Um coveiro de aspecto esquálido, veio cobrir com terra aquela tumba



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O Estranho

Ele era um jovem estranho, pouco sabia-se a seu respeito, habitava um sobrado triste e lúgubre, seus hábitos eram noturnos como um morcego vampiresco sedento de sangue.


Ele era o mais estranho da rua, não conversava nas aulas, não dava um pio sequer, julgavam-no mudo, poucas vezes ouvi a sua voz, era como a brisa murmurando, estranho ele era, como o sobrado e como a sina e o mistério que o envolvia.
Seu caminhar triste e descompassado sempre interrompia os risos e alegrias dos meninos, como um cometa passando em meio as estrelas luminosas, com um brilho gélido em sua alma, o seu andar nos incomodava e nos enchia de curiosidade, era impossível permanecer calados quando ele passava.
Uma fria manhã de novembro, quando o sol não estava fulgente, resolvemos seguir os passos do abjeto garoto sombrio. Andava de modo mecânico sem ao menos olhar para trás, nem sequer o ziguezague das libélulas e borboletas, chamavam a sua atenção, ele andava margeando o lago até o cemitério da cidade.
Neste momento todos estavam cheios de espanto e pavor, ao ver o local estranho em que o mesmo entrara, seguimos trêmulos os seus passos, observando atônitos e perplexos o estranho, que pôs-se a cavar a terra fofa, e de lá tirar um caixão que estava submerso alguns palmos do solo, ele abriu, deitou, e gritou:
- Septus, Septus, venha me enterrar ! Mal podíamos acreditar na cena que se desenrolava diante de nossos olhos incrédulos.
Um coveiro de aspecto esquálido, veio cobrir com terra aquela tumba.
Corremos, e espalhamos o fato que mal acreditávamos, o menino estranho , era de fato um morto, o sobrado o local de assombração e nunca havíamos notado que estudávamos com o morto.
Na manhã seguinte, todos falavam sobre o ocorrido, quando ele entrou, deixando a todos sem fôlego, com medo, não encarava a ninguém como de costume.
Decidimos segui-lo, novamente com canivetes e facas nas mochilas prevenindo uma possível reação a nossa presença. Dessa vez ele não foi para o cemitério e sim para o antigo sobrado, o que não sabíamos é que há muito estava abandonado, morcegos, corujas e teias de aranha decoravam o ambiente. Nossas lanternas mal iluminavam o ambiente, quando vimos dezenas de corpos desmembrados espalhados pelas paredes, fugimos pressurosamente, gritando sem olhar para trás.
A noite eu não conseguia dormir, um vento incomum entrava pela janela, derrubando papeis, levantando a cortina,eu podia ver ele em tudo, quando o sono finalmente tomou conta de mim, sonhei... eu via a janela abrindo-se com uma forte ventania, e de um feixe de luz da lua, ele descia gradualmente sobre mim, eu queria poder pedir ajuda, mas a afasia me impedia, cada vez mais perto se aproximava, eu sentia o seu hálito e o medo apoderava-se de meu coração, quando ele me diz- Eu sou você, eu sou você... Mas eu não conseguia compreender quem ele era e nem mesmo quem eu era, ele estava em mim e eu nele, até que eu pude entender que ele era parte de mim, guardado nos recônditos do íntimo, o meu eu de que eu detestava, pela estranha morbidez de sempre, pelas moradas sombrias da solidão, ele era eu, eu descobri-me nele, na morte que fazia-se dia após dia de modo não tão explícito quanto nele, nunca me amarei então.


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