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A PROCURA DO PRÍNCIPE ENCANTADO



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A PROCURA DO PRÍNCIPE ENCANTADO
No que tange às produções da Disney, consideramos ser imprescindível analisar os ensinamentos propostos nos filmes pelo papel que a empresa de entretenimento desempenha no espaço cultural, as estatísticas de bilheteria de cinema e os produtos derivados de seu sucesso. Para Steinberg e Kincheloe (2001), empresas como a Disney têm sua maior manifestação de poder quando produzem prazer e satisfação associando-os ao consumo. Criada em 1923, The Walt Disney Company, conhecida popularmente como Disney, tem sua marca associadas a uma infinidade de produtos, tais como camisetas, brinquedos, bonés, decorações de festas, livros para colorir, músicas, sites, comidas congeladas, guloseimas, miniaturas, calçados, móveis, pelúcias, desenhos animados, cartões colecionáveis, jogos, brindes em fast-food, e mais de dez parques temáticos espalhados pelo mundo.

Fundada por Walt Disney (1901-1966) e Roy Oliver Disney (1893-1971), inicialmente a empresa estadunidense era referida pelo nome de Disney Brothers Cartoon Studios. Tendo conquistado destaque e pioneirismo na indústria de animação, a Disney diversificou suas produções em filmes com atores e atrizes reais. Em 1955 a empresa inaugurou o Magic Kingdom, seu primeiro parque temático, localizado em Anaheim, Califórnia (BRYMAN, 2007).

A proliferação de cenas de um mundo idílico, a recorrência a estereótipos de representação e o investimento financeiro a partir dos quais as animações e desenhos são produzidos e propagados "colaram" as imagens da Disney às histórias infantis e aos contos de fadas. Como conseqüência disso, é difícil imaginarmos uma príncipe com características diferentes daquelas impressas em Phillip, por exemplo, herói do filme A Bela adormecida (1959), da Disney. O cabelo liso e claro, a pele branca e o corpo esguio e forte compõem nosso imaginário sobre "o que é ser um príncipe", ainda que nas histórias que inspiraram o filme da Disney, como o conto de Jacob e Wilhelm Grimmiv (GRIMM, 2012) e de Charles Perraultv (PERRAULT, 2015) não seja feita nenhuma caracterização física, com exceção de sua jovialidade.

Essa questão pode ser problematizada em análises das Figuras 1 e 2. Tendo efetuado uma busca no Googlevi, a partir do termos, "Príncipe" e "A Bela Adormecida" encontramos um arsenal de imagens de Phillip, o que demonstra a supremacia da Disney frente à pouca visibilidade de outras referências de príncipes para a história de "A Bela Adormecida".

Figura 1: Supremacia Disney


Fonte: Seleção e edição nossas, 2015.


Em sua variedade, sem exceção, as oito imagens que configuram a Figura 1, fazem menção ao Príncipe Phillip e a outras personagens de A Bela Adormecida (1959) da Disney. Reunimos na Figura 2 as poucas imagens que encontramos que não as da Disney. Para nós, elas fazem evidente citação a Phillip, legitimando-o como o príncipe "de verdade" de "A Bela Adormecida", como quando reproduzem suas características em decorações de aniversário, ilustrações de livros, imagens fotográficas, bonecos artesanais e industrializados, publicidades, fantasias, desenhos para colorir, ilustrações e produções de outros artistas, como o israelense David Kawena que apresenta os heróis dos contos de fada de maneira sensual. A valorização e a aproximação das características de Phillip demonstradas pelas imagens que compõem a Figura 2 além de consolidarem e "respeitarem" as imagens construídas pela Disney como as "verdadeiras", perpetuam-na por meio da imitação.

Figura 2: Perpetuação da supremacia Disney


Fonte: Seleção e edição nossas, 2015.


Gomes (2000) e Nunes (2010) demonstram interesse em analisar especificamente as representações de feminilidades produzidas e promovidas pela Disney. As autoras partilham da análise de que as personagens mulheres - humanas ou não - são demasiadamente representadas como frágeis, indefesas, meigas, passivas e inocentes. Precisam da ajuda e do incentivo de homens, animais, fadas madrinhas e personagens-objetos mágicos para resolver seus conflitos e alcançar a "verdadeira felicidade". Já no final do século XX, Jipson e Reynolds (2001, p.363) junto de um grupo de participantes de um seminário onde foram investigadas propagandas da década de 1970, analisaram que, no que tange às representações de feminilidade, "[...] as mensagens nos vídeos infantis não mudaram muito em vinte anos". As autoras avaliaram que as imagens e narrativas televisivas ainda estimulavam as mulheres a serem "rivais" entre si e a alcançarem (ou ao menos se aproximarem) de um padrão de beleza inatingível.

Para além das personagens femininas, também os príncipes, vilões e outras personagens masculinas vêm ensinando aos meninos e meninas que, "todo homem" precisa ser valente e viril, não pode ser sonhador, romântico e muito menos sensível. Para nos decidirmos por quais animações ou produtos da Disney analisar, realizamos um levantamento de filmes e localizamos mais de 100 animações produzidas pela Disney desde 1937 - ano de lançamento de Branca de Neve e os Sete Anões, primeiro longa-metragem de animação dos estúdios Disney. Em um segundo levantamento, refinamos nossas buscas para identificar os filmes protagonizados pelas onzevii personagens femininas que integram a franquia Disney Princesasviii, criada na década de 1990, e localizamos 18 filmes. Desse montante, percebemos que muitas animações são produções que dão sequência e/ou continuidade às histórias matrizes. Por isso, realizamos um segundo refinamento selecionando apenas as primeiras animações de cada uma das onze personagens princesas, movimento esse que nos levou a onze animações.

Como última estratégia para a delimitação do corpus de análise, das onze animações, selecionamos apenas aquelas cujas protagonistas e antagonistas são vividas por sujeitos masculinos já que, conforme sugere Connell (2003), para reconhecermos que não existe apenas uma maneira rígida e fixa de viver a masculinidade é pertinente que examinemos as relações estabelecidas entre diferentes indivíduos masculinos. Nessa lógica de raciocínio, para analisar, discernir e dissecar determinado discurso sobre masculinidade, faz-se necessário fazê-lo em conjunto com outras representações que conferem predicativos à masculinidade.
A ideia de que um símbolo só pode ser compreendido dentro de um sistema de símbolos relacionados entre si bem pode aplicar-se a outras esferas. Somente um sistema de relações de gênero pode produzir alguma masculinidade (CONNELL, 2003, p.108, tradução nossa)ix.
Sob o critério de apresentar protagonistas e antagonistas masculinos localizamos seis animações e, deste minuendo, desconsideramos o filme Valente (2012). Ainda que aparentemente atendesse aos critérios de seleção estabelecidos por nós, após assistir a animação, consideramos que a construção da personagem vilã, ainda que com nome próprio masculino, não oferece subsídios para análise social sobre as representações de homem. O vilão da história, Mor'du, é um príncipe que, por sua ganância fora transformado em um urso com a força de 10 mil homens. Nossa decisão por não contemplar Valente (2012) em nossa análise se deve ao fato de o vilão ser representado com características e instintos mais próprios de um animal selvagem do que de um indivíduo masculino que estabelece vínculos e relacionamentos com outros.

Sendo assim, o corpus de análise selecionado para compor uma pesquisa em andamento é estruturado por cinco animações da Disney: A Bela e a Fera (1991) Aladdin (1992), Pocahontas (1995), Mulan (1998) e A Princesa e o Sapo (2009). De maneira que Fera e Gaston, Aladdin e Jafar, John Smith e Governador Ratcliffe, Li Shang e Shan Yu, e Naveen e Dr. Facilier (Figura 3).


Figura 3: Heróis e Vilões


Fonte: Seleção e edição nossas, 2016.





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