Um legado de liberdade assim como eu não seria escravo, tampouco seria



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Expressando a experiência 

americana

Por quase um século, historiadores e 

sociólogos tentaram explicar a paixão 

histórica que resultou nesses adoráveis 

absurdos. As conclusões a que 

chegaram são em geral inteligentes 

e até mesmo plausíveis. Disseram 

que Lincoln continua a fascinar seus 

conterrâneos como nenhum outro 

personagem da história porque ele 

foi o primeiro a ser amplamente 

fotografado: é, portanto, mais real 

para nós do que grandes figuras de 

outras épocas. É verdade que Lincoln 

era particularmente sensível ao modo 

como se apresentava ao público, 

inclusive com o uso da então nova arte 

fotográfica. Ele quase nunca deixava 

passar uma oportunidade de fazer um 

retrato. Graças a essa astúcia, parece 

que o conhecemos de um modo como 

jamais pudemos conhecer George 

Washington ou Thomas Jefferson.

Outro argumento é que não 

importa quão familiarizados 

estejamos com seu rosto, seus olhos 

tristes e seu cabelo desgrenhado, 

Lincoln é ao mesmo tempo instigante 

e enigmático; é esse mistério que 

nos leva ao homem melancólico, 

espirituoso, inteligente, reservado, 

distante e gentil descrito por seus 

conhecidos. Outros historiadores 

acreditam que nossa paixão por ele 

tem origem no drama de sua história 

pessoal: nascido em extrema pobreza 

e tendo se tornado um dos grandes 

homens da história da humanidade, 

Lincoln incorpora o “direito de 

progredir” que os americanos 

reivindicam como seu direito inato. 

Outros ainda creditam sua longa 

fama ao seu assassinato numa Sexta-

Feira Santa, choque do qual o país 

nunca se recuperou totalmente. 

Nossos teóricos mais judiciosos 

dizem que somos obcecados por 

Lincoln porque ele presidiu, e de 

alguma forma exemplifica, o maior 

trauma da história americana, 

uma guerra civil que reinventou os 

Estados Unidos como o país que 

conhecemos hoje.

A Proclamação da 

Emancipação original 

é exibida na Biblioteca 

Pública de Nova York



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ABRAHAM LINCOLN: UM LEGADO DE LIBERDADE



“Personificadores de Lincoln” de todas as idades 

e tamanhos são encontrados em lugares que vão 

de salas de aula a penitenciárias. Como explica 

um deles: “Lincoln nos lembra do que precisamos 

saber, mas podemos ter esquecido”



ABRAHAM LINCOLN

: UM LEGADO DE LIBERDADE

 

 

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Há verdade em todas essas 

explicações, suponho, mas a última, 

em minha opinião, é a que chega mais 

perto da verdade completa. Moro não 

muito longe do Memorial Lincoln em 

Washington, DC, aquele majestoso 

templo fotogênico às margens do 

Rio Potomac que é o lar do “ícone 

Lincoln”. Durante o tempo que passei 

com acadêmicos, colecionadores e 

obcecados fazendo pesquisas para o 

meu livro e sendo apresentado por 

cada um deles a um outro Lincoln 

privatizado, criado a partir de suas 

próprias conjecturas, ficava feliz em 

voltar para casa e fazer uma visita ao 

memorial para ver essa figura única e 

sólida, o Lincoln que todo americano 

pode reivindicar.

O memorial é o mais visitado 

de todos os nossos monumentos 

presidenciais. O mais extraordinário, 

no entanto, é a paz que desce sobre 

os turistas que sobem a grande 

escadaria e entram na frieza da 

câmara de mármore. Sua atenção é 

logo atraída para um ou ambos os 

discursos gravados nas paredes de 

cada lado da famosa estátua. Depois 

de todo esse tempo, ainda fico pasmo 

com o número de visitantes que 

param para ler, em um painel de 

pedra, o Discurso de Gettysburg 

e, no outro, o segundo discurso de 

posse de Lincoln.

O que eles leem é um resumo da 

experiência americana, expresso na 

melhor prosa que um americano foi 

capaz de escrever. Um dos discursos 

reafirma que o país foi fundamentado 

em uma tese, à qual se devotou: a 

verdade universal que se aplica a 

todos os homens em todos os lugares. 

O outro declara que a sobrevivência 

do país está de certa forma ligada à 

sobrevivência dessa tese — que se o 

país não tivesse sobrevivido, a própria 

tese poderia ter sido perdida. Às 

vezes os turistas choram ao lê-los; na 

verdade, eles choram quase sempre. 

E, ao vê-los, a gente entende: amar 

Lincoln, para os americanos, é uma 

maneira de amar o seu país.

É isso que Lincoln significa para 

os americanos hoje em dia e é por 

isso que ele significa tanto.

Andrew Ferguson Andrew Ferguson 

é editor sênior da revista Weekly 

Standard e autor de Land of Lincoln: 

Adventures in Abe’s America [Terra 

de Lincoln: Aventuras no País de 

Abe].

Da Marcha em 

Washington por Empregos 

e Liberdade (acima), 

em que talvez 25 mil 

americanos presenciaram 

o discurso “Eu Tenho um 

Sonho” de Martin Luther 

King Jr., a dois jovens 

que tentam proteger 

as florestas tropicais 

(esquerda), os americanos 

que buscam mudanças 

políticas há muito se 

expressam no Memorial 

Lincoln


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