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  A “Polêmica do Novo Mundo” e as histórias naturais



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3.1 
A “Polêmica do Novo Mundo” e as histórias naturais 
 
 


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A  presença  de  dois  discursos  referentes  à  imagem  simbólica  do  Novo 
Mundo representa a oposição entre  Europa  e América que seria determinante 
para  a  formação  do  pensamento  moderno.  Em  um  polo,  manifesta-se  a 
superioridade  do  homem  civilizado,  fundamentada  nos  progressos  realizados 
através do processo histórico europeu, culminando, no século XVIII, na ideia de 
que o homem ocidental teria alcançado a aptidão de elevar-se a uma chamada 
“maioridade  intelectual”.  Do  lado  oposto,  encontra-se  o  nativo  americano, 
advindo da inferioridade daquele meio e da fraqueza de suas espécies animais, 
vegetais  e  humanas.  Em  vários  textos  produzidos  por  europeus  ou  por 
americanos põe-se em questão a validade do caráter débil e frágil das espécies 
do Novo Mundo. 
 
Por  volta  do  século  XVI,  o  continente  americano  suscitara  os  mais 
variados  problemas  filosóficos,  teológicos  e  políticos  envolvendo  sua  gente  e 
seus  aspectos  naturais.  Com  o  século  XVIII  e  o  espírito  iluminista,  o 
pensamento se volta para a Natureza e o Clima. Acreditava-se que umidade e 
a grande quantidade de terrenos pantanosos geraria uma intensa multiplicação 
de insetos e ervas daninhas os quais envenenam com facilidade outras formas 
vivas, fazendo do ambiente local inóspito à vida não só humana como de todos 
os animais de sangue quente. 
 
Alguns  autores  que  precederam  o  século  XVIII,  como  Gonzalo 
Fernández  Oviedo  e  os  padres  Acosta  e  Herrera,  ocuparam-se  de  descrever 
muitas  das  peculiaridades  americanas  sem,  contudo,  postular  uma  teoria 
universal  da  inferioridade  do  novo  continente.  Entretanto,  a  partir  dos 
naturalistas  ilustrados,  como  o  Conde  Buffon,  Cornelius  De  Pauw,  o  Abade 
Raynal e o historiador William Robertson, a “polêmica do Novo Mundo” passa a 
apresentar discussão contínua. Divulgadas as teorias e razões da inferioridade, 
homens  conhecedores  e  adeptos  a  outros  pontos  de  vista  se  propuseram  a 
divulgá-los.  Foi  o  que  fizeram  europeus  que  de  fato  conheceram  o  continente 
americano, crioulos e padres jesuítas.  
 
Segundo Antonello Gerbi (1996), “a tese da ‘debilidade’ ou ‘imaturidade 
das Américas” nasce com o Conde de Buffon, ou Georges-Louis Leclerc (1707-
1788),  natural  de  Paris,  frequentador  do  Colégio  de  Jesuítas  e  estudante  de 


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Direito,  mas  excessivamente  interessado  em  matemáticas  e  ciências,  o  que  o 
levou  a  trilhar  um  caminho  em  direção  aos  estudos  científicos.  Entre  suas 
principais obras encontra-se a volumosa História Natural (cujo primeiro volume 
foi  publicado  em  1749),  na  qual  aparecem  suas  teorias  sobre  os  temas 
americanos. Entre as conclusões buffonianas referentes às Américas coloniais 
destacam-se formulações intrigantes que merecem ser comentadas; todas elas 
têm  como  base  a  ideia  de  que  “a  natureza  é  constante  e  suas  leis  são 
imutáveis
” (ROSSI, 1992, p. 133).  
 
A  primeira  delas  refere-se  à  diferença  existente  entre  os  animais  do 
Velho  e do Novo continentes, mais especificamente à  inexistência de grandes 
animais selvagens no segundo. Quaisquer semelhanças que pudessem existir 
entre  as  espécies  de  maior  porte  de  ambos  os  continentes  eram  refutadas, 
garantindo a superioridade das espécies do Velho em detrimento das do Novo 
Mundo.  Diz  Buffon:  “os  elefantes  pertencem  ao  Antigo  Continente,  e  não 
existem  no  Novo  (...)  nem  se  encontra  ali  nenhum  animal  que  se  compare  a 
eles.”  Alude,  ainda,  à  anta  brasileira,  que  nem  de  longe  poderia  comparar-se 
aos grandes mamíferos, devido a sua “dimensão de um novilho de seis meses 
ou  de  uma  pequeníssima  mula”  (apud  GERBI,  1996:  p.  19).  Toda  a  natureza 
estaria em seu estado bruto. 
 
Fonte  de  etnocentrismo  gerado  a  partir  das  teorias  buffonianas  é  o 
postulado  da  degenerescência  dos  animais  na  América.  As  espécies  trazidas 
da Europa tenderiam a definhar-se. 
 
Os cavalos, os asnos, os bois, os carneiros, as cabras, os porcos, os 
cães, etc., todos esses animais, digo, tornaram-se menores; e [...] os 
que não foram transportados, mas lá chegaram por si mesmos, numa 
palavra  aqueles  que  são  comuns  aos  dois  mundos,  tais  como  os 
lobos,  as  raposas,  os  cervos,  os  cabritos  monteses,  os  alces,  são 
também  consideravelmente  menores  na  América  que  na  Europa,  e 



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