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5 CONSIDERAÇÕES FINAIS 
 
 
 
A  razão  ilustrada  do  século  XVIII  foi  responsável  por  mudanças  no 
pensamento moderno e na forma como as sociedades humanas ocidentais se 
entendiam enquanto particulares e universais. A configuração de identidades e 
pertencimentos  foi  dinamizada  a  partir  dos  temas  debatidos  nos  cenários 
filosóficos  e  científicos,  os  quais  compreendiam  o  estudo  aprofundado  e 
sistemático de tudo quanto se relacionasse ao homem e seu meio. A ordem era 
“liberar o homem de tudo quanto o oprime” (VENTURI, 2003,  p. 144). O ideal 
de  liberdade  dá  a  entender  que  homens  e  nações  seriam  ontologicamente 
autônomos e nada justificaria o direito de dominar. Acontece que apesar de ser 
justamente o iluminismo que “dá um novo sentido à ideia de natureza humana, 
que  combate  contra  a  superstição,  que  abre  o  espírito  à  aceitação  de  uma 
sociedade  na  qual  também  os  cabeleireiros,  assim  como  todos  os  que 
trabalham  e  produzem,  possam  ser  livres  e  politicamente  ativos  (VENTURI, 
2003,  p.  168),  a  filosofia  das  Luzes  funciona  também  como  um  modo  de 
justificar  a  colonização  a  partir  de  um  imaginário  de  superioridade  entre  as 
nações.  
 
As  contradições  dessa  etapa  da  história  humana  se  desenvolveram  e 
ganharam  dimensões  a  níveis  planetários,  de  modo  que  esse  imaginário  de 
superioridade  dos  europeus  em  relação  ao  resto  do  mundo  ganhou  força  e 
aceitação  não  apenas  daqueles  que  adquiriram  o  estatuto  de  superioridade 
comprovada cientificamente, mas entre os que tinham que se submeter ao jugo 
daqueles  que  reclamavam  o  poder  como  se  este  fosse  um  direito  inerente  a 
poucos.  A  mesma  Razão  que  deu  espaço  aos  princípios  deterministas  de 
imposição  do  poder  também  propiciou  a  reflexão  sobre  sua  invalidade.  A 
“disputa do Novo Mundo” é um exemplo de como o mesmo cenário intelectual 
pode gerar discursos antagônicos sobre o mesmo objeto. 
 
Os textos dos antiamericanistas, representados pelas figuras de Buffon, 
De Pauw, Raynal e Robertson, expressavam uma interpretação que degradava 


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a América e a descrevia como espaço degenerado e inferior o qual não poderia 
prosperar sem a tutela de povos superiores. Esse pressuposto, ainda que não 
explicitamente,  corroborava  com  a  colonização,  pois  justificava  o  porquê  da 
necessidade  de  envolver  uma  administração  externa  a  um  determinado 
território: ele sozinho seria incapaz de evoluir. Algo tão degradado poderia, se 
não devidamente supervisionado e conduzido, expandir sua miséria a territórios 
neutros ou simplesmente desperdiçar recursos naturais importantes. Isso devia 
ser  impedido  através  da  ajuda  daqueles  que  já  atingiram  uma  maioridade 
intelectual, política, econômica e científica.  
 
A partir de ideais deterministas como esses, o imaginário foi colonizado 
e  a  imposição  da  tutela  e  da  força  cedeu  ao  diálogo  e  à  cooperação  mútua 
entre  nações.  O  pensamento  ilustrado  de  autores  americanistas,  como 
Clavijero, e as publicações advindas de seus estudos contribuíram para alterar 
e  abalar  esse  imaginário.  Os  levantamentos  e  reflexões  sobre  as  origens  e 
história dos povos colonizados abriu caminho para um conhecimento até então 
praticamente  desconhecido  do  grande  público  letrado,  pois  muitas  das 
informações  circulavam  através  de  relatos  orais  ou  em  documentos  cujo 
acesso era restrito.  
 
A  participação  dos  padres  jesuítas  na  divulgação  desse  conhecimento 
foi  fundamental  para  a  elaboração  do  discurso  americanista  e  da  defesa  dos 
povos  e  elementos  do  Novo  Continente.  As  características  da  Companhia  de 
Jesus  fizeram  com  que  seus  membros  estivessem  informados  da  produção 
intelectual de seu tempo e não só realizassem sua difusão, mas participassem, 
eles mesmos, dos debates em torno das questões sobre as quais se pensava 
através  da  publicação  de  obras  que  contribuíssem  para  a  filosofia  e  para  a 
ciência.  
 
Um  ponto  que  merece  ser  assinalado  é  que  a  participação  dos  padres 
inacianos na polêmica do Novo Mundo não se deu de maneira uniforme. Houve 
representantes  peninsulares  da  Companhia  que  se  posicionaram  do  lado 
antiamericanista  da  disputa.  A  contribuição  maior  e  efetiva  ocorreu  por  parte 
dos jesuítas que nasceram ou moravam nas Américas e foram expulsos dela. A 
expatriação dos padres teve efeitos que não se restringiram à vida deles, mas 


132 
 
se  fizeram  sentir  no  lugar  que  foi  deixado  para  trás  e  no  que  recebeu  os 
desterrados.  No  primeiro  caso,  a  partida  obrigatória  de  pessoas  que  faziam 
parte  de  uma  elite  econômica  e  intelectual  que  comandava  vários  setores  da 
sociedade e exercia influência sobre os demais deixou um vazio administrativo 
e  mesmo  sentimental;  não  foram  apenas  os  cargos  oficiais  que  ficaram  sem 
seus encarregados, mas famílias tornaram-se incompletas por imposição alheia 
e  pouco  justificada.  Os  pais  que  ficaram  sem  seus  filhos,  a  distância  de  um 
irmão  querido,  a  ausência  dos  professores  que  davam  acesso  aos 
conhecimentos necessários para uma possível mudança de nível social fizeram 
com  que  os  ânimos  já  insatisfeitos  com  outras  reformas  bourbônicas  se 
inflamassem ainda mais contra a coroa espanhola. No segundo caso, cidades 
da Itália receberam praticamente ao mesmo tempo um enorme contingente de 
intelectuais que, privados de seus ofícios habituais, dinamizaram as produções 
e  publicações  sobre  os  mais  variados  temas,  inclusive  sobre  as  cidades  que 
tiveram que abandonar.  
 
Franco  Venturi  argumenta  que  o  Iluminismo  dá  lugar  a  uma  nova 
espécie  de  patriotismo  “indissoluvelmente  ligado  à  liberdade,  sendo 
inconcebível  ou  absurdo  fora  dela”  (2003,  p.  142).  Segundo  ele,  “o  novo 
patriotismo  tem  uma  longa  e  rica  tradição,  mas  se  apresenta  agora  de  tal 
maneira  que  todos  os  homens  podem  e  devem  entendê-lo.  Ele  é 
universalmente  humano  e  cosmopolita”  (2003,  p.  143).  Essa  nova  ideia  de 
pátria
30
,  inicialmente  gestada  para  reclamar  uma  alteração  nas  formas  de 
proceder  nas  relações  comerciais  entre  países  europeus  e  transações  entre 
eles  e  outros  continentes  acabou  servindo  não  apenas  para  garantir  um 
crescimento  da  classe  burguesa,  mas  para  fundamentar  as  ideias  de 
emancipação das colônias americanas.  
 
As  publicações  em  torno  da  Disputa  do  Novo  Mundo  foram  também, 
como  dissemos  em  vários  momentos  deste  trabalho,  essenciais  para  o 
                                                             
30
  No  presente  estudo  não  tivemos  a  pretensão  de  revisar  e refletir  sobre os  aportes  teóricos 
que abordam temáticas relacionadas aos conceitos de pátria e de nação. Quando fazemos uso 
de  tais  substantivos  queremos  necessariamente  associá-los  à  ideia  de  pertencimento 
(geográfico  e  cultural),  o  qual leva  em  conta  um  sentimento  de  ancestralidade  do homem  em 
relação ao seu lugar de nascimento. 


133 
 
pensamento  de  libertação  dos  territórios  colonizados.  A  reflexão  sobre  o 
caráter dos povos e da natureza americanos em termos científicos fez com que 
a  discussão  se  elevasse  a  um  patamar  que  era  digno  de  atenção.  Enquanto 
havia textos que retratavam a América através de um tom fabuloso ou místico, 
dando  mais  espaço  à  fantasia  e  ao  maravilhoso  que  a  aspectos  apreciados 
pela  Razão,  e  não  havia  um  volumoso  contrapeso  usando  a  linguagem 
apreciada pela Ilustração, a ideia de independência podia parecer uma grande 
piada.  A  partir  do  momento  que  a  situação  discursiva  sobre  o  Novo  Mundo 
ganha  outro  tom,  o  da  Razão,  essa  mudança  se  expande  para  diversas 
representações que eram relegadas ao novo continente a ponto de justificar os 
movimentos independentistas.  
 
Por  outro  lado,  os  textos  em  torno  da  América  não  só  visavam  à 
comprovação 
de 
dependência 
e  inferioridade 
ou 
aos 
movimentos 
emancipatórios.  As  descrições  da  natureza  e  dos  homens  realizadas  por 
filósofos ilustrados serviam, talvez mais que tudo, para repensar as identidades 
dos  europeus.  Os  resultados  dos  debates  serviam  também  para  fortalecer  o 
ponto  de  vista  dos  europeus  sobre  suas  gentes.  De  acordo  com  Maria  das 
Graças de Souza,  
 
Na  verdade,  os  filósofos  utilizam  a  voga  do  exotismo  colonial  para 
refletir  sobre  sua  própria  sociedade,  e,  neste  sentido,  suas 
referências  à  América  lhes  servem  muito  mais  para  conhecer  a  si 
mesmos  do  que  aos  americanos.  Frequentemente,  o  recurso  aos 
temas  relativos  à  América  são  instrumentos  de  esclarecimento  ou 
mesmo  de  demonstração  de  sua  própria  filosofia  [...].  Assim,  o  uso 
destas  figuras  e  imagens  é  instrumento  de  autoconhecimento  e  se 
transforma ao mesmo tempo numa ferramenta aguda para proceder à 
crítica da sociedade do século XVIII e de suas instituições, ou mesmo 
da tradição teológico-metafísica (SOUZA, 2001, p.209).  
 
 
Essa afirmação só reforça a ideia de que a identidade e o pertencimento 
a  um  grupo  só  se  dá  de  forma  relacional,  um  grupo  só  se  entende  enquanto 
coletividade comum quando compreende outras coletividades como diferentes. 
Ainda nas palavras de Souza: “na confrontação com o outro, descubro que este 
outro  é  detentor  de  um  sa
ber sobre  mim que  me  escapara” (2001, p. 219). É 


134 
 
esse saber que é alimentado através das publicações em torno da polêmica do 
Novo  Mundo.  Tanto  os  textos  americanistas  quanto  os  antiamericanistas 
expõem  visões  da  América  e  da  Europa  que  servem  para  ser  refletidas  e 
reelaboradas  mutuamente.  Tanto  os  primeiros  dizem  verdades  e  inverdades 
sobre  os  segundos  como  vice-versa. O  diálogo  corrobora  para  a  refutação  de 
características  que  não  eram  comprováveis  na  realidade  prática  como  para 
indicar outras que eram coerentes mas ainda não tinham sido percebidas.  
 
No  tocante  à  qualidade  científica  inerente  aos  textos  relacionados  à 
Disputa  cabe  ainda  uma  observação:  o  caráter  sistemático  e  científico  do 
Iluminismo  pressupunha  a  utilização  de  um  método  rigoroso  que  não  admitia, 
em  princípio,  conclusões  precipitadas  fruto  de  conhecimentos  sem 
comprovações  empíricas.  Nesse  sentido,  os  textos  elaborados  pela  vertente 
antiamericanista  dá  um  passo  atrás  no  domínio  do  pensamento  ilustrado,  já 
que  se  escreveu  através  de  generalizações  que  não  encontravam,  em  sua 
maioria, comprovação prática. Por outro lado, 
 
Ninguno  de  los  expulsos  que  participó  en  la  “disputa  del  Nuevo 
Mundo” escribió historias generales de América, como habían hecho 
los filósofos europeos, sino que se limitaron a la historia de regiones 
muy específicas que conocían bien, fueron extremamente cuidadosos  
en  no  salirse  de  los  límites  geográficos  que  estipulaban  para  sus 
historias.  Dada  la  importancia  de  la  experiencia  empírica  en  el 
proceso  de  conocimiento  del  siglo  XVIII,  esto  constituyó  un  primer 
aspecto  estratégico  que  les  confirió  la  autoridad  de  la  experiencia 
directa, frente al discurso hipotético de teóricos que no habían salido 
de  sus  estudios  para  confirmar  la  fidelidad  empírica  de  sus 
razonamientos.  Además,  los  hispanoamericanos  no  sólo  conocían 
bien  la  naturaleza  americana,  sino  también  la  europea.  Así  pues,  el 
contraste en métodos se hizo evidente entre los expulsos, que no se 
atrevieron  a  aventurar  suposiciones  acerca  de  lo  que  no  conocían 
bien,  y  los  filósofos  que  desarrollaban  todo  un  sistema  sobre  una 
base  de  datos  que  no  conocían  personalmente  (MÉNDEZ-BONITO, 
2005, p. 228) 
 
 
Dessa  forma,  a  defesa  elaborada  por  Clavijero  dá  passos  adiante  na 
demonstração do método ilustrado e na comprovação de que não só europeus 
são  capazes  de  dominar  tal  método.  Os  modos  de  demonstrar  a  validade  e 
coerência  dos  discursos  elaborados  por  autores  americanos  foram  mais 


135 
 
competentes  e  cuidadosos  que  o  de  muitos  europeus  que  ganharam  fama, 
como  Cornelius  De  Pauw.  O  resultado  dessa  dicotomia  da  validade  dos 
argumentos foi a emancipação das colônias, a qual confirmou muito do que foi 
dito pelos americanistas e deitou por terra várias das teorias dos detratores da 
América. 
 
Na  Historia  Antigua  de  Mexico,  Clavijero  elabora  a  que  hoje  é 
considerada  a  primeira  história  sistemática  dos  povos  mexicanos  anteriores  à 
conquista.  O  conhecimento  dos  idiomas  locais  e  a  vivência,  desde  a  infância, 
no  espaço  alvo  de  seus  escritos  garantiu  ao  jesuíta  a  autoridade  sobre  o  que 
falava.  Ao  descrever  a  natureza  mexicana,  Clavijero  refutou  as  teorias 
degenerativas  de  De  Pauw  e  colocou  em  xeque  muitas  das  ideias  de  Buffon, 
naturalista  extremamente  respeitado  no  cenário  europeu.  As  minuciosas 
descrições, o tom ponderado ao comentar práticas culturais,  a mediação entre 
fervor  religioso  e  razoamento  ilustrado,  a  referência  a  fontes  verificáveis  em 
paralelo à narração de relatos que ouvira ao longo da vida fizeram com que  a 
obra  do  inaciano  em  pouco  tempo  fosse  popularizada  entre  os  letrados 
europeus.  
 
O método clavijeriano  de  escrever, situado entre a defesa  ponderada e 
séria, sem acessos de sentimentalismo exagerado, e o domínio do pensamento 
ilustrado  fez  com  que  seus  textos  fossem  elevados  do  patamar  dos  jesuítas 
que apenas publicavam poemas emocionados de saudades ou críticas mais ou 
menos ferinas aos responsáveis pelo exílio sofrido a um lugar privilegiado nas 
estantes dos leitores ilustrados e do público que teve seu interesse despertado 
por um modo diferente de falar sobre a América.  
 
No cenário colonial, a obra de Clavijero, enviada por ele mesmo para o 
reitor  da  universidade  do  México  e  para  vários  personagens  ilustres  da 
sociedade mexicana e de outras províncias espanholas na América, despertou 
diferentes  emoções  e  atitudes  em  seus  leitores  diretos  e  naqueles  que,  ao 
saber do feito do padre, entenderam sua importância. Ao ouvir de um livro que 
contava  sobre  um  México  que  ainda  não  havia  sido  retratado  pela  escrita 
valorizada  pelos  europeus  e  era  representado  tal  como  os  relatos  populares 
afirmavam,  os  criollos  incomodados  com  as  correntes  medidas  políticas  da 


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Coroa espanhola e os mestiços envolvidos nas esferas intelectuais, políticas e 
econômicas da Nova Espanha associaram a essa obra o sentimento de história 
da  pátria.  Não  se  tratava  mais  de  um  europeu  querendo  justificar  sua 
superioridade  através  de  uma  narrativa  inventada  e  em  limitados  pontos 
apoiada  na  verdade.  O  texto  de  Clavijero  era  a  representação  de  um  México 
livre das tutelas  e imposições  europeias, um  México liberto  que havia  existido 
antes  das  Grandes  Navegações  e  que  poderia  voltar  a  existir  se  homens 
comprometidos lutassem por isso. 
 
Ainda  que  essa  não  fosse  a  pretensão  de  Clavijero,  o  conjunto  da  sua 
obra  em  muito  extrapolou  a  necessidade  de  dar  uma  resposta  às  detrações 
imputadas  à  América  pelos  naturalistas  ilustrados,  ele  constituiu  o  objeto  a 
partir  do  qual  seus  compatriotas  fincaram  sua  consciência  de  nacionalidade  e 
identidade  nacional.  Em  1826  foi  publicada  em  Londres  a  primeira  edição  em 
língua  espanhola  da  Historia,  essa  edição  circulou  entre  criollos  que  lá 
realizavam seus estudos e entre grupos variados nas províncias mexicanas. A 
ideia de pertencimento, que já existia, achou fundamentos científicos, tão caros 
à época, para sustentá-la, o que fez de Clavijero um precursor dos movimentos 
independentistas em favor do México, daí a relevância de estudá-lo.  
 
Faz-se importante assinalar que o fato de Clavijero resgatar identidades 
que caminhavam para o esquecimento e de efetivamente participar do escopo 
intelectual  que  impulsionou  a  configuração  de  consciência  e  identidades 
nacionais  não  quis  dizer  que  o  domínio  mental  exercido  pelos  vetores  do 
eurocentrismo  foi  dizimado.  Mesmo  depois  da  independência  esses  traços 
perduraram,  inclusive  através  da  concentração  de  renda  e  na  divisão  do 
trabalho.  A  emancipação  não  gerou  igualdade  social,  nem  mesmo  uma 
autêntica e massiva inclusão dos grupos excluídos no controle da economia e 
da  política.  Ainda  assim,  o  México  foi  um  dos  protagonistas  no  processo  de 
descolonização  no  cenário  latino-americano  e  esforços  empreendidos  por 
homens como Clavijero certamente têm a ver com isso. 
 
Mesmo  que  os  processos  de  emancipação  não  tenham  garantido  a 
igualdade  social,  ou  sequer  uma  inclusão  em  massa  dos  grupos 
marginalizados e explorados no controle da economia e da política; mesmo que 


137 
 
não  tenha  existido  uma  descolonização  da  sociedade  e  que  a  emancipação 
tenha funcionado apenas como uma “rearticulación de la colonialidad del poder 
sobre nuevas bases  institucionales” (QUIJANO, 2000, p.  17), o efeito  da  obra 
de  Clavijero  foi  fundamental  no  sentido  de  reavivar  a  memória  dos  povos 
antigos e de, num plano mais pragmático, fazer o louvor da elite criolla.  
 
As  relações  visíveis  entre  colonização  e  modernidade  e  Ilustração  e 
colonialidade  dão  espaço  a  reflexões  que  abrangem  um  alto  quantitativo  de 
temas  relacionados  aos  estudos  culturais,  à  literatura  e  às  ciências  humanas 
de um  modo transdisciplinar, como  é o caso deste trabalho. Há  muito  ainda o 
que investigar nesse campo  que parece abrir, a cada pesquisa somada  a ele, 
mais  possibilidades  de  estudo.  O  século  das  Luzes  dá  margem  ainda  para 
muitas  pesquisas,  assim  também  o  faz  o  período  colonial  da  América. 
Associados, podem ser uma combinação frutífera para a pesquisa acadêmica. 
Um  caminho  interessante  é  notar  como  o  discurso  ilustrado  se  desenvolveu 
nas províncias colonizadas em paralelo às manifestações ocorridas na Europa. 
Também  podem  ser  interessantes  as  pesquisas  sobre  a  Ilustração  Católica  e 
suas  manifestações  na  América  colonial.  Outro  estudo  que  seria  válido  é  a 
relação  de  outros jesuítas com  os  movimentos emancipatórios. A  participação 
de  Clavijero  se  deu  de  forma  indireta,  subjacente  à  formação  de  uma 
consciência nacional no sentido de que o autor não fez apologia à necessidade 
de  lutas  por  emancipação,  embora  corroborasse  os  ideais  de  independência 
através do incentivo, por exemplo, ao livre comércio e à  autonomia para cada 
província  escolher  com  quem  realizava  negócios.  O  estímulo  à  emancipação 
esboçado  por  Clavijero  não  se  expressou,  em  nenhum  momento,  a  partir  de 
evocações  diretas  à  luta  contra  os  colonizadores,  mas  através  de  princípios 
ilustrados  de  liberdade.  Houve  jesuítas  que  participaram  de  forma  mais  ativa, 
escrevendo, inclusive, textos específicos para os movimentos independentistas 
e  convidando  seus  leitores  para  a  luta,  como  a  Carta  a  los  españoles 
americanos  de  Juan  Pablo  Viscardo  y  Guzmán;  esses  textos  merecem  ser 
estudados.  
 
Francisco Clavijero foi uma figura destacada do Século das Luzes e sua 



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