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partir do diálogo estabelecido entre Antigo e Novo continentes, a redefinição do



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partir do diálogo estabelecido entre Antigo e Novo continentes, a redefinição do 
poder  político  entre  as  cortes  europeias  e  os  povos  colonizados.  Como 
dissemos  no  primeiro  capítulo,  a  desestabilização  do  Império  espanhol  na 
segunda metade do século XVIII só incentivou o sentimento emancipatório nas 
províncias, sobretudo na elite. 
 
De  uma  forma  geral,  os  criollos  do  Novo  Mundo  reagiram  com 
indignação  frente  às  representações  feitas  pelos  antiamericanistas  sobre  a 
população  e  o  território  americanos,  menos  pela  humilhação  imputada  aos 
indígenas e mestiços que pela equivalência sugerida entre eles e estas castas. 
Nesse  ponto,  a  Historia  e  as  Disertaciones  de  Clavijero  avançam  em  dois 
sentidos: o primeiro é a defesa óbvia da elite colonial, da qual fazia parte, frente 
aos  intelectuais  europeus,  os  quais  a  denegriam.  O  segundo  é  a  defesa  do 
indígena;  esta  dialoga  não  apenas  com  as  teorias  antiamericanistas  de 
europeus  ilustrados,  mas  com  o  próprio  sistema  de  castas  criado  pela  elite 
colonial e difundido entre vários países da América Hispânica.  
 
Visto  em  seu  aspecto  mais  amplo,  os  jesuítas  se  posicionaram  não 
apenas contra as detrações  destinadas aos indígenas: o  modo de defesa  que 
utilizaram  faz  referência  também  à  maneira  como  os  próprios  criollos  foram 
tratados  durante  séculos  pelos  peninsulares.  Castro-Gómez  argumenta  que 
“aunque  españoles  y  criollos  eran  igualmente  blancos,  católicos  y  de  sangre 
pura,  su  diferencia  se  basaba  en  que  el  ius  soli  prevalecía  sobre  el  ius 
sanguinis
”  (2005,  p.  291).  Dessa  forma,  a  luta  jesuítica  e  crioula  tinha  um 
caráter mais político que filosófico: era necessário provar que os  criollos eram 
capazes  de  governar  a  América  com  independência  dos  espanhóis.  Essa 
independência  da  península  não  significava,  entretanto,  a  emancipação  das 
castas:  essas  seriam  dominadas  pela  elite,  por  direito  baseado  no  imaginário 
da brancura e da superioridade étnica.  


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Fica  visível  que  os  prenúncios  da  emancipação  das  colônias 
representam  menos  uma  identidade  americana  que  uma  identidade  criolla.  O 
senso de superioridade racial sobre as castas configurou os ânimos para que a 
elite imaginasse uma nação na América Latina e sua posição tutelar sobre ela. 
Por esse motivo 
“no es posible separar el surgimiento del nacionalismo criollo y 
el  ocaso  de  un  viejo  orden  mundial  en  el  que  España  perdía  su  lugar 
hegemónico en el sistema-
mundo” (CASTRO-GÓMEZ, 2005, p. 309).  
 
Ainda que a emancipação de países da América Hispânica tenha muito 
a ver com as necessidades das elites provinciais desses países, é certo que as 
demais classes sociais não passaram completamente ao largo do processo. A 
obra  de  Clavijero,  ao  defender  veementemente  as  raízes  próprias  do  México, 
avivou  não  apenas  os  ânimos  das  elites,  mas  aqueceu  os  sentimentos  de 
indígenas e mestiços enquanto parte do todo. Afinal de contas, trata-se de um 
criollo que conta as histórias dos nativos com o fim de exaltá-las e de defendê-
los.  Apesar  das  aculturações  históricas  e  das  passagens  progressivas  do 
nomadismo  à  vida  sedentária  (GRUZINSKI,  2003,  p.  24)  formarem  o  pano  de 
fundo  das  memórias  indígenas,  o  fato  de  eles  representarem  aos  olhos  das 
autoridades  espanholas  “uma  população  de  tributários,  de  pagãos  a  serem 
cristianizados  e,  posteriormente,  de  neófitos  a  serem  vigiados  e  denunciados, 
pueblos  a  serem  criados,  deslocados,  concentrados,  segregados  dos  povos 
espanhóis” (GRUZINSKI, 2003, p. 16) só fazia com que a narrativa de Clavijero 
funcionasse  com  uma  voz  em  favor  da  perpetuação  de  um  passado  que  não 
devia  ser  esquecido,  mas  registrado  enquanto  constituinte  e  constituidor  da 
história da Nova Espanha. 
 
A  colonialidade  do  poder,  enraizada  no  imaginário  coletivo  dos  criollos
indígenas  e  mestiços  de  forma  quase  tão  profunda  quanto  a  própria 
constituição de identidade nacional foi um elemento de fundação das estruturas 
organizacionais da sociedade colonial e mesmo das nações independentes, já 
que  ainda  nos  dias  que  correm  é  possível  constatar  traços  fortes  das 


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dimensões  dessa  colonialidade
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.  Ela  foi,  no  entanto,  abalada  e,  em  várias 
medidas, desfigurada a  partir  dos  movimentos emancipatórios que  iniciaram  e 
tomaram  forma  na  segunda  metade  do  século  XVIII.  Os  textos  americanistas 
durante a polêmica do Novo Mundo, como o de Clavijero, talharam uma fissura 
nesse  imaginário  da  blancura  e  da  colonização  que  só  faria  alargar-se  com  o 
passar dos anos e com a virada do século XVIII para o XIX.  
 
 



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