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Anais da


Semana de Pedagogia da UEM

ISSN Online: 2316-9435







XXII Semana de Pedagogia

X Encontro de Pesquisa em Educação

05 a 08 de Julho de 2016






ENTRE PRÍNCIPES E VILÕES: ESTUDOS INICIAIS SOBRE PEDAGOGIAS DISNEY E A MANUTENÇÃO DA MASCULINIDADE HEGEMÔNICA
BALISCEI, João Paulo

vjbaliste@gmail.com

CALSA, Geiva Carolina

gccalsa@hotmail.com

Universidade Estadual de Maringá

Educação e Diversidade

INTRODUÇÃO
No dia 9 de março de 2014, a véspera do meu 25º aniversário, eui - homem, de cabelos curtos, com barba por fazer, usando camisa, shorts e tênis - ganhei minha primeira boneca. Na presença de meu pai, de minha mãe, de meus familiares e amigos/as, fui surpreendido por uma caixa embrulhada, cujo conteúdo era uma boneca - que eu sempre quis ter, mas que nunca adquiri pelo receio de que minha masculinidade fosse questionada. Acompanhado pela frase "acho melhor abrir quando estiver sozinho", o presente me foi dado com um certo receio por uma grande amiga com a qual eu já havia me mostrado inconformado e descontente com a compreensão cultural de que, como homem, nunca poderia ter uma boneca.

Quando paro para admirar as bonecas expostas nas vitrines de lojas de brinquedos ou, mais audacioso, passeio pela seção específica "para as meninas", sou constantemente abordado por vendedores/as que perguntam se estou procurando presentes para alguém. Quando emitem tal questionamento é como se julgassem que o único motivo aceitável para justificar a presença de um homem adulto na seção "de meninas" fosse presentear uma terceira pessoa. É como se o espaço (físico e social) das lojas de brinquedos fosse incompatível com a satisfação dos meus desejos. Tendo conhecimento que me encolhi na infância, na adolescência e, inclusive, na vida adulta por me preocupar com o peso dos olhares e comentários que os/as outros/as teceriam sobre minha masculinidade, desde o dia que ganhei minha primeira boneca, tenho me dedicado a discutir sobre as projeções, expectativas e restrições que permeiam as representaçõesii de masculinidades.

Os ensinamentos provocados pela escola, pelos livros, pelos comerciais e principalmente pelos filmes infantis me ajudaram a "ajustar" minhas preferências principalmente quando asseveravam que meninos e homens precisavam se afastar dos artefatos tidos como femininos. Embora seja evidente que crianças de ambos os sexos sejam alvos de atos regulatórios para que desempenhem comportamentos e gostos "coerentes" com seu gênero,
[...] percebe-se que esses são bem mais constantes quando se trata de acontecimentos envolvendo meninos. [...] os meninos precisam convencer as pessoas que os rodeiam, e também a eles mesmo, de que não são mulheres, nem mais bebês e, muito menos, homossexuais. (GUIZZO, 2013, p.32, grifos nossos).
Conforme destacado, as ações de autoconvencimento efetuadas pelos meninos para se "enquadrarem" no modelo valorizado de masculinidade incluíam a aversão aos espaços e objetos femininos e a aproximação daquilo que Connell (1995; 1997) se refere como Masculinidade Hegemônica. Em seu aspecto normativo, a masculinidade hegemônica faz com que os indivíduos masculinos e femininos se vigiem para garantirem que homens e mulheres continuem ocupando os espaços e as funções que lhes são socialmente atribuídas, cristalizando-as. A masculinidade hegemônica promova os sujeitos homens, alertando-os para "[...] que façam as coisas que seu grupo de pares local define como masculinas - enlouquecer, se mostrar, dirigir bêbado, entrar em uma briga, defender seu próprio prestígio" (CONNELL E MESSERSCHMIDT, 2013, p. 252).

As imagens de homens e garotos brancos, sadios, loiros, de cabelos curtos, de olhos claros, fortes, ágeis e, sobretudo, heterossexuais reinam em uma sociedade em que o consumo de e pelas imagens é exacerbado e parecem alicerçar a masculinidade hegemônica. Esse aparato visual sobre masculinidade oferece formas restritas de vivê-la e demonstram que para ser considerado "[...] um homem que seja realmente um homem" além dos atributos físicos, é indispensável ser ágil, corajoso, viril, aventureiro, independente, racional, valente, forte, agressivo, não ser feminino e - o mais importante- ser heterossexual (BOURDIEU, 2014, p.25).

Os Estudos Culturais (campo de investigação emergente na década de 1960, na Inglaterra) me oferecem respaldo para a estruturação dessa reflexão pois, evidenciam que muito do modo como os meninos e meninas agem, pensam e se vestem é construído a partir dos referenciais oferecidos pelas imagens de seu cotidiano. Cada vez mais a cultura da mídia tem fornecido repertório a partir do qual os indivíduos contemporâneos forjam suas identidades, como destaca Kellner (2001). Cartazes publicitários, cenas de novelas, catálogo de moda, os manequins nas vitrines, fotografias de revistas, imagens televisivas, histórias em quadrinhos, as personagens cinematográficas, os livros didáticos, os painéis escolares, as imagens estampadas nas roupas e nos materiais escolares, os brinquedos e os filmes infantis indicam comportamentos esperados para as meninas e, em especial nessa reflexão, para os meninos.

Dos artefatos da cultura da mídia com os quais tenho contato desde minha infância, as animações e filmes da Disney merecem uma notoriedade especial pela maneira que significaram minha masculinidade. Em um misto de imagens, sons e movimentos, as personagens Disney me auxiliaram a delimitar os espaços e ações que podem ser ocupadas por homens e mulheres. Assistir as histórias da Disney foi - e ainda é - uma saída para que eu ingresse no mundo encantado, mágico e açucarado característico das meninas.

Assim como os mapas das histórias de piratas, os filmes da Disney funcionaram como guias que me apresentavam roteiros, estratégias e referências para que eu desviasse dos obstáculos - as feminilidades- e para que eu encontrasse o grande "x", sobre o qual o baú de tesouro - a masculinidade hegemônica - fora enterrado. Rememorando esses mapas, não me recordo de alguma cena ou imagem em que meninos sejam retratados brincando com bonecas. Também aqui, essa parece ser uma combinação inconcebível.



Como as personagens masculinas da Disney têm nos ensinado a ser homem? A quem favorece tais representações? Quais masculinidades são desqualificadas e/ou desconsideradas pelas narrativas da Disney? Para debater sobre esses questionamentos, desenvolvemosiii um estudo qualitativo e bibliográfico (GIL, 2002), cujo objetivo é apresentar as etapas iniciais de uma pesquisa em andamento marcada pela investigação das representações de masculinidades nas animações da Disney.

Para isso, em um primeiro momento descrevemos os trajetos metodológicos para a seleção das personagens e animações adotadas para compor o corpus de análise de uma pesquisa em andamento e, posterior a isso, levantamos nossas hipóteses e expectativas quanto à investigação.





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