U niversidade f ederal de p ernambuco c entro de


  A “POLÊMICA DO NOVO MUNDO” E A HISTÓRIA ANTIGUA DE MÉXICO



Baixar 5.01 Kb.
Pdf preview
Página17/46
Encontro17.03.2020
Tamanho5.01 Kb.
1   ...   13   14   15   16   17   18   19   20   ...   46

A “POLÊMICA DO NOVO MUNDO” E A HISTÓRIA ANTIGUA DE MÉXICO 
 
 
 
“O homem nunca parou de interrogar-se sobre si mesmo. Em todas as 
sociedades  existiram  homens  que  observavam  homens”.  É  dessa  forma  que 
François  Laplantine  inicia  um  de  seus  estudos  introdutórios  à  antropologia
16

Nem  sempre,  entretanto,  os  estudos  sobre  o  homem  se  revestiam  de  cunho 
científico,  somente  no  final  do  século  XVIII  é  que  o  homem  como  objeto  da 
ciência, não mais apenas sujeito do conhecimento, começa a se constituir. Até 
essa época os métodos conhecidos eram empregados unicamente à natureza, 
como  se  os  seres  humanos  em  geral,  e  não  só  aqueles  primitivos,  não 
fizessem parte dela. 
 
Teorizar,  mais  como  imaginação  que  como  fundamentação  concreta, 
sobre  o  desconhecido  gerou  uma  variedade  de  fabulações  que  eram  aceitas 
por muitos. No que concerne à América, a existência de gigantes, os mitos de 
tesouros  perdidos  esperando  um  descobridor,  cidades  inteiras  submersas  e 
ainda  vivas  eram  algumas  das  notícias  que  circularam  durante  o  passar  dos 
séculos. Desde a primeira viagem de Colombo, a natureza americana oferecia 
um  sem  fim  de  dados  e  materiais  que  não  só  serviam  para  satisfazer  a 
curiosidade  dos  europeus  ou  presentear  os  patrocinadores  das  viagens,  mas 
como objetos concretos de estudo para o meio científico da época.  
 
Na segunda metade do século XVIII, percebe-se um renovado interesse 
da  Europa  no  continente  americano,  comparável  somente  àquele  observado 
nas  décadas  posteriores  ao  descobrimento.  O  olhar  inquisidor  e  curioso  com 
relação  à  América  pode  ser  observado  nos  mais  diferentes  setores  do 
conhecimento.  Visto  em  obras  filosóficas,  em  histórias  naturais,  na  literatura 
                                                             
16
 Em Aprender antropologia, São Paulo: Brasiliense, 2003. 


59 
 
corrente ou em inúmeros relatos de viagem; o Novo Mundo voltou a ser objeto 
de reflexão. 
 
Entre os principais motivos de a América ser um tema de relevância para 
os pensadores  ilustrados, seja qual fosse sua nacionalidade, é  a necessidade 
de pensar sobre si próprios. Eles se serviam do exotismo americano para  
 
refletir  sobre  sua  própria  sociedade,  e,  neste  sentido,  suas 
referências  à  América  lhes  servem  muito  mais  para  conhecer  a  si 
mesmos  do  que  aos  americanos.  Frequentemente,  o  recurso  aos 
temas  relativos  à  América  são  instrumentos  de  esclarecimento  ou 
mesmo  de  demonstração  de  sua  própria  filosofia.  (SOUZA,  2001,  p. 
209). 
 
 
Associado  a  essa  necessidade,  estava  o  protagonismo  científico  das 
histórias  naturais,  o  que  justifica  as  relações  existentes  entre  os  julgamentos 
destinados  a  populações  ao  redor  do  globo  e  os  aspectos  físicos  de  sua 
natureza.  Durante  o  século  XVIII  inteiro,  houve  um  crescimento  notável  dos 
estudos naturalísticos que ultrapassava os saberes teóricos. Foram construídos 
jardins  botânicos,  gabinetes  de  história  natural  e  financiado  um  maior  número 
de expedições cujo objetivo era melhor conhecer a natureza em suas diversas 
manifestações.  
 
A  Enciclopédia 
de  Diderot  e  D’alambert  aborda  o  tema  das  histórias 
naturais como sendo parte não apenas do cotidiano daqueles que fazem delas 
seu objeto de estudo,  mas do grande público  letrado. O gosto pelas histórias, 
então  consideradas  como  ciência,  havia  se  difundido,  agradado  a  grupos 
diversos  da  sociedade  de  vários  países  europeus  e  se  alastrado  para  outros 
continentes, inclusive para as colônias americanas. Nos setecentos estavam a 
serviço dos estudos da natureza a experimentação, a observação e a razão. O 
prestígio da história natural era tanto que para muitos pensadores ilustrados ela 
estava no mesmo patamar que a filosofia. 
 
Considerando a necessidade  de  pensar sobre  o  homem através de um 
novo  viés,  o  ilustrado,  e  o  prestígio  das  histórias  naturais,  não  espanta  saber 
das associações feitas entre os estudo
s do homem e a natureza. A “disputa do 
novo  mundo”,  o  tema  base  deste  capítulo,  trata  especificamente  das 


60 
 
repercussões  em  torno  dessas  associações  feitas  por  pensadores  ilustrados. 
Ao  tentar  postular  teorias  racionais  e  sistemáticas  acerca  do  Novo  Mundo, 
ideias deterministas eram formuladas e tidas como incontestáveis.  
 
Muitos naturalistas da Ilustração europeia passaram ao largo da grande 
quantidade  de  escritos  sobre  a  história  das  Américas  e  destinaram  ao 
continente  um  tratamento  preponderantemente  geográfico,  querendo,  talvez, 
dar a entender que uma historiografia sobre o Novo Mundo não teria valor. Ao 
formularem conceitos inexoráveis sobre os temas relativos às “terras úmidas”, 
os referidos filósofos ratificam ou o desconhecimento de tais escritos (fato que 
é pouco provável dada a abrangência que muitos desses textos ganharam) ou 
sua decisão por ignorá-los
17

 
Na  Enciclopédia,  livro  básico  do  Iluminismo,  o  verbete  América
18
  foi 
tratado de forma tão superficial que foi necessário reformulá-lo. Essa tarefa foi 
realizada  num  suplemento  à  enciclopédia  lançado  anos  depois  de  sua 
publicação. A nova formulação do verbete, escrita quando a polêmica sobre o 
                                                             
17
 Talvez seja esse mais um dos motivos que levaram Clavijero a escrever, como um dos textos 
introdutórios  ao  primeiro  tomo  da  Historia  a  relação  intitulada  Noticia  de  los  escritores  de  la 



Compartilhe com seus amigos:
1   ...   13   14   15   16   17   18   19   20   ...   46


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal