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Palabras-clave: Literatura Mexicana; Colonización; Jesuitas; Clavijero; Identidad; Nacionalismo. 
 
 
 
 
 
 


LISTA DE ILUSTRAÇÕES 
 
 
Figura 1 
Anahuac  o  Imperio  Megicano  con  los  reinos  de 
Acolhuacan  y  de  Michuacan  &  C.  Como  existían  en  el 
año  de  1521  para  servir  de  ilustración  a  la  Historia 
antigua de Mexico. 
92 
 
 
 
Figura 2 
Sepulcro de Clavijero na Rotonda de personas ilustres 
128 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


SUMÁRIO 
 
1
 
INTRODUÇÃO 
11 
 
 
2
 
OS
 
JESUÍTAS
 
NAS
 
AMÉRICAS:
 
MESTIÇAGENS,
 
EXÍLIO
 
E
 
ORIGENS
 
DA
 
CONSCIÊNCIA
 
NACIONAL 
21 
 
 
2.1 O
S JESUÍTAS NA 
A
MÉRICA E FORA DELA
:
 ESTADIA E EXÍLIO
 
29 
2.2
 
I
DENTIDADES
,
 
ALTERIDADES 


N
OVO 
M
UNDO
:
 
TRANSCULTURAÇÕES
 
44 
 
 
3
 
A
 
“P
OLÊMICA DO 
N
OVO 
M
UNDO

 E A 
H
ISTÓRIA 
A
NTIGUA DE 
M
ÉXICO
 
58 
 
 
3.1
 
A
 
“P
OLÊMICA DO 
N
OVO 
M
UNDO

 E AS HISTÓRIAS NATURAIS
 
62 
3.2
 
A
 
H
ISTORIA 
A
NTIGUA  DE 
M
ÉXICO  E  AS 
D
ISERTACIONES  DE 
C
LAVIJERO
:
  SISTEMATIZAÇÃO  DE  DADOS
,
  NARRATIVAS
,
  PRÁTICAS  E 
COSTUMES DOS POVOS DA 
N
OVA 
E
SPANHA

81 
 
 
4
 
C
LAVIJERO
,
  A 

COLONIALIDAD  DEL  PODER

  E  OS  ANÚNCIOS  DA 
EMANCIPAÇÃO
 
101 
 
 
4.1
 
C
OLONIALIDADE  DO  PODER  E  COLONIZAÇÃO  DO  IMAGINÁRIO
:
 
SOBRE HIERARQUIAS NA COLONIZAÇÃO 
 
103 
4.2
 
C
LAVIJERO E OS ANÚNCIOS DE EMANCIPAÇÃO
 
116 
 
 
5
 
CONSIDERAÇÕES
 
FINAIS 
130 
 
 
REFERÊNCIAS 
139 
 


11 
 
1 INTRODUÇÃO 
 
 
A  essência  do  esclarecimento  é  a  alternativa  que  torna 
inevitável  a  dominação.  Os  homens  sempre  tiveram  de 
escolher  entre  submeter-se  à  natureza  ou  submeter  a 
natureza ao eu
1
.  
 
 
As  discussões  em  torno  da  modernidade  parecem  levar  sempre  em 
conta  as  relações  travadas  entre  a  espécie  humana  e  a  natureza,  suas 
implicações  filosóficas  e  pragmáticas  e  as  mudanças  históricas  engendradas 
pelas  alterações  nesse  relacionamento  que  geralmente  mudou  a  partir  de 
alguma  espécie  de  conflito  entre  o  espírito  e  a  vontade  pelo  poder.  O  século 
XVIII  é  bastante  representativo  de  um  avanço  quanto  ao  estudo  dos  vínculos 
entre  o  ser  humano  e  mundo  natural,  sobretudo  através  das  investigações 
proporcionadas pela filosofia ilustrada num âmbito dito científico. 
A  problematização  da  verdade,  das  tradições,  do  científico,  dos 
paradigmas que regiam as sociedades e da obediência cega ao poder reinante 
foram  pontos  centrais  da  Ilustração.  Através  da  radicalização  de  uma 
racionalidade herdada dos dois séculos anteriores, o pensamento ilustrado dos 
setecentos  prezava  pela  ciência  e  pelo  método,  pela  liberdade  e  pela  moral, 
pela  ética  e  pelo  planejamento  sistemático  de  tudo  o  que  envolvesse  o  bem 
social e a vida em sociedade.  
 
A  Ilustração  é,  segundo  Kant  (2004),  a  saída  do  homem  de  sua 
menoridade intelectual e moral, da qual ele mesmo é culpado por preguiça ou 
covardia.  Kant entende  a Ilustração como uma emancipação dos  homens  que 
escolheram  deixar  as  trevas  da  ignorância  em  favor  do  exercício  da 
racionalidade.  Esse  pressuposto  justificaria  a  dominação  de  alguns  homens 
sobre outros, baseada numa pretensa superioridade do intelecto e da ética dos 
primeiros  em  relação  aos  segundos. 
A  ideia  de  “ser  mais”  e  “ter  mais  o  que 
                                                             
1
 Adorno e Horkheimer em Dialética do esclarecimento.  


12 
 
ensinar”  está  na  base  das  justificativas  de  colonização,  em  seu  caráter 
paternalista. Dessa forma, também é possível compreender a Ilustração como 
um meio de dominação e não de emancipação, como quer Adorno na frase que 
usei como epígrafe.  
 
Mesmo uma época que tenta se basear na razão sistemática de tudo e 
numa  lógica  que  rege  o  universo  é  possível  encontrar  contradições.  O 
Iluminismo  propunha  reformas  estruturais  na  sociedade,  inicialmente  num 
plano  filosófico  que  se  estendeu  a  outras  dimensões  para  as  quais  foram 
fundamentais, como as relações comerciais e políticas
2
. As reformas propostas 
nem  sempre  eram  factíveis,  pelo  menos  não  em  um  curto  prazo,  outras 
exploravam claramente uma dimensão utópica de planos que não tinham como 
ser  postos  em  prática.  Daí  um  estudioso  como  Franco  Venturi  afirmar  que  a 
Ilustração  é  “uma  categoria  histórica  sujeita  a  eclipses”  (2003,  p.  43)  na  qual 
ocorre um “difícil e fecundo equilíbrio entre utopia e reforma” (2003, p. 27).  
A  descoberta  da  América,  marco  histórico  apontado  por  nossa  linha 
teórica  como  o  fundador  da  modernidade  juntamente  com  as  Grandes 
Navegações,  foi  constantemente  revisitada  ao  longo  dos  séculos  e  foi,  no 
século  XVIII, alvo de ideias que dinamizaram os contatos entre Antigo e  Novo 
continentes.  Uma  parcela  que  não  pode  ser  ignorada  da  literatura  acerca  do 
continente americano no século XVI e XVII estava sobrecarregada de aspectos 
místicos,  de  relatos  sobre  tesouros  e  gigantes,  bichos  nunca  antes  vistos  e 
seres  indecifráveis  pela  mente  europeia.  Muitos  dos  relatos  de  viagens,  das 
narrativas  escritas  por  descendentes  de  europeus  nascidos  em  território 
colonial e  os textos de origem pré-hispânica  estavam relegados ao espaço da 
fantasia, como as histórias sobre os incas e outras civilizações pré-colombinas; 
ou  descritos  de  forma  unilateral,  como  a  dominação  do  México  por  Cortés.  O 
fato  é  que  nenhum  deles  havia  passado  ainda  pela  análise  e  reescrita  dos 
filósofos iluministas e por esse motivo pediam uma revisão. 
                                                             
2
 “A liberdade da qual se fala é a liberdade de comércio, a igualdade diz respeito à propriedade 
e  aos  impostos,  a  justiça  consiste  no  melhor  investimento  dos  capitais  e  da  mão-de-
obra” 
(VENTURI, 2003, p. 228) 


13 
 
No  século  XVIII,  a  mudança  no  modo  de  leitura  desses  textos  se 
intensifica  e  dá  espaço  à  produção  de  outros  os  quais  já  demonstravam  a 
incorporação das ideias ilustradas. É fundamental assinalar que entendemos a 
Ilustração  como  um  fenômeno  cujo  ápice  ocorreu  nos  setecentos  e  que  se 
desenvolveu em vários lugares do sistema-mundo em épocas  mais ou  menos 
próximas  que  se  inter-relacionaram  e  não  como  um  evento  originalmente 
europeu  que  ecoou  em  outros  espaços  através  de  cópias  menores  ou 
reproduções  tardias  e  inferiores  do  projeto  ilustrado  francês  ou  inglês.  De 
acordo  com  José  Carlos  Chiaramonte  (1977,  p.  XIV),  a  literatura  setecentista 
na  América  revela  diversas  formas  de  conciliação,  de  entrelaçamento  dos 
aspectos ilustrados com as formas tradicionais, demonstrando uma penetração 
moderada das novas ideias.  
Um  grupo  cuja  participação  foi  decisiva  para  o  florescimento  e 
divulgação  das  ideias  iluministas  na  América  foi  o  dos  padres  jesuítas.  A 
Companhia de Jesus era a principal responsável pela educação nas províncias 
hispânicas  no  Novo  Mundo  e  exercia  influência  na  economia  e  na  política 
locais,  uma  vez  que  estava  diretamente  relacionada  ao  comércio  com  a 
metrópole  e  com  outros  países,  à  agricultura  e  à  administração  de  bens  da 
Coroa  espanhola  e  de  proprietários  locais.  O  lugar  privilegiado  na  esfera 
educativa e a interligação aos interesses da administração colonial, associados 
às  características  inerentes  à  ordem  inaciana  em  relação  à  construção  e 
divulgação  do  conhecimento,  fizeram  dos  padres  jesuítas  vetores  das  ideias 
ilustradas, ainda que através de eventuais omissões de alguns aspectos delas, 
sobretudo no que se referia à religião.  
O  fato  de  a  propagação  das  ideias  iluministas  estar  associada  a  uma 
ordem  religiosa  e  sob  o  crivo  da  Igreja  Católica  fez  com  que  fosse  forjado  o 
contraditório  conceito  de 
“Ilustração  católica”  ou  “Ilustração  cristã”  para 
denominar a expressão ibérica e colonial desse fenômeno histórico. Apesar de 
paradoxal,  esse  “movimiento  intelectual  que  se  abre  entusiastamente  a  la 
seducción del 
‘espíritu del siglo’ pero, al mismo tiempo, salvaguarda y reafirma 
su  adhesión  a  los  dogmas  de  la  Iglesia  o  su  fidelidad  a  la  doctrina  del  origen 
divino  del  poder  real”  (CHIARAMONTE,  1977,  p.  XVIII)  leva  tão  a  sério  a 


14 
 
necessidade  de  coerência  que  reduz  o  escolástico  e  estende  o  moderno  em 
suas  práticas,  confirmando,  em  várias  medidas,  seu  caráter  contraditório. 
Existia  uma  preocupação  em  mostrar  que  não  necessariamente  devia  existir 
um conflito  entre o cristianismo e  uma visão científica e  moderna do  mundo  e 
da história. 
 
A “redescoberta” da América no século XVIII através do olhar  da razão 
iluminista fez com que uma série de novos textos viesse à tona para repensar o 
que  havia  sido  consolidado  sobre  esse  novo  continente,  ainda  carente  de 
novas  investigações.  Os  ideais  do  Iluminismo  propunham  que  os  homens 
deveriam  experimentar  a  razão  adquirindo  o  conhecimento  da  verdade  e  a 
experiência  da  liberdade,  requerendo,  para  isso,  visões  advindas  do  próprio 
indivíduo.  O  ser  humano  deveria  ter  a  habilidade  de  pensar  criticamente  e 
formar  opiniões  sem  depender  exclusivamente  de  pensamentos  e  dogmas 
anteriores e alheios, adquirindo, dessa forma, a “maturidade intelectual”. Para 
pensadores  naturalistas,  o  povo  americano  ainda  não  possuía  competência 
suficiente  para  alcançar  essa  maturidade,  pressuposto  o  qual  levou  vários 
deles  a  dedicarem  estudos  que  justificassem  essa  inabilidade.  A  filosofia  das 
Luzes  descarta  a  imagem  de  paraíso  da  América  e  constrói  um  discurso 
assinalado  pela  negatividade  e  inferioridade  que  emanavam  do  homem  e  da 
natureza do Novo Mundo. 
 
As hipóteses sobre a causa da apatia do novo continente eram variadas, 
porém  a  que  adquiriu  mais  adeptos  parece  ter  surgido  a  partir  de  uma  teoria 
dos  climas  de  Montesquieu,  a  qual  propõe  que,  no  frio,  as  fibras  corporais 
comprimem-se  e  convertem  o  homem  em  disposto  trabalhador  e  bravo 
guerreiro  (seria  o  caso  dos  europeus).  Em  outras  partes  do  mundo,  porém, 
devido  ao  clima  úmido  e  maior  proximidade  da  linha  equatorial,  os  habitantes 
seriam tomados por um estado de inércia, indisposição e mesmo fraqueza, que 
os  tornaria  débeis.  Naturalistas  como  Georges-Louis  Leclerc,  o  conde  de 
Buffon,  Cornelius  De  Pauw,  Guillaume  Thomas  François
 
Raynal  e  William 
Robertson  dão  continuidade  à  teoria  montesquiana,  variando,  de  acordo  com 
as  interpretações  de  cada  um,  o  nível  de  depreciação  destinado  aos  temas 
americanos. Em  defesa  desses últimos, surgem  homens adeptos à  outra  face 


15 
 
dos  ideais  ilustrados,  resistindo  às  agressões  destinadas  aos  não  europeus. 
Integram  a  lista  de  defensores  da  América  nomes  como  Alexander  von
 
Humboldt,  Michel  de  Montaigne,  Francisco  Javier  Clavijero
3
  e  outros  que,  em 
maior  ou  menor  grau,  encontraram  o  que  elogiar  no  Novo  Mundo.  O  diálogo 
estabelecido  entre  esses  polos  de  opiniões  antagônicas  recebeu  o  título  de 
“polêmica”  ou  “disputa  do  Novo  Mundo”,  estudada  atentamente  por  Antonello 
Gerbi em O Novo Mundo. História de uma polêmica (1750-1900).  
 
Nosso interesse particular neste trabalho recai sobre uma obra do último 
autor  supracitado,  o  jesuíta  Francisco  Javier  Clavijero  que,  num  exílio  forçado 
na Itália, redigiu a Historia Antigua de México, cuja primeira publicação se deu 
em  1780,  e  as  Disertaciones,  texto  anexo  ao  quarto  tomo  da  Historia.  Nas 
muitas  páginas  que  escreveu,  traçou  um  longo  estudo  através  de  um  método 
rigoroso,  de  uma  seleta  erudição  e  de  um  estilo  apropriado  aos  moldes 
ilustrados  sobre  o  quadro  da  civilização  indígena  e  a  conquista  hispânica.  A 
partir  do  retrato  que  pinta,  ao  mesmo  tempo  que  revela  para  o  mundo  uma 
versão  conhecida  por  poucos  dos  nativos  americanos,  nativo  que  era, 
demonstra  a  competência  dos  mesmos  em  reaproveitar,  remanufaturar  e 
traduzir o discurso determinista europeu numa autodefesa dos povos oprimidos 
pela colonização. 
 
O discurso cientificista naturalista, baseado no determinismo geográfico, 
retratava  os  povos  americanos  como  inferiores,  impondo  a  ideia  incontestável 
da  superioridade  dos  europeus.  Ao  mesmo  tempo,  no  entanto,  tal  método 
discursivo  dava  margem  à  possibilidade  de  contestação  desse  postulado.  A 
Historia Antigua de México e as Disertaciones são obras que lançam contra os 
colonizadores,  fazendo  uso  do  discurso  elaborado  por  eles  mesmos,  uma 
defesa  bem  fundamentada  do  território  e  do  povo  colonizado.  Dessa  forma, 
representam  a  voz  dos  marginalizados,  resgatando  um  passado  que,  por 
direito,  merecia  ser  conhecido  e  se  converte  em  material  contundente  de 
resposta  às  teorias  dos  filósofos  naturalistas  europeus,  constituindo 
                                                             
3
 O nome desse autor encontra-se grafado de duas formas na literatura sobre o tema, a saber: 
Clavigero  ou  Clavijero.  Optamos  por  usar  o segundo,  pois  é  como  está  grafado  na  edição  da 
obra consultada para a realização deste trabalho. 


16 
 
instrumento  de  peso  para  delinear  as  identidades  culturais  latino-americanas. 
Em seu conjunto, a obra do jesuíta ajuda a repensar a ideia de América Latina, 
o  que  a  torna  alvo  pertinente  de  pesquisas  que  busquem  analisar  as  funções 
da  literatura  ilustrada  colonial  hispano-americana  e  os  diálogos  que  se 
estabeleciam com as obras e o pensamento do colonizador. 
 
Na referida obra, a voz dos vencidos atravessa oceanos e ecoa tanto na 
Europa quanto na América, apontando para o caminho inverso na “disputa do 
Novo Mundo”. Recontando a história dos colonizados, através da narrativa da 
história  do  México  pré-cortesiano,  Clavijero  dá  a  conhecer  e  faz  repensar  um 
outro homem americano, com sabedoria e tradições próprias. Nesse sentido, a 
Historia  Antigua  de  México  é  uma  etapa  fundamental  para  as  letras  que 
contribuíram  para  a  divulgação  de  forma  sistemática  das  culturas  dos  povos 
periféricos e para configurar o pensamento de emancipação. Ao mostrar o povo 
americano  (mais  especificamente  o  mexicano)  como  possuidor  de  tradição 
própria  e  “dono”  de  seu  passado,  Clavijero  contribui  para  a  ruptura  com  o 
pensamento  de  dependência  política,  econômica  e  sobretudo  cultural  da 
América em relação à Europa. 
 
O objetivo central deste estudo é analisar como a obra  Historia Antigua 
de México traduziu o pensamento etnocêntrico europeu numa forma de defesa 
do potencial  histórico e  intelectual dos povos colonizados, contribuindo para  a 
transformação que se operou, no campo do discurso, da imagem anteriormente 
imposta das culturas daqueles povos. A busca para cumprir essa meta esbarra 
na  necessidade  de  falar  sobre  alguns  temas  que  a  complementam  e 
constituem um caminho teórico e analítico coerente; por esse motivo julgamos 
pertinente  investigar  como  os  debates  relativos  à  circulação  e  uso  das  ideias 
ilustradas  renovaram  as  sociedades  coloniais  e  levaram  intelectuais  a  refletir 
sobre as  identidades culturais  dos povos  hispano-americanos; examinar como 
se  estabeleceu  e  quais  as  consequências  do  diálogo  entre  autores  europeus, 
como  Buffon,  De  Pauw,  Raynal  e  Robertson,  e  a  obra  de  Clavijero;  observar 
como  a  apropriação  responsável  das  ideias  dos  filósofos  europeus  contribuiu 
para diluir o estigma de atraso e inferioridade atribuído à América  Hispânica e 
ajudaram a formular o pensamento de emancipação das colônias. 


17 
 
 
Para que nossas pretensões sejam atingidas e para dar ao trabalho um 
tom  coerente  são  necessárias  algumas  observações  que,  se  não  apontadas, 
podem  gerar  mal  entendidos.  A  primeira  delas  tem  a  ver  com  que  concepção 
de  literatura  subjaz  um  estudo  como  este.  Entendemos  que  estudar  as 
literaturas  coloniais  exige  não  atribuir  ao  conceito  d
e  “literário”  restrições  que 
limitam  toda  literatura  à  ideia  de  ficção.  Uma  vez  que  o  corpus  do  período  é 
representado  sobretudo  por  escritos  de  cunho  histórico,  político  e  econômico, 
adotamos  uma  concepção  ampla  de  literatura,  buscando  observar  as 
peculiaridades de cada texto. Então, assim como afirma Mignolo em A língua, a 
letra,  o  território  (ou  a  crise  dos  estudos  literários  coloniais)
“o  centro  de 
atenção se desloca da literatura (no sentido de ‘belles lettres’) para a literatura 
(no sentido de produç
ão discursiva escrita)” (2013, p. 05). Essa postura crítica 
nos indica “um duplo deslocamento que nos leva da ideia de literatura imposta 
por  uma  tradição  cultural  para  o  conceito  de  literatura  forjado  em  uma  prática 
disciplinar.”  (2013,  p.  05)  Compreender  o  literário  dessa  forma  evita  cair  nos 
monótonos diálogos sobre o estatuto do corpus desta dissertação.  
 
Outra ressalva que merece ser feita tem a ver com o que queremos dizer 
ao referir-
nos à palavra “identidade”. Os estudos correntes dão a entender que 
é  possível  pensar  identidade  como  uma  tautologia  ou  como  um  elemento 
redutor  de  uma  complexidade  a  classificações  estanques,  como  as  de  raça, 
gênero  e classe. Quando empregamos o termo  identidade queremos associá-
lo,  necessariamente,  à  ideia  de  pertencimento;  sua  compreensão  deve 
considerar relações intrínsecas com a diferença e com alteridades. Também é 
fundamental  entender  esse  conceito  como  uma  construção  relacional,  isto  é, 
um conceito que só tem forma se posto ao lado de uma entidade fora dele, que 
é  outra  identidade;  a  identidade  só  existe  em  função  do  Outro.  Além  disso,  é 
preciso  assinalar  que  a  ideia  de  identidade  (ou  de  pertencimento)  é  uma 
construção histórica que não existe por si só nem de forma absoluta. 
 
Dito isso, quando afirmamos que a Historia de Clavijero contribui para a 
formatação  de  uma  identidade  hispanoamericana  e  é  vital  para  a  constituição 
da  identidade  mexicana  queremos  assinalar  que  o  modo  como  ele  descreveu 
os povos nativos de forma relacional com os europeus despertou nos primeiros 


18 
 
uma  noção  de  pertencimento  não  a  um  não-lugar  ou  a  um  espaço  inferior, 
como até o século XVIII parecia ser destinado aos americanos, mas a um local 
cujo  passado  não  está  vinculado  ao  do  Antigo  Continente.  Ao  apontar  raízes 
próprias,  a  ideia  de  dívida  ou  de  ancestralidade  em  relação  aos  europeus  se 
rompe  não  apenas  no  diálogo  cotidiano  das  pessoas,  mas  nos  circuitos 
intelectuais  e  científicos  mais  altos  da  época.  Em  outras  palavras:  Clavijero 
expõe  as  relações  entre  um  povo  e  seu  lugar  de  origem  até  então 
escamoteadas  por  um  discurso  elaborado  pelo  colonizador  e  evidencia  o 
espaço a que esse povo pertence, além de não demonstrá-lo como inferior ou 
devedor de nada a ninguém.  
 
Tendo  em  vista  a  análise  proposta,  subdividimos  esta  dissertação  em 
três capítulos que visam ao cumprimento dos objetivos. No primeiro capítulo é 
feita  uma  retomada  da  história  dos  jesuítas  para  melhor  contextualizar  as 
implicações de suas ações na América Hispânica e os  motivos que levaram a 
sua  expulsão  dos  domínios  ibéricos  no  final  século  XVIII.  Nesse  momento 
apontamos  as  principais  características  da  ordem  as  quais  são  determinantes 
do  modo  de  proceder  dos  padres  que  a  integram.  Num  segundo  momento, 
dedicamo-nos à interação específica dos jesuítas com os domínios hispânicos, 
tratando  desde  sua  chegada  até  sua  expulsão  em  1767.  Por  fim,  tratamos  da 
questão das identidades dos padres  nascidos na colônia, mas comprometidos 
com ideais metropolitanos e com instituições que pouco ou nada valorizam sua 
terra natal, cujo único objetivo associado ao território era como conseguir lucro 
imediato. Contribuem para a argumentação proposta, entre outros, os estudos 
de Jonathan Wright, Adone Agnolin, Serge Gruzinski e Carlos Fuentes.  
 
Ao segundo capítulo cabe a exposição e reflexão sobre a “polêmica do 
Novo  Mundo”  e  a  participação  de  Clavijero  no  diálogo  entre  americanistas  e 
antiamericanistas.  Retomamos  os  textos  que  dialogam  com  a  Historia  e 
relacionamos  a  eles  as  respostas  do  padre.  Tomamos  o  cuidado  de  só 
desenvolver as  ideias propostas por  aqueles que foram referidos na obra  alvo 
deste  trabalho  ou  com  ela  estabeleceram  relação,  do  contrário  correríamos  o 
risco  da  prolixidade.  Para  melhor  fundamentar  a  posição  que  argumentamos 
ser a de Clavijero na referida polêmica, comentamos em maior detalhe alguns 


19 
 
aspectos da obra no subitem final do capítulo. A referência básica do capítulo, 
além  da  obra  alvo  de  nossa  análise,  é  o  clássico  estudo  de  Antonello  Gerbi 
sobre o tema. Cabe salientar que a obra de Clavijero é analisada aqui em seu 
caráter relacional com outros textos e com seus leitores (diretos ou indiretos), o 
que justifica a eventual ausência de uma análise imanente do texto. 
 
O terceiro capítulo 
trata das relações entre a “disputa do Novo Mundo”, 
os pressupostos antiamericanistas, a obra de Clavijero e a formatação de uma 
consciência  de  nacionalidade  e  os  movimentos  emancipatórios.  Participam 
também dessa reflexão as ideias de Kant, através do postulado da menoridade 
intelectual  dos  povos  que  não  atingiram  o  esclarecimento,  e  a  refutação 
elaborada por Foucault para a teoria kantiana. Desenvolvemos nessa parte as 
relações  entre  colonização  e  Iluminismo,  bem  como  as  deste  último  com  a 
colonialidade  do  poder.  Permeiam  nossos  argumentos  as  ideias  de  Serge 
Gruzinski,  Aníbal  Quijano  e  Santiago  Castro-Gómez.  Defendemos  a  ideia  de 
que  a  colonização  só  foi  possível  através  da  imposição  de  um  imaginário  de 
superioridade cultural que foi incorporado pelos povos colonizados, através, por 
exemplo,  de  um  imaginário  da  brancura.  A  consolidação  desse  imaginário 
acentuou  hierarquias  dentro  da  sociedade  colonial  e  fez  com  que  as  elites  se 
sentissem  mais  próximas  da  condição  de  colonizador/dominador.  A 
contestação  desse  imaginário,  por  sua  vez,  gerou  nos  representantes  dessa 
mesma elite a possibilidade de se desvincular da tutela metropolitana e manter 
sua  condição  no  topo  da  escala  social,  o  que  acelerou  o  processo  de 
emancipação.  
 
A  obra  de  Clavijero  rompeu  com  vários  dos  esquemas  clássicos  da 
historiografia  oficial  da  Espanha  sobre  seus  domínios,  em  particular  sobre  o 
México,  na  medida  que  enfrentou  preconceitos  e  equívocos  das  teorias 
detratoras da América. No caráter dual da obra  do jesuíta ilustrado reside  seu 
valor  dentro  da  historiografia  mexicana,  da  qual  é  considerado  fundador,  e 
universal.  Para  a  primeira  representa  a  concepção  criolla  do  México  antigo, 
para  a  segunda  representa  a  tentativa  de  retratar  o  nascimento,  apogeu  e 
declínio de uma civilização. 


20 
 
 
Entendemos que a obra de Clavijero cumpriu um papel fundamental em 
várias medidas para estimular e consolidar a ideia de uma identidade nacional, 
além  de  constituir  leitura  básica  para  os  atores  da  emancipação  das  colônias 
americanas,  mesmo  para  aqueles  cujas  investidas  foram  frustradas,  como  o 
precursor 
Miranda. 
Ao 
destituir 

validade 
dos 
postulados 
dos 
antiamericanistas,  abrindo  um  precedente  de  ruptura  com  o  imaginário  da 
colonização, o autor mexicano endossa e faz ser ouvida a voz dos vencidos e a 
faz  ecoar  em  ambos  os  continentes.  A  Historia  Antigua  de  México  e  as 
Disertaciones  são  o  veículo  desse  som  que  pede  por  igualdade  e  respeito  e 
tem a ver com liberdade.  
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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