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criolla e mestiza já há muito havia começado a germinar. O grande número de 
mestiços  só  incrementava  essa  ideia  de  pertencimento  que  não  era  a  um 
espaço  espanhol  transplantado,  tampouco  a  um  território  exclusivamente 
indígena.  
 
Na  sexta  década  do  século  XVIII,  um  acontecimento  fez  com  que  a 
consciência  de  identidade  ganhasse  contornos  ainda  mais  nítidos.  O  trono 
espanhol  julgou  que  outras  instituições  pareciam  ter  mais  autoridade  que  ele 
nas  regiões  dominadas,  entre  elas  a  Igreja  e  classes  privilegiadas  da  antiga 
aristocracia.  Sem  querer  entrar  em  conflito  direto  com  dois  altos  poderes,  a 
ideia  de  Carlos  III  foi  atingir  uma  força  secundária  que  mantinha  contato 
estreito  com  as  outras  duas:  a  Companhia  de  Jesus.  A  estratégia  adotada  foi 
acusar  os  padres  de  terem  incentivado  motins  contra  a  coroa  e  gerar  seu 
banimento dos domínios espanhois, o que aconteceu em 1767. A expulsão dos 


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jesuítas  devia  funcionar  como  mensagem  para  a  Igreja  e  a  elite  colonial:  era 
hora  de  entender  a  autoridade  do  Estado  espanhol  como  superior.  Entre  as 
muitas  razões  apontadas  para  justificar  a  Pragmática  Sanção  de  Carlos  III 
estavam  os  incontáveis  boatos  sobre  conspirações  contra  o  trono  e  mesmo 
contra a Igreja (com a qual mantinham um vínculo relativamente autônomo), os 
conflitos  burocráticos entre eles  e o  Estado; a tensão com  muitos colonos (os 
padres  amiúde  criticavam  a  moralidade  destes),  a  ação  dos  jansenistas  na 
corte,  a  ausência  de  fraternidade  com  outras  ordens  católicas
8
  e  o  suposto 
acúmulo  indevido  de  riquezas. 
Segundo  Rodríguez  Pérez,  “para  la  corona,  la 
progresiva  autonomía  que  habían  adquirido  las  misiones  y  el  sistema  de 
gobierno implantado por los jesuitas en ellas las convertía prácticamente en un 
Estado dentro de otro Estado” (1995, p. 240) 
 
A  monarquia  não  parece  ter  previsto,  entretanto,  que  a  expulsão  dos 
jesuítas  engendraria  a  consolidação  do  pensamento  de  nação  nos  povos 
colonizados, em suas mais variadas classes sociais, de forma que a resolução 
foi  em  pouco  tempo  vista  como  contraproducente.  Além  disso,  várias  das 
acusações  destinadas  aos  padres  constituíram  paradoxos  também  não 
pensados previamente pelo Estado. O discurso real era o de que era tempo de 
dar lugar a uma educação mais liberal aos colonos e de trazer novas políticas 
administrativas de mercado. Em primeiro lugar, o rei parece ter esquecido que 
os jesuítas eram responsáveis por quase toda  a rede educacional na América 
espanhola  e  que  haviam  desde  muito  promovido  o  estudo  das  ciências,  além 
de  terem  trazido,  ainda  que  de  forma  moderada,  o  pensamento  ilustrado  ao 
âmbito colonial. Carlos Fuentes, em O espelho enterrado, explica algumas das 
controvérsias decorrentes da supressão: 
                                                             
8
 Jonathan Wright fala sobre as tensões existentes entre os jesuítas e outras ordens da igreja. 
O  trecho  a  seguir  ilustra  bem  o  que  queremos  dizer
:  “Enquanto  isso,  dominicanos  e 
franciscanos ficaram indignados quando os jesuítas passaram a substituí-los como confessores 
para os nobres e poderosos, ficaram também preocupados e nervosos com a resposta jesuíta 
aos  desafios  propostos  por  Galileu  e  passaram  a  encará-los  como  competidores  bem-
sucedidos demais em campos  missionários pelo mundo afora. Os oratorianos viam-nos  como 
seus principais rivais educacionais na França; os capuchinhos ressentiam-se de seus esforços 
evangelizadores na Louisiana; os beneditinos reclamavam que eles estavam recebendo muito
 
mais do que mereciam do espólio reconquistado dos invasores protestantes durante a Guerra 
dos Trinta Anos” (2009, p. 161)
 


37 
 
 
Fossem  quais  fossem  as  razões  da  monarquia  para  expulsar  os 
jesuítas,  o  fato  é  que  acabaram  inteiramente  contraproducentes  no 
Novo  Mundo.  Seguiu-se  aí  um  novo  paradoxo:  as  reformas  dos 
Bourbon  haviam  promovido  o  estudo  das  ciências  na  Espanha.  No 
Novo  Mundo,  porém,  eram  precisamente  os  jesuítas  que  haviam 
promovido  tais  estudos  modernos.  Em  vez  de  se  entrincheirar  na 
escolástica,  os  jesuítas  haviam  arrebatado  o  poder  acadêmico  aos 
tomistas,  que  dominavam  o  pensamento  político  através  dos 
preceitos  de  santo  Tomás  de  Aquino,  e  haviam  servido  às  elites 
hispano-americanas  grandes  doses de  Descartes  e  Leibniz.  De  fato, 
foram os jesuítas que trouxeram para a América espanhola o espírito 
reformista  dos  Bourbon.  A  política  da  coroa  fracassou,  por  não  ter 
percebido  que  os  seus  esforços  de  modernização  no  campo 
educacional  já  haviam  sido  antecipados  pelos  jesuítas  e  que,  fato 
ainda  mais  decisivo,  a  modernização  da  América  espanhola 
significava  sua  identificação.  Os  jesuítas  o  compreenderam,  a  coroa 
não. (2001, p. 236) 
 
 
Em  pleno  auge  da  modernidade,  a  América  começava  a  ver  como 
possível sua desarticulação do comando europeu. As reformas propostas pela 
Espanha em pouco tempo foram superadas por aplicações mais coerentes com 
a realidade local das colônias 
– visando inclusive ao seu avanço comercial-, as 
quais  pouco a pouco começavam  a autodescobrir-se. A expulsão  dos jesuítas 
só acelerou esse processo. Na segunda metade do século XVIII, eles não mais 
eram vistos como típicos europeus cujo objetivo era tirar o máximo de proveito 
do  novo  continente,  ao  contrário,  a  eles  era  associada  a  noção  de  progresso. 
Foram  eles  os  responsáveis  pelo  avanço  da  educação  e  das  novas  maneiras 
de conduzir a economia aos moldes ilustrados
9
. Muito mais que benfeitores do 
povo americano, muitos dos jesuítas vinham do próprio povo. Vários padres da 
Companhia  eram  ex-alunos  dos  colégios  jesuítas  que  resolveram  seguir 
carreira  religiosa.  Por  mais  diversas  que  fossem  as  razões  que  levavam  os 
filhos da aristocracia americana ao noviciado, o fato é que eles representavam 
muito mais que os interesses da Santa Igreja. E não só crioulos de pele branca 
ingressaram na Ordem, alguns mestiços foram também aceitos para o trabalho 
                                                             
9
 
Cabe lembrar o que nos diz Chiaramonte sobre o tema: “recordemos que la economía política 
del siglo XVIII fue más la ciencia de la sociedad que la disciplina que hoy conocemos por tal” 
(1977, p. X) 


38 
 
na  instituição,  muito  embora  essa  não  fosse  prática  das  mais  correntes  na 
época.  
 
A  atuação  dos  inacianos  na  educação,  desde  fins  do  século  XVI  e 
sobretudo  no  século  XVII,  gerou  uma  herança  para  os  setecentos:  os 
descendentes  dos  primeiros  conquistadores  que  estudaram  em  suas 
universidades  tiveram 
contato  com  “uma  tradição  cultural  mais  ampla,  que 
desconhecia qualquer fronteira atlântica” (ELLIOTT, 2004, p. 335). 
 
No  momento da supressão, na província  da Nova-Espanha,  os  jesuítas 
tinham  cerca  de  trinta  e  cinco  colégios,  alguns  de  nível  universitário,  mais  de 
trinta  templos  e  quarenta  pontos  missionários  com  suas  respectivas  escolas. 
Ainda  hoje  há  padres  jesuítas  que  se  ressentem  da  expulsão.  O  padre  Pérez 
Alonso, por exemplo, escreveu um ensaio sobre o tema, onde tece a seguinte 
consideração:  
 
Una  cosa  sí  es  evidente,  y  es  lo  que  nos  interesa  en  este  punto: 
nunca  antes  había  experimentado  la  población  novohispana,  y  con 
tanta  generalidad,  el  sentimiento  de  lo  propio,  de  lo  propio  que  en 
concepto de hermanos, hijos, amigos, maestros les era arrancado por 
un brazo que desde el otro lado del mar se alargaba hasta acá para 
privarlos  con  un  poderoso  decreto  de  su  regia  mano  de  algo  que 
individualmente  les  era  tan  suyo  y  tan  querido.  (ALONSO,  1987,  p. 
06) 
 
 
O fato é que 1767 mais de dois mil jesuítas residentes nas Índias foram 
deportados.  Não  podiam  permanecer  em  território  hispânico  e  já  havia  anos 
que  também  lhes  era  proibido  ingressar  em  terras  portuguesas,  de  modo  que 
era  natural  que  procurassem  o  auxílio  de  Roma.  Quando  de  sua  chegada,  o 
papa não se mostrou receptivo por medo de ofender às monarquias europeias. 
Apenas  várias  semanas  depois  da  permanência  dos  inacianos  em  barcos  é 
que  o  pontífice  autorizou  o  desembarque.  Toda  a  conjuntura  do  exílio 
favoreceu  o  pensamento  identitário  americano.  Uma  vez  tendo  sido  proibidos 
de praticar quaisquer atividades eclesiásticas, o que restava aos jesuítas eram 
seus  afazeres  científicos.  O  exílio  só  fez  impulsionar  a  escrita.  E  sobre  o  que 
escrever? A resposta não é difícil: 


39 
 
 
A  nostalgia  da  pátria  distante,  a  necessidade  de  deixar  um 
testemunho  sobre  os  dramáticos  episódios  que  estavam  vivendo,  o 
forçado ócio, a vocação apologética de defender as ações políticas e 
evangelizadoras da Companhia, e a vontade de participar ativamente 
nas controvérsias do momento (sobre o continente americano, sobre 
os  pressupostos  e  consequências  das  ideias  liberais,  sobre  a 
revolução)  são  os  fatores  que  impulsionam  o  cultivo  das  letras. 
(CORDIVIOLA, 2010, p. 75-76) 
 
 
Não  bastassem  essas  razões,  que  já  eram  suficientes  para  ocupar  a 
mente  dos  exilados,  circulavam  na  Europa  daquele  século  as  ideias 
antiamericanistas.  Havia  abundante  literatura  postulando  a  inferioridade  das 
espécies  do  continente  americano.  Dos  bichos  e  plantas  aos  homens,  era 
corrente  a  mensagem de que tudo aquilo que  advinha da América era  débil  e 
não podia ser comparado às espécies naturais do velho mundo
10
. Isso era mais 
que suficiente  para animar os jesuítas a  escrever, já que além de cientistas  e 
estudiosos,  profundos  conhecedores  da  natureza  americana,  encontravam-se 
na época exata de pensar com nostalgia sobre o seu continente de origem. O 
tempo não podia ser mais propício às reflexões sobre o homem americano. Ao 
defendê-lo,  libertavam-no,  ao  menos  em  teoria.  Os  escritores  americanistas 
mostravam  para  quem  quisesse  ver  que  não  havia  diferenças  substanciais 
entre  os  dois  continentes  e  faziam-no  com  a  mesma  propriedade  (diria  mais: 
com argumentação mais convincente) com que os antiamericanistas escreviam 
suas obras. E assim vão à prensa largos volumes sobre a história da América e 
daquilo que nela habitava.  
 
Francisco  Javier  Clavijero,  Rafael  Landívar,  Francisco  Javier  Alegre, 
Juan  Ignacio  Molina,  José  Sánchez  Labrador  e  Juan  Pablo  Viscardo  são 
apenas  alguns  nomes  dos  muitos  que  se  dispuseram  a  contar  uma  versão, 
diferente da europeia, sobre a história da América e os mais diversos assuntos 
relacionados  a  ela.  Pérez  Alonso  argumenta  que  habitava  adormecida,  no 
coração dos jesuítas expulsos, a semente do amor à terra natal, que a saudade 
                                                             
10
  Esse  assunto  será  alvo  do  próximo  capítulo,  por  isso  achamos  por  bem  apenas  citá-lo  e 
desenvolvê-lo posteriormente, em momento propício. 


40 
 
fez  o  prodígio  de  converter  o  que  poderia  ser  um  choro  estéril  em  uma  obra 
positiva  em  favor  da  pátria:  “no  les  quedaba  otra  manera  de  protestar.  Como 
intelectuales y religiosos que eran, tuvieron una sola respuesta para la tiranía: 
la cultura” (ALONSO, 1987, p. 08). 
 
Estas  obras  de  erudición  y  de  literatura,  que  se  refieren  a  la 
naturaleza  y  a  la  historia  del  país  de  origen,  contienen  sin  duda  el 
germen o son el sustrato de un incipiente nacionalismo fundado en la 
conciencia  del  pasado  histórico  de  esa  realidad  que  comienza  a 
llamarse  ‘patria’  y  con  la  cual  se  identifican  los  ‘españoles 
americanos’ (PÉREZ, 1995, p. 246) 
 
Clavijero  centrou  sua  escrita  nos  temas  indígenas,  sobretudo  na 
narração dos fatos anteriores à chegada dos espanhóis em terras americanas. 
A função do que ele escreve é most
rar que aqueles povos, ditos “desprovidos 
de  cultura”,  tinham  larga  história  e  muitas  contribuições  a  dar  para  quem 
estivesse  disposto  a  ouvir.  Além  disso,  ele  defende  a  mestiçagem,  pondo 
relevo no  passado  histórico e advogando  em favor tanto dos índios como  dos 
crioulos.  Como  demonstração  dos  feitos  dos  jesuítas  na  Nova  Espanha  e  do 
carinho  que  nutria  por  sua  terra  natal,  ele  dedica  sua  obra  à  Universidade  do 
México e faz questão de deixar claro que ela é “una historia de México escrita 
por un mexicano que no busca protector que lo defienda sino conductor que lo 
guíe y maestro que lo ilumine” (CLAVIJERO, 2009, p. XVII) 
 
Combater  as  teses  antiamericanistas,  como  as  dos  naturalistas 
ilustrados  Buffon,  de  Pauw,  Raynal  e  Robertson,  representa  uma  grande 
contribuição  dos  jesuítas  à  formação  uma  consciência  americana  e,  em 
decorrência,  aos  movimentos  emancipatórios.  O  combate  ter  sido  em  pé  de 
igualdade só fez com que a ideia de uma América forte se tornasse possível e 
começasse a preocupar as monarquias ibéricas. A discussão engendrada pelo 
tema  surpreendeu  muitos  leitores  que  não  criam  ser  possível  uma 
argumentação  elaborada  sair  das  mãos  de  homens  nascidos  num  lugar 
sabidamente degenerado.  


41 
 
E  não  apenas  assim  se  expressaram  os  jesuítas  expulsos.  Há  os  mais 
diversos  tipos  de  escrita,  marcadas  pela  ausência  e  pela  falta  de  tudo  que 
deixaram  para  trás,  dando  sentido  literal  à  expressão  “oceanos  de  distância”. 
Em Algunos datos acerca de la expulsión de los jesuitas de Méjico en el silgo 



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