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zonas temperadas, trazendo assimetrias valorativas com implicações políticas. 
A ênfase do Abade, porém, retorna constantemente à “desventurada” natureza 
física  americana.  A  América  não  havia  ainda  se  desenvolvido:  era  impúbere. 
Embora  deva  apresentar  idade  semelhante  à  europeia, 
“a  natureza  se 
esqueceu  de  fazê-
la  crescer”  (GERBI,  1996,  p.  53).  A  umidade  do  clima  fez 
com  que  essa  condição  “infantil”  do  continente  e  dos  homens  que  nele 
habitavam fosse agravando-
se, como se “desevoluísse” o que sequer começou 


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a  se  desenvolver.  Ao  iní
cio  da  “adolescência  americana”  também 
corresponderia a impotência dos nativos e a falta de atração por suas fêmeas. 
 
A indiferença quanto ao sexo, ao qual a natureza confiou o depósito 
da  reprodução,  supõe  uma  imperfeição  nos órgãos,  uma  espécie  de 
infância  nos  povos  da  América,  como  nos  indivíduos  do  nosso 
Continente  que  não  chegaram  à  puberdade.  É  um  vicio  radical  no 
outro  hemisfério,  onde  a  imaturidade  se  revela  por  essa  espécie  de 
impotência(RAYNAL apud GERBI, 1996, p. 53).  
 
 
A  argumentação  de  Raynal  quanto  à  decrepitude  americana  retorna 
sempre ao tema da natureza física. O novo continente teria sido alvo das mais 
variadas catástrofes. Para o abade, tudo se devia a 
 
Uma enfermidade da qual a raça humana ainda se ressente. A ruína 
desse  mundo  até  hoje  está  impressa  na  face  de  seus  habitantes.  É 
uma  espécie  de  homens  degradada  e  degenerada  em  sua 
constituição  física,  em  seu  talhe,  em  seu  estilo  de  vida,  em  seu 
espírito  pouco  avançado  quanto  a  todas  as  artes  da  civilização. 
(RAYNAL apud GERBI, 1996, p. 53) 
 
 
A causa de tudo era a umidade, ela era prova  de um mundo renascido. 
Raynal  argumenta  que  o  continente  americano  não  se  encontrava  na  sua 
infância  de  fato,  ao  contrário,  era  possível  que  fosse  tão  antigo  quanto  o 
europeu,  mas  havia  passado  por  um  renascimento  fruto  de  uma  catástrofe 
natural o qual o manteve num estado infante.  
 
Buffon,  Raynal  e  De  Pauw  contestam  a  antigüidade  das  civilizações 
asteca,  maia  e  inca,  a  grandeza  e  magnificência  das  cidades  e  monumentos, 
rejeitando as descrições de Hernan Cortés e do inca Garcilaso de la Vega,. Os 
dados  de  Las  Casas  sobre  as  numerosas  populações  do  México  e  do  Peru 
também são objeto de crítica.  
 


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Deve-se  relegar  ao  plano  das  fábulas  esta quantidade  prodigiosa  de 
cidades construídas com tanto cuidado e dispêndio. [...] Os povos se 
encontravam  dispersos  nos  campos;  e  era  impossível  que  fosse  de 
outro modo. (RAYNAL apud VENTURA, 1988).  
 
 
 
As radicais teses depauwnianas suscitaram grande número de réplicas, 
mais ou menos abrangentes, mais determinadas ou mais indiretas. Na Europa 
mesmo  levantaram-se  contra  ele  v
ários  defensores  do  “bom  selvagem”,  da 
bondade  natural  do  homem  e  da  natureza  virgem.  Também  se  insurgiram 
jesuítas  que,  expulsos  das  colônias,  traziam  de  volta  as  experiências  vividas 
nas  mesmas.  Estes,  assim  como  quaisquer  outros  membros  de  ordens 
religiosas, eram alvos de frequentes ataques do naturalista prussiano. 
 
A etapa que Antonello Gerbi (1996) chama de primeira fase da polêmica 
encerra  os  nomes  de  Buffon,  De  Pauw  e  Raynal  como  expoentes  do 
antiamericanismo.  Do  lado  oposto  surgiram  outros  nomes,  alguns  dos  quais 
serão  comentados  mais  adiante.  De  todas  as  maneiras,  essa  primeira  etapa 
serviu  mais  para  dinamizar  o  assunto  que  para  trazer  uma  resposta  definitiva 
às questões propostas. Segundo ele, 
 
Com as especificações e retificações de Buffon encerra-se a primeira 
fase da controvérsia. A América e os americanos tinham sido tratados 
e fixados no centro de um vórtice de discussões sobre problemas de 
geografia zoológica, de etnografia, de climatologia, de teologia moral 
e filosofia da história; e com De Pauw haviam caído até o fim naquele 
maelstrom de doutrinhas e diatribes (GERBI, 1996, p. 132).  
 
É a segunda fase da polêmica que Gerbi considera como mais produtiva 
do ponto de vista argumentativo. As conversas se expandiam territorialmente e 
delas parti
cipavam agora “homens de intelecto superior, de cultura e interesses 
práticos”.  “Ela  se  investia  de  argumentos  heteróclitos,  ampliava-se  [...]  de 
continente  em  continente,  fazia  aflorarem  antigas  e  novas  paixões  [...] 
suscitava  dúvidas  inesperadas  e  revali
dava  preconceitos  gastos”  (GERBI, 
1996, p. 133).  


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O  primeiro  nome  citado  por  Gerbi  que  inaugura  essa  segunda  fase  é  o 
do  antiamericanista  Willliam  Robertson,  cuja  inspiração  é  voltairiana  e 
permeável às ideias de De Pauw. Sua História da América (1777) fala sobre o 
Novo Mundo num tom mais intermediário e repleto de meios termos. Explicava-
se  a  grandeza  e  a  miséria  da  natureza  americana,  embora  o  tom  pessimista 
predominasse. Como em: 
 
O princípio da vida parece ter sido menos ativo e vigoroso do que no 
velho  continente  [...]  as  diferentes  espécies  de  animais  peculiares  a 
ele  são  em  muito  menor  número  que  as  do  outro  hemisfério  [...]  A 
natureza  não  somente  era  menos  vigorosa  e  prolífica  no  Novo 
Mundo,  mas  parece  ao  mesmo  tempo  ter  sido  menos  vigorosa  em 
suas  produções.  Os  animais  que  pertencem  originalmente  a  esse 
quadrante  do  globo  parecem  ser  de  uma  raça  inferior,  nem  tão 
robusta, nem tão feroz quanto as do outro continente. (ROBERTSON 
apud GERBI, 1996, p.134)  
 
 
Do  lado  oposto  da  polêmica  estão  outros  intelectuais,  tendo  a  maior 


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