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partir daí, houve um intenso trabalho dos padres em aprender o idioma local e



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partir daí, houve um intenso trabalho dos padres em aprender o idioma local e 
ensinar  o  dos  europeus,  bem  como  em  desenvolver  gramáticas  e  estudos 
sobre  os  modos  de  comunicar  indígenas.  O  labor  dos  padres  da  Companhia 
estava  sempre  relacionado  ao  potencial  científico  incentivado  por  ela,  os 
estudos  sempre  ultrapassavam  o  básico,  havia  um  desejo  aparentemente 
genuíno  em  aprender  e  dar  a  conhecer  o  que  foi  descoberto.  Em  não  muito 
tempo,  desenvolveram-se  escolas  e  centros  de  estudo  voltados  não  apenas 
                                                             
5
 Em Historia de la Compañía de Jesus en Nueva-España, Francisco Javier Alegre desenvolve 
esse e outros pontos referentes à vinda e estadia dos jesuítas em terras americanas. 


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para  as  famílias  de  descendência  europeia  que  viviam  na  colônia,  mas  para 
nativos propensos ao trabalho em favor dos jesuítas.  
 
Os  primeiros  contatos  dos  jesuítas  com  os  povos  americanos  e  as 
dificuldades  em  conseguir  uma  conversão  imediata  fizeram  com  que  eles, 
homens  letrados  que  eram,  percebessem  que  a  imposição  súbita  do 
catolicismo  não  funcionaria  eficazmente  na  América.  Logo  assumiram  uma 
forma diferente de catequese, a das  “reduções”, a qual consistia em “reduzir” 
as populações indígenas a comunidades onde vigorava uma “lei natural” à qual 
todo  ser  humano  era  propenso.  A  conversão  seria  feita  em  etapas:  antes  de 
tornar-se efetivamente católico era necessário ter um certo tipo de vivência em 
sociedade  que  ainda  era  estranha  aos  indígenas.  A  atuação  dos  jesuítas  nas 
missões em fins do século XVI e início do XVII tem esse ponto como principal: 
selecionar qual o método mais eficaz de aproximação das comunidades nativas 
e a aplicação da metodologia vista como funcional. 
 
As reduções tinham um caráter efetivamente utópico, baseado na crença 
de  que  era  preciso  fazer 
“homens”  antes  de  se  poder  fazer  cristãos.  Vendo 
essa  meta como  possível, “proclamavam desafiadoramente a  necessidade de 
construir  uma  sociedade  paralela  à  dos  colonos  [...]  Seu  objetivo  não  era 
apenas doutrinar, mas fortalecer a vida social e econômica dos índios em todos 
os aspectos.” (BARNADAS Apud BETHELL, 2004, p. 544) 
 
A  acentuada  independência  dos  jesuítas  em  relação  às  autoridades, 
fossem  elas  episcopais  ou  da  coroa,  aliada  ao  modo  de  atuar  desta  nas 
colônias  (é  sabido  que  a  força  do  Estado  espanhol  não  era  mais  que  apenas 
reverenciada
6
)  fez  com  que  muitos  dos  projetos  da  Companhia  fossem 
exitosos.  
 
A  ação  dos  jesuítas  e  demais  ordens  religiosas  na  educação  fez-se 
sentir desde o primeiro século de colonização, mas foi no século XVII que essa 
                                                             
6
 
Cabem  aqui  as  palavras  de  J.  H.  Elliott:  “As  certezas  de  Madri  eram  dissolvidas  nas 
ambiguidades da América, onde ‘observar mas não obedecer’ era um artifício aceito e legítimo 
para desatender às vontades de uma coroa supostamente bem-
informada” (in BETHELL, 2004, 
p. 299) 


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área  específica  de  atuação  ganhou  maior  vigor,  com  a  consolidação  de 
universidades e a fundação de colégios. Jesuítas, franciscanos e dominicanos 
foram os agentes religiosos fundamentais para o desenvolvimento da educação 
superior, muito embora ela fosse direcionada para a instrução clerical. 
 
Apesar  da  ação  educativa  ser  uma  das  maiores  características  do 
serviço  prestado  pelos  inacianos,  sendo  notável  sua  participação  na  abertura 
de  escolas,  centros  de  estudo  e  universidades 
–  tanto  na  Europa  como  em 
áreas  colonizadas  -  o  trabalho  de  seus  membros  se  disseminou  em  vários 
setores  sociais,  da  política  à  agricultura.  Jonathan  Wright  cita  uma  série  de 
exemplos de como os padres  atuavam. No excerto que transcrevemos abaixo 
podemos  inferir  sobre  como  eles  interferiam  ao  mesmo  tempo  na  política, 
educação, economia, agricultura e pecuária.  
 
De início sustentados por donativos, os colégios jesuítas no Peru logo 
passaram a recorrer à renda gerada por uma rede impressionante de 
propriedades  agrícolas.  De  uma  maneira  que  talvez  seja 
surpreendente,  quando  a  hacienda  de  cana-de-açúcar,  Vilcalvaura, 
foi  comprada  pela  Companhia  em  1642,  a  lista  de  compras  dos 
missionários incluía uma caldeira, uma purificadora, quatro moedores 
de  cana,  três  caldeirões,  chaleiras,  conchas,  marretas,  pás,  facões, 
35 mulas, 50 vacas e seus parelhas de bois. Ao longo da província, a 
mão-de-obra  constituída  de  indígenas  e  de  escravos  africanos 
ajudaria  a  tratar  do  gado  e  a  cultivar  o  trigo  e  a  yerba  mate 
–  o 
famoso chá dos jesuítas. (WRIGHT, 2009, p. 75, grifos do autor)
 
 
 
O  que  inicialmente  poderia  parecer  uma  simples  lista  de  compras  de 
qualquer  fazendeiro  de  pequeno  a  médio  porte,  converte-se  num  exemplo  de 
como  o  modo  de  proceder  jesuíta  abrangia  os  mais  variados  setores  da  vida 
social  de  forma  que 
não  pode  ser  ignorado.  As  “haciendas”  dirigidas  pelos 
padres competiam quase em pé de igualdade com outras de igual porte, o que 
gerava não apenas um viés comercial exercido pela instituição, mas uma forte 
influência  política.  Ao  ter  seus  domínios  expandidos  dos  aspectos  religioso  e 
educacional,  a  Companhia  representava  e  atuava  como  uma  fonte  alternativa 
de poder e influência no continente americano.  


33 
 
 
A grande maioria dos estudiosos sobre a história da Companhia assinala 
que houve, desde seus primeiros anos, uma forte ligação entre o evangelismo 
jesuíta e a ambição colonial. Por um lado, ela se servia dos territórios em que 
se  instalavam  as  missões;  por  outro,  criticava  os  excessos  coloniais  e  a 
moralidade dos colonos. Existiam relações frequentemente tumultuosas entre a 
Companhia e as autoridades locais, além de conflitos nem sempre claros entre 
ela  e  mercadores  independentes.  Além  disso,  o  poder  adquirido  por  seus 
membros  não  estimulava  aliança  com  outras  ordens  religiosas,  as  quais  não 
raro perdiam seus cargos de confessores de nobres para padres jesuítas.  
No  ponto  de  vista  educacional,  os  jesuítas  foram  um  dos  agentes 
responsáveis  pela  entrada  gradual  das  ideias  ilustradas  em  terras  coloniais. 
Ainda que dando espaço ao que é chamado de “Ilustração Católica”, o tipo de 
luzes  difundido  na  península  ibérica  que  associava  o  pensamento  religioso  à 
prática  da  razão  (o  que  é  considerado  um  contrassenso),  os  padres  deram  a 
conhecer várias ideias difundidas na Europa que tinham a ver com a liberdade 
individual.  Segundo  José  Carlos  Chiaramonte
7
,  a  vontade  de  coerência  dos 
jesuítas e o apreço ao pensamento científico fizeram com que o moderno fosse 
privilegiado  em  detrimento  do  escolástico,  de  modo  que  a  Companhia  está 
frequentemente associada aos fomentos dos movimentos independentistas no 
continente americano.  
 
Con este afán, al juzgar la obra de los jesuitas, en la que se destaca 
por su brillo al grupo mexicano, quiere ver en ella el crisol en que se 
gesta el espíritu nacionalista y el descontento que llevarían al periodo 
revolucionario y sostiene, para apoyar la hipótesis, una fusión de los 
intereses  de  la  Orden  con  los  de  las  burguesías  regionales. 
(CHIARAMONTE, 1977, p. XVII) 
 
 
Apesar  do  “brilho”  dos  jesuítas  mexicanos  em  temas  de  formação  da 
identidade  nacional,  o  envolvimento  da  Companhia  de  Jesus  com  as  terras 
novohispanas ocorreu com atraso, se compararmos a chegada da mesma em 
                                                             
7
 Em Pensamiento de la Ilustración: economía y sociedad iberoamericanas en el siglo XVIII.  


34 
 
outras províncias de domínios espanhol e português, pois foi apenas em 1572 
que  as  missões  dão-se  por  iniciadas.  A  chegada  tardia,  o  estabelecimento 
inicial nas áreas urbanas e a existência de demanda por educação nas cidades 
fizeram  com  que  o  viés  educativo  fosse  mais  favorecido  do  que  as  missões. 
Em  poucos  anos,  os  jesuítas  criaram  colégios  nas  principais  cidades  e  a 
província  mexicana  se  tornou  uma  das  maiores  referências  em  promover 
educação,  cultura  e  moralidade  na  América  Hispânica.  Como  no  resto  da 
América,  a  influência  dos  inacianos  se  estendeu  para  os  demais  setores 
sociais,  criando  uma  ampla  rede  em  que  as  opiniões  desses  homens  eram 
decisivas.  
 
Os  dois  primeiros  séculos  na  América  fizeram  da  Companhia  de  Jesus 
uma  forte  instituição  político-religiosa,  capaz  de  controlar  os  mais  diversos 
meios de organização social. Sua participação decisiva na educação gerava a 
simpatia de muitos, já que ela foi responsável pela abertura de vários colégios 
e  universidades.  Mudanças  na  situação  confortável  da  Ordem  começaram  a 
ocorrer,  entretanto,  na  transição  do  trono  espanhol  dos  Habsburgos  para  os 
Bourbons. O comando da Casa de Áustria fez expandir o império espanhol em 
territórios  europeus  e  ultramar  durante  o  século  XVI  e  XVII.  Em  fins  dos 
seiscentos, a dinastia dos Habsburgos estava ameaçada por disputas internas 
pelo  poder,  geradas  por  divergências  no  modo  de  comandar  as  políticas 
imperiais e coloniais. A ideia difundida era  a de  que aquele governo espanhol 
fora  o  responsável  pelo  afrouxamento  da  administração  das  colônias.  A 
conhecida  amizade  de  seus  monarcas  com  os  padres  inacianos  fez  com  que 
estes adquirissem a força de tomar decisões nos territórios das missões cujas 
consequências faziam-se sentir nos cofres públicos.  
Na  virada  do  século  XVII  para  o  XVIII,  tem  início  uma  nova  era  do 
império  espanhol,  agora  sob  comando  da  dinastia  dos  Bourbons.  Foram 
tempos marcados por reformas as quais afetaram diretamente a administração 
colonial. A desconfiança do novo trono espanhol era a de que suas posses na 
América se  encontravam num regime próximo  à  autogestão. Quando feito  um 
balanço  dos  últimos  anos  do  governo  dos  Habsburgos,  é  constatado  que  as 
colônias espanholas rendiam menos a sua metrópole que as posses francesas 


35 
 
e  britânicas  no  Novo  Mundo.  Ao  mesmo  tempo,  tinha-se  notícia  de  que  a 
produção  de  metais  e  as  atividades  de  agricultura  e  pecuária  estavam 
crescendo intensamente na América espanhola. A pergunta óbvia era: por que 
a  Espanha  não  estava  recebendo  mais?  Por  que  parte  tão  grande  dos  lucros 
estava permanecendo no território colonial? 
Medidas são tomadas para aumentar o lucro da metrópole. As reformas 
bourbônicas  são  responsáveis  pela  agitação  gerada  no  povo  e  nas  elites  dos 
territórios  dominados.  Durante  o  governo  dos  Habsburgos,  os  crioulos  não 
tinham  privilégios  perante os  espanhóis e  exerciam um  papel secundário  ante 
eles, apesar de terem em conta que estavam no topo da pirâmide social local. 
No  entanto,  o  modo  de  governar  da  Casa  de  Áustria  e  as  grandes  distâncias 
entre  os  continentes  fizeram  com  que  essa  nata  da  sociedade  colonial  se 
sentisse autônoma e, em várias medidas, se autogerisse. Além disso, era alto o 
nível  de  impunidade  para  com  os  poderes  locais.  Quando  Carlos  III  entra  em 
cena  como  monarca,  investiga  mais  a  fundo  as  causas  do  contrassenso 
referente ao financiamento da metrópole pelas colônias e impõe medidas ainda 
mais  fortes  para  tentar  revertê-lo.  As  propostas  impostas  pelo  novo  rei 
alteravam diretamente o status de autonomia dos crioulos e desestabilizavam o 
que  tinham  construído  ao  longo  de  três  séculos.  O  sentimento  de  identidade 



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