à barbárie e à selvageria.

Pode-se dizer, através de um olhar político filosófico, que a obra trata o ser humano como um animal dotado de medo e capaz de qualquer coisa pela sua autopreservação, como Thomas Hobbes fala em seu contrato social, a obra O Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico Civil. Segundo Hobbes (2003):

O fim último, causa final e desígnio dos homens (que amam naturalmente a liberdade e o domínio sobre os outros), ao introduzir aquela restrição sobre si mesmos sob a qual os vemos viver nos Estados, é o cuidado com sua própria conservação e com uma vida mais satisfeita. Quer dizer, o desejo de sair daquela mísera condição de guerra que é a conseqüência necessária (conforme se mostrou) das paixões naturais dos homens, quando não há um poder visível capaz de os manter em respeito, forçando-os, por medo do castigo, ao cumprimento de seus pactos e ao respeito àquelas leis de natureza. Porque as leis de natureza (como a justiça, a eqüidade, a modéstia, a piedade, ou, em resumo, fazer aos outros o que queremos que nos façam) por si mesmas, na ausência do temor de algum poder capaz de levá-las a ser respeitadas, são contrárias a nossas paixões naturais, as quais nos fazem tender para a parcialidade, o orgulho, a vingança e coisas semelhantes (HOBBES, 2003, p. 59).

Partindo do pressuposto de Hobbes, de que o ser humano, sem autoridade para fazer valer as leis sociais e sem uma estrutura de governo que controle a todos, vai estar disposto a tudo para se preservar, pois é dotado de medo. Diante deste quadro, considera que o romance, em que as crianças, sucumbidas pelo medo do monstro, que as mais novas dizem terem visto como um vulto na mata, acabam regredindo severamente à selvageria, o que desencadeia agressividade e caos que se seguem até o fim da trama, pode ser analisado pelo prisma da teoria de Hobbes, pois encaixa-se perfeitamente com o que ele descreve ser a reação natural humana ao medo, principalmente quando não se tem algo que garanta sua saúde, seus direitos e sua vida.

Hobbes (2003) continua:
Tal como os homens, tendo em vista conseguir a paz, e através disso sua própria conservação, criaram um homem artificial, ao qual chamamos Estado, assim também criaram cadeias artificiais, chamadas leis civis, as quais eles mesmos, mediante pactos mútuos, prenderam numa das pontas à boca daquele homem ou assembleia a quem confiaram o poder soberano, e na outra ponta a seus próprios ouvidos. Embora esses laços por sua própria natureza sejam fracos, é, no entanto, possível mantê-los, devido ao perigo, se não pela dificuldade de rompê-los (HOBBES, 2003, p. 74).

O trecho acima indica o que os meninos tentaram fazer no início do convívio na ilha, Ralph, designado líder por meio democrático de votação, começa um sistema de governo parlamentar na ilha, designando funções e tarefas, assim como também as prioridades que consistem na sobrevivência, como, por exemplo, manter uma fogueira acesa para que sejam localizados e salvos, mas conforme os ideais prioritários dos meninos começam a ser de natureza oposta, o embate e a animosidade crescem entre eles, estando Ralph de um lado, prezando pelos ideais citados acima e Jack do outro, tendo como prioridade atitudes mais agressivas e imediatas.

Jack, denominado como líder dos “caçadores”, como se intitulam, por achar que a carne é mais importante para eles naquele momento do que a fogueira e, mais ainda, por estar se afeiçoando cada vez mais à brutalidade que aquilo exige, está pouco se importando com a prioridade dada ao acampamento e à fogueira por Ralph e começa a se impor rudemente o seu comando, o que torna o governo e o projeto de civilização criado pelos meninos na ilha; totalmente estremecido, e a briga pela liderança do grupo começa resultando em uma cisão entre os garotos.

Pode-se pensar que por serem crianças, ainda em processo de formação de pensamento e ideais sociais, sem muita experiência com o convívio social e suas regras, tenham tido dificuldades na implementação desse tipo de governo na ilha, criando má disposição, em alguns garotos, de não querer se submeter a outros como líderes, principalmente quando divergem quanto ao que é melhor para o grupo.

De acordo com Hobbes (2003), no trecho abaixo, o desejo constante de se provar e ser valorizado, quando não concretizado, dá margem para que o ser humano se torne destrutivo, e ele cita três causas principais para a discórdia:
(...) os homens não tiram prazer algum da companhia uns dos outros (e sim, pelo contrário, um enorme desprazer), quando não existe um poder capaz de manter a todos em respeito. Porque cada um pretende que seu companheiro lhe atribua o mesmo valor que ele se atribui a si próprio e, na presença de todos os sinais de desprezo ou de subestimação, naturalmente se esforça, na medida em que a tal se atreva (o que, entre os que não têm um poder comum capaz de os submeter a todos, vai suficientemente longe para levá-los a destruir-se uns aos outros), por arrancar de seus contendores a atribuição de maior valor, causando-lhes dano, e dos outros também, através do exemplo. De modo que na natureza do homem encontramos três causas principais de discórdia. Primeiro, a competição; segundo, a desconfiança; e terceiro, a glória. A primeira leva os homens a atacar os outros tendo em vista o lucro; a segunda, a segurança; e a terceira, a reputação (HOBBES, 2003, p. 46).

Essas três causas são plenamente retratadas no romance. Inicia-se com a derrota de Jack na eleição, logo no começo da história, o que fere seu ego e instiga seu desejo de se provar como o melhor; em seguida um medo domina os meninos ao pensarem haver um monstro na ilha; e, por último, a reviravolta de Jack, que decorreu da má conduta de Ralph frente à segurança dos meninos, não sabendo se colocar como líder em situações de punição dos que desobedecem suas leis, resultando no não resgate deles por um navio que passou próximo a ilha e não os viu, pois a fogueira estava apagada.

A rusga existente entre Jack e Porquinho, outro personagem importante e claro apoiador de Ralph, acaba por fazer com que Jack mais se oponha a este último, pelo fato dele escutar e seguir Porquinho como a um conselheiro. Porquinho é colocado como um personagem extremamente inteligente e mimado, o típico garoto “gordinho” e nerd que sofre bullying, essa inteligência é essencial a Ralph, pois o mesmo, apesar do carisma e voz de liderança, pena um pouco para ter ideias sobre como lidar com a situação vivida por eles e sobre o que é preciso fazer, dependendo de Porquinho para coisas estratégicas e lógicas, como fazer fogo com os óculos.

A insistente implicância de Jack com Porquinho, a vontade de Porquinho de ser o dono da razão a todo custo, pois é o mais inteligente da ilha, acabam por aumentar a rixa de Jack com o comando de Ralph. Jack pressiona Ralph para punições e medidas mais extremas, já Porquinho fala o tempo todo contra Jack, por não compactuar com o modo violento com que ele gosta de levar as coisas, tudo isso somado ao fato de que, como citado no parágrafo acima, Ralph não possui pulso firme para penalizar quem não respeita suas leis e disciplinar os meninos para fazer valer suas ordens na ilha, Jack vai ganhando cada vez mais voz e não demora muito para que a maioria se unam a ele, principalmente por ter coisas imediatas a seu favor, como a carne de porco que ele e seu grupo caçam na ilha, já Ralph continua com o discurso de uma “possível” salvação, o que no momento, devido ao tempo que estavam ali, naquela escassez e vivendo a base de frutas, já não impelia mais os garotos a ficarem a seu lado, tornando seu grupo muito pequeno, o que nos leva a crer que os laços se enfraquecem e os meninos não conseguem manter a organização primariamente estabelecida.

Pensando por um segundo ângulo, fica o questionamento sobre esse caos todo poder ou não ser evitado, caso fossem homens adultos a ficarem perdidos na ilha em vez desses meninos que mal atingiram a puberdade. Se seria essa uma reação desejada do autor, querer causar esse questionamento no leitor, visto que a sociedade desde sempre associa a infância com inocência. Será que a racionalidade adulta faria com que tudo saísse na mais perfeita ordem, até que houvesse um futuro resgate ou isso é apenas uma pintura de toda a calamidade presenciada pelo autor durante a Segunda Guerra Mundial, da qual Golding participou como um dos soldados das tropas aliadas? Ainda observando pelo viés da teoria de Hobbes, o caos seria o resultado não importa a idade, talvez fosse um desenrolar mais lento para toda a barbaridade e selvageria que os meninos atingiram de forma bem rápida e cruel, mas não seria diferente, pois o ser humano tende a ser egoísta na ausência de um poder superior que o freia, como Hobbes destaca, no trecho abaixo:
E a ciência dessas leis é a verdadeira e única filosofia moral. Porque a filosofia moral não é mais do que a ciência do que é bom e mau, na conservação e na sociedade humana. O bem e o mal são nomes que significam nossos apetites e aversões, os quais são diferentes conforme os diferentes temperamentos, costumes e doutrinas dos homens. E homens diversos não divergem apenas, em seu julgamento, quanto às sensações do que é agradável ou desagradável ao gosto, ao olfato, ao ouvido, ao tato e à vista, divergem também quanto ao que é conforme ou desagradável à razão, nas ações da vida cotidiana. Mais, o mesmo homem, em momentos diferentes, diverge de si mesmo, às vezes louvando, isto é, chamando bom, àquilo mesmo que outras vezes despreza e a que chama mau. Daqui procedem disputas, controvérsias, e finalmente a guerra. Portanto enquanto os homens se encontram na condição de simples natureza (que é uma condição de guerra) o apetite pessoal é a medida do bem e do mal (HOBBES, 2003, p. 57).



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