TranscriçÃo de história de vida e (Entrevistador)



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#9227

TRANSCRIÇÃO DE HISTÓRIA DE VIDA
E – (Entrevistador)

(R.3) – Recluso nº3


[Apresentações e consentimento para gravação]
E: Pode começar então por nos dizer qual é a sua idade?

R.3: 37 anos.

E: E o seu estado civil?

R.3: Neste momento divorciado!

E: Naturalidade?

R.3: Matosinhos.

E: Nacionalidade?

R.3: Portuguesa.

E: Nível de escolaridade?

R.3: 11º ano…

E: Completo?

R.3: Incompleto!

E: Incompleto, 10º completo então?

R.3: Sim!

E: Muito bem…local de nascimento?

R.3: No hospital de Matosinhos!

E: Matosinhos…ok! Falando agora um pouco sobre a sua trajetória familiar, portanto… falando sobre as suas experiencias que considera terem sido mais marcantes, desde a sua infância…infância, adolescência…falando do local onde vivia…portanto Matosinhos, Porto. Como era a casa onde cresceu, com quem viveu…

R.3: É assim…eu nasci no hospital de Matosinhos só que aos 3 meses de idade fui para Barcelos, para a beira da minha avó e do meu padrinho com quem sempre vivi…porque eu sou filho de namoro e…prontos, as situações da vida assim o fizeram! Tive uma infância que até acho que foi boa, a minha avó nunca me faltou com nada graças à Deus! Tive uma infância na escola boa…

E: Foi a sua avó que tomou conta de si?

R.3: Foi! A minha avó, mas também estava lá a minha mãe! A minha mãe, avó e o meu padrinho!

E: A avó é materna?

R.3: Materna sim! A mãe da minha mãe! Ehhh…a nível escolar tudo bem…a minha infância tudo bem também! Entretanto fui para os escoteiros…tive nos escuteiros até aos 12 anos mais ou menos, depois dos escuteiros fui para o motocross…aos 16 anos fui campeão nacional de motocross lá na minha zona porque tinha patrocínios nessa altura!

E: Mas na sua infância, como era a sua relação com a sua mãe, com a sua avó?

R.3: Excelente!

E: Uma relação muito próxima?

R.3: Muito próxima!

E: E o seu padrinho é? Tem algum grau de parentesco?

R.3: Tio-Padrinho.

E: Quais eram as aspirações da sua mãe em relação a si? É filho único?

R.3: Não…tenho mais 2 irmãos, filhos de outro pai visto a minha mãe ter gosto que eu não crescesse sem pai, visto eu ser filho de namoro…ela casou com outro homem e que no fundo é meu padrasto não é?! Infelizmente já faleceu, a minha mãe também mas…graças a Deus mas…

E: Portanto pai adotivo não é?

R.3: Sim…o meu padrasto!

E: E os seus irmão que idade tinham?

R.3: A minha irmã tinha, quando a minha mãe faleceu, tinha 17 e a mais nova tinha 15!

E: Mantinha uma boa relação com elas?

R.3: Sim, estão no estrangeiro e quando podem vêm aqui!

E: E a relação com as suas irmãs na infância era boa?

R.3: Sim, foi boa!

E: E a sua mãe, que habilitações é que tinha?

R.3: Tinha o 6ºano se não me engano!

E: E o quê fazia?

R.3: Era operária têxtil lá numa fábrica…encarregada de uma secção! Foi lá pra os 37 anos, ela sofria um bocado dos diabetes, rebentou-lhe uma veia na cabeça e faleceu!

E: Teve um AVC?

R.3: Sim!

E: Mas que tipo de orientação é que a sua mãe lhe dava? Sempre foi atenciosa em relação à escola?

R.3: Sempre, a minha avó mais…era…era mais atenta! A minha avó não deixava dormir com a minha mãe, ou com a minha irmã com medo que a minha mãe pudesse magoar-me ao virar-se! Sabe como fui o único neto, o único não que ao fim vieram mais dois, mas na altura era o único neto lá da família e sabe como é! Era o netinho da avó prontos…por assim dizer!

E: Muito mimo e muita atenção!

R.3: E se calhar foi à pala do mimo que me estraguei um bocado!

E: Foi demasiado mimo!

R.3: É…foi demasiado mimo, foi demasiado coisas fáceis, enfim…

E: Mas a sua mãe sempre foi uma mãe presente?

R.3: Foi…sim!

E: E o seu padrasto também? Sempre estiveram atentos à sua educação?

R.3: Sim, sempre! Embora os responsáveis pela minha educação fossem a minha avó e o meu padrinho, que a minha mãe tava lá em casa mas não se chateava com isso…só que na altura como era mãe solteira…prontos, naquele tempo, isso já vai há 37 anos já não era a mesma coisa que é agora! Aos olhos da sociedade era um bocado diferente mas…graças a Deus sempre tive apoio da minha avó incondicional, da minha mãe igual até ao dia que ela faleceu, o meu padrasto faleceu também 3 meses depois, num acidente de viação! E acabei mesmo por ficar com a minha avó e com o meu padrinho!

E: Então nasceu em Matosinhos e foi depois para Barcelos?

R.3: Pra Barcelos, eu nasci em Matosinhos…porque o pai da minha da se soubesse que a minha mãe engravidou de um homem já casado, pois eu sou filho de namoro não é?! Aquilo era um problema que para a família não era bom…e a minha avó prontos, tinha uma irmã aqui em Matosinhos, mandou-me vir aqui nascer, esconder a gravidez da minha mãe não é?! E quando cresci…aos 3 meses fui pra Barcelos, como filho da irmã da minha avó, e não como filho da minha mãe! Para o meu avô não se aperceber dessa situação, tá a perceber?

E: Exatamente!

R.3: Se o meu avô soubesse que a minha mãe engravidou de um homem casado…Deus me libre! Era capaz de pô-la fora da porta e coisas assim, a minha avó pra resguardar um bocado a minha mãe…prontos, teve que fazer isso! Esse foi o motivo de eu vir pra aqui pra Matosinhos!

E: O seu pai biológico então era casado na altura?

R.3: Era casado! E eu tenho mais 3 irmãos por parte do meu verdadeiro pai que ainda é vivo!

E: E conhece os seus irmãos?

R.3: Conheço…

E: E mantém alguma relação com eles?

R.3: Mantenho, ainda quando vou de precária telefono-os, vou comer a casa deles e tudo, está tudo bem! Nós não temos culpa dos erros dos nossos pais não é?!

E: Sim, exatamente, acho que sim! E como é que saiu de casa pra se tornar uma pessoa independente, e por que razão?

R.3: Sair de casa nunca saí praticamente, saí de casa para ir pra tropa, mas não sair de casa! Saí de casa quando casei, mas mesmo assim aminha avó…eu não podia passar um dia sem ir lá a casa! Queria que fosse lá comer ao meio-dia, no horário da folga do trabalho, do almoço! À noite queria que passasse sempre lá com a minha ex-mulher, entretanto…prontos, pus-me a alugar um apartamento e ia lá praticamente pra dormir! O resto do dia passava a trabalhar, ia buscar a minha mulher ao trabalho, ia comer à minha avó e tornava a levar a minha mulher, e à noite passava lá e depois ia pra casa!

E: E como conheceu a sua mulher?

R.3: Foi no trabalho que tive, lá em Milhazes, no concelho de Barcelos! Eu ia comer a minha avó e parava lá no cafezito pra tomar um café e tal…e foi aí que conheci a rapariga.

E: E foi a única relação que teve até hoje?

R.3: Não…

E: Mas resultaram filhos dessa relação?

R.3: Ehhhh…dessa relação tenho uma filha com 12 anos!

E: Uma menina então!

R.3: Uma menina!

E: Ok, e não tem mais nenhum filho então?

R.3: Não, pra já não!

E: E a sua ex-esposa como reagiu quando foi preso?

R.3: Ora bem…foi um bocado difícil porque eu…

E: Mas estava com ela?

R.3: Estava…estava com ela! Foi assim eu aos 18 anos comecei a tirar a carta, de carro, só que…lá está facilidade do meu padrinho e da minha avó decidiram que…andavam sempre a chatear-me a cabeça porque eu comecei a trabalhar aos 17 anos…porque queria a minha independência, queria ganhar o meu dinheiro, e era assim…os estudos passaram à noite e ia trabalhar de dia! Porque eu estudar foi até ao 8ºano de dia, o resto que fiz foi à noite…e prontos, queria a minha independência. E eu de tanto chatear a minha avó e o meu padrinho, dissera: “prontos, vais tirar a carta que nós damos-te um carro!”…tirei o código e tal…e entretanto sabe como é, rapaz novo, carro nas mãos…ir buscar a mulher de mota tá calor! E ela no carro ia de carro trabalhar…só que entretanto uma altura fizeram-me uma operação stop, não tinha carta…fui obrigado a tirar a carta de novo e ainda tive que pagar 800 e tal euros se não me engano! Só que pensei que aquilo não dava em nada…deixei andar…deixei andar…deixem andar! Foram-me…num domingo de manha foram-me buscar a casa pra cumprir 8 meses de cadeia…por causa desses 800 e tal euros! Só que entretanto…a multa dava pra pagar, a minha mulher pagou 400 euros e fui-me embora, tive lá 3 meses só, a primeira vez que fui preso! E a minha mulher claro…acompanhou-me!

E: Como é que ela reagiu na altura?

R.3: Reagiu bem prontos…ela já sabia, mas nem todas as mulheres gostam que um gajo vá preso, mas ela já sabia quem tinha!

E: Mas foi detido então por…

R.3: Falta da carta de condução! Eram 8 meses só que aos 3 meses e meio paguei e puseram-me na rua…entretanto prontos, a minha mulher engravidou, tive o meu primeiro filho e tal…

E: Vivia com ela então!

R.3: Vivia…vivia só que entretanto andava nas provas de motocross, fui pa tropa…e não sei quê…conheci umas companhias que não devia, comecei a fumar haxixe, do haxixe passei pa o cavalo, pra cocaína…só que até casar prontos…oh era aquela cena de dizer assim: “hoje é fim-de-semana, recebi ou isto ou aquilo…vou fumar!” e fumava, só que em vez de ser de fim-de-semana a fim-de-semana passou a ser diário! Entretanto aconteceu o que aconteceu, comecei a baldar-me ao trabalho, comecei a não estar tão presente na casa da minha avó, atrasava-me a ir buscar a minha mulher e tal…e prontos, a minha avó já era de idade só que já se apercebia bem das coisas e…

E: Mas apercebeu-se na altura que já consumia?

R.3: Apercebeu-se que alguma coisa não estava bem, mas na altura estava na tropa, fui paraquedista, tirei o curso de primeiro-cabo…

E: Aos 18 anos?

R.3: Sim, fiz 18 anos lá na tropa…fui lá pa tropa…

E: A sua ex-mulher conheceu-a quando? Foi antes?

R.3: Foi mais ou menos nessa altura, saí da tropa fui trabalhar para o mesmo senhor…foi mais ou menos nessa altura…18-19 anos…casei aos 22, tive 3 anos de namoro praticamente!

E: E na tropa quanto tempo?

R.3: Na tropa tive 18 meses…mais 6 meses! Só que entretanto alistei-me para a Bósnia, e a minha avó…lá está o fator proteção não me deixou ir! E disse: “olha se tu vais pra mim morreste!”…é que já estão a vir colegas teus em sacos de plástico e não quero que te aconteça o mesmo a ti! E eu prontos, a mulher sempre batalhou por mim não ia tar a negar-lhe um pedido! E eu prontos não fui…só que entretanto na tropa era sempre a mesma coisa e acabei por desistir, porque senão ainda hoje estava lá! E prontos desisti…comecei a trabalhar no mesmo sítio, comecei a frequentar com os mesmos amigos, comecei a fazer outra vez coisas que não devia… graças a Deus, posso me orgulhar que sempre andei na droga e nunca roubei nada a ninguém…sempre que precisava preferia traficar do que roubar! É uma coisa da qual me orgulho, não quer dizer que se continuasse isso não iria acontecer, podia acontecer! Mas graças a Deus isso nunca aconteceu…entretanto prontos…comecei a baldar-me ao trabalho, os consumos começaram a ficar caros e tal…mas eu enquanto estive com a minha mulher nunca deixei que faltasse nada em casa e claro quando não deixa que nada falte em casa tem que usufruir dinheiros de outro lado não é?! E prontos fui naquela onda do…vou meter umas gramas, vou meter umas meias…para dar para os meus consumos! E arranjei meia dúzia de colegas meu que…prontos, era aquele pessoal que ia trabalhar em (inaudível)…aquele pessoal certinho não é?! E que não dava estrondo! Só que entretanto houve um que foi caço e disse que fui eu que lhe vendi, entretanto foi outro que disse que fui eu que lhe vendi…prontos, 2 anos e meio de pena suspensa…o meu primeiro julgamento! Fiquei em pena suspensa, e claro o juiz não ordenou que fizesse tratamento, não ordenou nada e eu deixe-me andar na vida que estava! Entretanto fui caço outra vez…nunca me caçaram nada a mim, foi sempre por terceiros…ou caçavam depois de tar comigo ou viam a falar com uma pessoa e em vez de vir falar comigo iam falar com a pessoa…caçavam o material a eles e eles e diziam que tinha sido eu a vendê-lo…se contava ou não contavam…e não sei quê…não sei quê! Prontos, e é aí que entro pela segunda vez para a cadeia para cumprir 2 anos e 8 meses!

E: Então foi apanhado em pena suspensa?

R.3: Foi, foi! 2 anos e meio de pena suspensa mais 2 anos e 8 meses por ter cometido aquele crime…

E: Efetivos?

R.3: Efetivos…só que depois foi ao cúmulo e ficou em 3 anos e meio se não me engano!

E: E cumpriu esses 3 anos e meio?

R.3: Cumpri em Viana do Castelo até ao último sem direito a nada!

E: E o seu filho como reage hoje com isso tudo?

R.3: O meu filho da primeira vez…dessa tal, da segunda vez, da primeira vez…prontos ainda tinha meses, mas prontos foi só 4 meses que tive detido…3 meses e 3 semanas se não me engano! Da segunda vez prontos…era pequenino, era um bebé…praticamente não se apercebeu! Foi visitar-me acho que aos 3 anos e meio quando saí da cadeia…só que prontos, começou-se a gerar uma dúvida sobre mim…

E: Quando esteve preso em Viana do castelo ainda estava com a sua…?

R.3: Tava…com a minha ex-mulher, nunca lhe faltou nada, foi sempre a todas as visitas que pude! Infelizmente passou um mau bocado, porque…vim a saber depois que, depois de uma pessoa vir embora é que a pessoa mandava os familiares ou sei lá quem era, levava coisa pra ele não é?! E ele como estava na minha cela eu via…

E: Mas ta a falar do seu companheiro de cela?

R.3: Sim, companheiro de cela…entretanto ele dispensou pra lá meia dúzia de reclusos que estavam lá com nós e era eu que estava a levar por tabela! O chefe da cadeia pensou que era…o Tony que a metia lá, e não era! Era outro colega, entretanto um ano e meio depois de eu estar preso, todos os fins-de-semana, sistematicamente eles tinham que levar a minha mulher ao strip…à revista pormenorizada! Todos os fins-de-semana a minha mulher tinha que se por nua em frente a uma guarda porque havia uma desconfiança que era o Tony que meti as coisas lá dentro! Entretanto claro, a mulher começou-se a encher daquilo e tal, mas prontos lá aguentou os 3 anos e meio! Eu saiu, o meu padrinho nunca me deixou ficar mal, continuou a pagar esse apartamento que eu comprei, vou morar com a minha mulher outra vez, que ela entretanto ficou na casa da mãe que trabalhava lá pertinho com o meu filho! E eu comprei esse apartamento e tal, começo a fazer a minha vida toda de novo outra vez, sem tocar em nada, quando infelizmente faleceu a minha avó! Fiquei mal, fiquei mesmo mal…

E: Foi-se abaixo!

R.3: Não tava a quer acreditar, e prontos…não lhe vou mentir, estou a ser sincero…a única escapatória que tive foi...pa não pensar nisto…olha, vou dar um fumo outra vez…pa não pensar nisso e prontos! Mas infelizmente…se fosse hoje já não pensava assim, mas na altura foi pro que me deu, sabe como é! Comecei a dar outro…comecei a dar outro…comecei a dar outro, prontos…voltei aos mesmo outra vez! Voltei ao mesmo e entretanto…

E: Drogas pesadas então?

R.3: Sim, entretanto como não queria dar um mau-viver à minha ex-mulher e o meu filho já estava a começar a crescer e já se apercebia das coisa embora nunca me tenha vista a consumir, não é?! Mas aquelas chegadas tardes, umas vezes o pai ia trabalhar outras vezes não ia, não é?! Certas situações que o mundo da droga nos leva a não cumprir com certas regras que nós temos…

E: Exato!

R.3: E eu perguntava: “ao viver, primeiro…”, por acaso foi sempre uma coisa com que me preocupei, foi com a minha mulher e com o meu filho. O quê que eu fiz, tive uma conversa séria com a minha mulher e disse-lhe: “olha vou fazer um tratamento, vou me internar numa clinica e é assim…tu voltas outras vez pa casa da tua mãe, ficas lá com o menino e quando eu tiver bom, eu regresso e vamos continuar a viver junto!” Prontos, fui lá levar a minha mulher e entretanto a minha sorte…soube…ela tinha…tinha…ela soube a primeira vez que fui detido…custou-lhe a acreditar que eu andasse nas coisa não é?! Que eu não levava muito a demonstrar, nunca foi assim no desleixo nas primeiras vezes, agora quando saí da cadeia e a minha avó faleceu aí nem comia, só queria droga, só queria andar por aí que ninguém me chateasse a cabeça e tal! Mas sempre com a preocupação da minha mulher e dou meu filho, e foi por isso que peguei na minha mulher e no meu filho e meti-os na casa da minha sogra e entreguei-me no Beiral 15 dias…foi 8 dias a soro e 8 dias pa me preparar pra sair! Entretanto saí e prontos…comecei a minha vida normal não é?! Fui busca-la, comecei a fazer a minha vida outra vez…só que entretanto prontos, sabe como é?!

E: Teve uma recaída?

R.3: Novamente, mais uma recaída…e eu disse mesmo: “não, isto não é vida, pra ti nem para o menino…”o menino também já tinha quase 6 anos, 6 anos e tal! Não…vai para casa da tua mãe, ficas lá com o menino e eu quando tiver mesmo a certeza eu venho-te buscar! Prontos…entretanto fiquei a morar no mesmo apartamento que tinha, que ainda o tenho, é das poucas coisas que ainda me resta, é isso e uma mota! Ehhh…e a minha mulher ficou lá só que é assim, a minha sogra…o meu padrinho todos os meses…na altura que estava preso…estando preso ou não estando preso era uma obrigação…era uma obrigação que ele achou que tinha, não tinha! Não tinha obrigação de tar a pagar as minhas contas não é?! Mas o meu padrinho sempre foi assim, já na altura de infância era assim…eu ia ao garagista, metia o que queria na mota e chegava ao fim do mês e pagava! Também se calhar foi este mau hábito que me fez andar sem faltar dinheiro…e o meu padrinho graças a Deus ia todos os meses pagar o depósito do meu apartamento, as prestações! E todos os meses ia a casa da minha sogra e dava um “x”, como se fosse a minha parte para dar para o meu filho! Tá aperceber?! Porque ele sabia muito bem que na vida que eu andava…eu podia dar parte do ordenado, mas pra ele aquilo nunca chegava não é! Ao meu filho não lhe podia faltar nada e prontos…a minha sogra não contente com isso foi à Segurança Social requerer o estatuto como o pai tinha sido detido, há uma verba qualquer que a Segurança Social dá enquanto o pai está detido né?!

E: Uma espécie de pensão alimentar não é?!

R.3: Sim, sim! Prontos, mas como o pai tinha apartamento, tinha mota…depois também foi lá falado que o padrinho também ajudava na criação do menino…automaticamente a Segurança Social disse: “não, vocês já dinheiro que chegue pra criar o seu neto, não podemos dar mais nada!” Só que entretanto esse processo ficou lá, na Segurança Social…e automaticamente o processo é encaminhado para aquela associação que é…Proteção de Crianças e Jovens em Risco…é assim uma cena qualquer!

E: De menores!

R.3: Sim, entretanto no dia 01 do 01 de 2005 vou preso pela terceira vez!

E: No dia de ano novo!

R.3: Sim, eu já tinha um mandato pa o dia 24 de dezembro, para o Natal, só que a polícia deixou-me andar até ao dia 01, deixaram passar a passagem de ano e no dia 01 foram-me lá buscar! Mas eu aquilo desconhecia, tinha aqueles 5 anos, eu sabia que tinha aqueles 5 anos mas pensava que estava tudo bem!

E: Mas tinha 5 anos para cumprir?

R.3: Tinha 5 anos para cumprir, mas depois de sair de Nogueiró tive outra vez uma caída…ao fim prontos, isso tudo! E deu-me 5 anos de pena suspensa! Só que entretanto já me puseram 3 medidas…que eram: apresentações na polícia ao sábado, tinha que me apresentar no Instituto de Reinserção Social de mês a mês…e tinha que fazer consultas no CAT conforme lá a médica prescrevesse! E tinha que dar sempre negativo!

E: O CAT é algum centro de acompanhamento?

R.3: É…Centro de Atendimento a Toxicodependência…lá…em Braga, na altura era em Braga, agora passou para Barcelos! Entretanto vou trabalhar para Espanha, tinha saído de Nogueiró e tal…tava mais ou menos bem, vou trabalhar pra Espanha! Foi aí que tive uma recaída, foi com os colegas de lá…entretanto a minha sogra…o processo vai andando, vai andando…o patrão de Espanha fecha a empresa, venho para Portugal outra vez…começo a traficar outra vez porque claro, já vinha…já vinha mau de lá! Começo a traficar outra vez e entretanto apanho esses 5 anos de pena suspensa, e tinha que cumprir com esses 3 objetivos! Entretanto arranjo outro emprego…a primeira vez que fui para Benidorme…

E: Portanto os 5 anos e meio que apanhou forma de pena suspensa? Qualquer coisa que faça…

R.3: Foi…se punha o pé em cima do risco comi-os logo!

E: Esses 5 anos e meio?

R.3: 5 anos…5 anos! Entretanto vou pa Espanha outra vez, mas a minha preocupação enquanto estava em Espanha era…eu de mês a mês vinha cá a Portugal receber, e quando eu vinha receber pedia ao patrão, por exemplo: eu vinha numa sexta-feira, na segunda-feira ia logo ao IRS porque nós lá, porque lá em Barcelos no IRS tem lá um carimbo que prova como estivemos presentes. Caso de nós faltarmos ela é obrigada de fazer uma informação ao Tribunal a dizer que certo indivíduo já não aparece nas instalações…assim…assim! No CAT a mesma coisa, e na polícia tive que meter um requerimento ao juiz para ele me deixar trabalhar fora do país! (inaudível)…as apresentações só mensalmente, de mês a mês! No fim-de-semana que vinha pa Portugal pra receber aproveitava e vazia essas três coisas! Prontos foi o juiz que deixou e eu ta tudo bem, vou trabalhar, vou pra fora do país. Entretanto quando venho a Portugal vou ao Instituto de Reinserção Social numa segunda-feira de manha, a doutora não estava…e eu disse a menina da secretaria que é uma situação assim…assim…assim, você tem que passar uma justificação a dizer como eu estive cá! Se a doutora não está, eu a tarde tenho que ir outra vez para Espanha trabalhar… “ah não se preocupe que eu falo com ela e da próxima vez que vier você carimba!”…e eu tudo bem, e eu vou-me embora e ao ir embora há lá um café no centro da cidade que está referenciado como o café da toxicodependência, param lá muitos toxicodependentes. E essa senhora vi-me a passar em frente ao café que sou obrigado a passar lá pra ir à Reinserção Social…tem lá é uma rua única…eu sou obrigado a passar lá e ela entendeu: “bem ele se calhar não foi à consulta e foi pro café meter-se com os amigos!”…automaticamente a senhora chegou ao consultório e disse que eu tinha estado lá…e não se quê não sei que mais! Mas não sei o quê que a senhora viu em mim, mas fez uma participação ao juiz a dizer como eu não apareci naquela consulta!

E: No CAT?

R.3: Não, no Instituto de Reinserção Social. No CAT e na Polícia estava tudo bem. Prontos, eu tou a trabalhar em Espanha, venho passar um fim-de-semana à Barcelos como os outros…normais, já estava lá há um ano e dois meses! Num domingo de manha…foi nesse período, foi a nossa semana, a semana de férias de Natal! Dia 22 se não me engano e tinha até ao dia 01 de férias, no dia 01 a polícia lá de Barcelos bate-me a porta, a BAC, que é a Brigada Anti-Crime a dizer pra eu ir ao posto da polícia que tinha lá uns papéis para assinar da última vez que tive detido! Eu achei aquilo estranho, mas como estava a correr tudo bem e eu não tava a portar-me mal, pelo menos em Barcelos…eu disse: não tenho nada a temer! Cheguei lá apresentaram-me um processo, tinha essa pena revogada, tinha sido revogada tinha que cumprir esses 5 anos! Prontos, tava outra vez comido lá em Viana! Entretanto, essa pena, como foi de duas vezes, de dois crimes…foi de 2 anos e meio de uma e 2 anos e meio de outra pedi para fazer um cúmulo, e o juiz não me fez um cúmulo…

E: Um cúmulo é…?

R.3: É juntar as duas penas e ficar numa só, fiz um arrastamento das penas que tinha e como eram as duas iguais, prontos…vamos tirar o ano e meio que se portou bem! Foi aquele ano e meio que estive em Espanha até aparecer aquela participação do IRS.

E: Mas portou-se bem em Barcelos, em Espanha…?

R.3: …em Espanha de vez em quando fazia as minhas avarias, mas eles aqui não tinham como saber! Aquela senhora que por me ver a passar em frente ao café pensou que ia ter com as minhas antigas companhias, e ela sabia das situações que o juiz me tinha imposto…era que eu não podia frequentar locais referenciados! Ta a perceber?! E ela como me viu a passar em frente ao café…prontos falou logo nisso! Mas não interessa…prontos, sou condenado 5 anos, o juiz faz um arrastamento das penas, tira-me 1 ano e 5 meses, não…1 ano e meio que tive a trabalhar em Espanha em como me portei bem e fiquei com uma única de 3 anos e meio! Mas já tinha posto a minha mulher na casa da minha avó, o meu filho na casa da minha avó, embora fosse todos os fins-de-semana vê-los…eles ao fim-de-semana iam para a minha casa, à semana como trabalhava pertinho iam pa casa da mãe, neste caso a minha sogra! Ehh…e prontos foi assim, só que entretanto eu vou preso…entretanto conheço aqui, uma rapariga lá da minha beira… a minha mulher não ficou muito contente, mas como dizia a bocado esse processo das crianças e jovens em risco, foi andando…andando…andando até que eu saiu da cadeia, a minha mulher ainda continuava lá a ver-me, mas entretanto arranjei outra mulher porque entretanto eu pensei assim pra mim: “bem a minha vida vai ser esta, ao menos que sejas feliz, tá bem que temos um filho juntos mas faz a tua vida que eu faço a minha, porque tu não vais andar toda a vida a…(inaudível)”…cheguei a um ponto que…entender eu entendia, só que tava a ver a minha que vida que ia ser isto... cadeia…cadeia…cadeia…cadeia, e eu não quero esse mal e sujeita-la a isso e ao meu filho! Quer se dizer…desta última vez que vim preso nunca quis o meu filho dentro da cadeia, que ele já tem 12 anos…

E: Ele nunca veio cá visita-lo?

R.3: Nunca! Não veio porque eu não quero, se eu quisesse ele vinha…se eu quisesse ia ali ao telefone e: “olha filho no fim-de-semana anda ver o pai!” e ele: “tá bem!” de certeza absoluta, mas eu não quero, a uma o filho tinha que vir com a mãe não é?! E não vai trazer a mãe e eu estar com outra mulher, é chato!

E: Mas como é a sua relação com a sua ex-mulher?

R.3: A minha relação foi…passando 5 anos, que eu saiu dessa pena de 3 anos e meio…deixei-me estar junto com essa companheira que estou agora há 1 ano e meio…e ao fazer os 5 anos sou chamado ao juiz automaticamente para assinar o divórcio que agora há uma lei que uma pessoa estando separado 5 anos, automaticamente ao fim dos 5 anos, mesmo que ambas as partes não queiram tem que assinar o divórcio! Mesmo que depois se torne a casar, mas o divórcio tem que aparecer! E a minha mulher disse, a minha ex-mulher disse: “olha, eu vou assinar porque é obrigatório, porque eu ainda hoje…quando saíres da cadeia eu tou a tua espera!” E ela até hoje não tem mais ninguém! E eu quando vou de precária a casa…e sei que ligo ao meu filho duas a três vezes por semana eu ligo para o meu filho, quase toda as semanas falo para o meu filho…ela as vezes pega no telefone para começar a falar só que eu sinto-me mal quer se dizer…a rapariga sofreu tanto comigo e agora vai sujeitar-se a vir pra cadeias e não sei quê?! Não, prefiro…um dia mais tarde quem, se ela entretanto não arranjar outro, logo se vê! Só que por outro lado tenho esta companheira com quem estou e na altura que eu estava mesmo mal…mal…mal…mal, mesmo mal foi ela que me botou a mão, foi ela que me ajudou a fazer o tratamento, foi ela que me ajudou a não consumir mais, foi ela que me deu apoio….tenho…prontos, devo muito a esta rapariga com quem estou agora!

E: E atualmente continua a dar-lhe muito apoio?

R.3: Claro…e não é por nada que desta última vez que vim preso nunca me faltou a uma visita…graças a Deus, ela ta a viver na minha casa tá bem, a casa é como se fosse dela! Trata da casa, paga as contas…a prestação não que a prestação é o meu padrinho, ainda me dá algum dinheiro, embora a minha mulher se acomode com o dinheiro, mas aqui o dinheiro não está em causa! Só que tou numa situação que estou a pensar por mim mesmo, se eu neste momento tivesse a certeza que chegava lá fora e que ia ser um pai exemplar, um pai que não se mete-se em avarias, um homem que desse um bom viver à sua companheira, à sua mulher e que tivesse um futuro brilhante…aí já é caso pra pensar duas vezes…agora eu sou sincero, no mundo das drogas a gente nunca pode dizer “nunca”! Porque hoje estou bem, se saísse hoje…neste momento?! Podia dar uma vida de luxo ao meu filho e a minha mulher, porque eu sei o que tenho na cabeça…neste momento drogas é pra esquecer, foi por isso que eu entrei pr’aqui!

E: Está cá a quanto tempo na ULD?

R.3: Estou há 1 ano e 6 meses! Tive 1 ano em Viana desta última vez só que comecei a meter transferências, só que nunca me aceitaram as transferências! E prontos, meti lá um baixo assinado por causa de comer, porque não estava em condições pra comer…e a diretora como via…que das outras vezes eu era um bocado revoltado, um bocado problemático quer ser?! Que eu fui condenado por duas vezes sem saber ler nem escrever, é que eu nem tive oportunidade de chegar ali a frente ao juiz e.: “…não sr doutor, isso não foi assim, eu vendi a este fulano…a este e a este mas não foi nesse dia, foi no dia anterior”…dizia a verdade, mas não! A polícia fez um trabalhinho tão bem feito que quando vou ao juiz, o juiz não me deixa falar! Nem a mim nem ao meu advogado, eu entro na sala de audiências das quatro vezes que eu fui preso…que eu entro na sala de audiências…fora a primeira vez que foi por causa de uma multa, prontos isto já sabia! Agora tanto na revogação como nos 3 anos e meio, como naquela dos 5 anos, como esta…eu entrei na sala de audiências: “o senhor Tony, prontos não sei quê, você cometeu um crime assim…assim…assim, temos 3 testemunhas fiáveis”…em que eles diziam que compravam de manhã, ao meio-dia e à noite... “a quantidade x, o valor monetário de x, você fica condenado a uma pena única de tanto”…oh senhor doutor posso falar? “não você não tem nada que falar, pode se retirar!”…e o guarda prontos, algemava-me e retirava-me da sala de audiências! Eu nunca tive voto na matéria…

E: Sente-se injustiçado!

R.3: Injustiçado…desta última vez pedi para fazer um cúmulo…prontos, foi a primeira vez que eu presenciei um cúmulo, estive lá e no qual…são 3 juízes não é?!...um coletivo, o da esquerda foi o que me deu os 5 anos, a juíza da direita foi a que me deu os 3 anos e meio, o que eu não conhecia era o juiz principal, o que estava a fazer o cúmulo! E ele chamou-me e disse: “você tem um processo assim…assim…de um atropelamento a um agente da autoridade aqui no Porto, tem mais um ano…”

E: Atropelamento ou tentativa?

R.3: Atropelei não é!…eu não atropelei, eu simplesmente encostei o carro porque eu estava a preparar-me com os bolsos cheios de droga eu não ia parar não é?! Se parasse ia preso! Eu dei sinal para ele se desviar, ele não se desviou e eu tive passar com o carro de maneira a não lhe tocar só que ainda lhe toquei com o retrovisor no braço e o polícia andou lá as cambalhotas no chão! Só que tiraram a matrícula e pronto mais um processo…1 ano e 8 meses de cadeia! Tinha tido um desentendimento com um vizinho lá de cima, lá de casa porque também era consumidor! Foi lá a casa uma altura pediu…consumiu…consumiu e foi pa pagar com uma nota de cem e disse que não tinha troca, então ele disse que vinha cá baixo ao café para pagar e nunca mais apareceu! E há uma altura que eu me cruzo com ele e disse: “então meu?! Tas a brincar comigo, então não pagas? Oh pah não é que me faça falta o que tu consumiste, mas faz-me falta para ir buscar!”… “ai não te preocupes que ainda hoje te pago isso…”…não sei quê, “à noite apareço”, à noite não me apareceu, levei isso como uma afronta! Na próxima vez que passei por ele…foi azar, tive mesmo azar! Passei por ele mesmo pertinho que casa, ele mora nuns edifícios, tem uma ponte que passa numa marginal por debaixo, mesmo por cima da ponte! Cruzei com ele e disse: “olha tas a brincar comigo? Já não quero dinheiro, mas a rir é que não vais ficar!” E dei-lhe uma chapada! Lá o moço…o moço não…não é?! Que ele já é um homem, mas lá o moço, ou estava mal apoiado ou não sei o que passou, mas conforme eu dei-lhe a chapada e parte o pé em dois sítios! Não sei como ele fez aquilo, mas consegui partir o pé em dois sítios!

E: Tropeçou e…

R.3: Não tropeçou, foi aquela coisa de virar e ele tava mal apoiado nos pés e partiu mesmo o pé em dois sítios! Ele foi ao hospital e ele a dizer que foi um carro que lhe bateu, mas a mãe soube que fui eu que lhe bati e abriu um processo...prontos mais 1 ano, ou melhor uma 1 e meio! Foi um 1 e meio por agressão, 1 ano e 8 meses por atropelamento à autoridade, mais 2 anos e meio por tráfico e mais 6 anos que me deram assim à papo-seco…assim, que ainda hoje não percebi esse processo! 3 pessoas…uma prostituta, um chulo e em arrumador de carros lá da minha zona que eu nunca lhe os vendi, conheço-os da rua, mas nunca lhes vendi nada! A polícia fez um trabalhinho…olha: “tu foste caço no dia tal!” …pa prostituta! “Foste caça no dia tal, com droga e vais dizer que compraste ao Tony!” O chulo automaticamente disse o mesmo e o arrumador de carros a mesma coisa! “Foste caço em tal dia com uns pacotes assim…assim! Não quero saber de onde vieram, vais ao juiz e dizes que compraste ao Tony!” Aquele jogo que a polícia faz muitas vezes… “damos-te a droga, mas dizes que a droga é de fulano!”…e claro! A consumir droga, a ressacar e sem dinheiro, ele assina o que quiser e o que a polícia mandar ele assina!

E: E assim ficam com os casos resolvidos!

R.3: Ficam com os casos resolvidos e foi o que me aconteceu a mim! Apanhei assim 6 anos sem saber ler nem escrever! Eles foram depor e ganhar dinheiro para me acusar, eles foram à parte falar com o juiz, deram os três o depoimento do juiz e só depois é que o juiz entra na sala de audiências e vem falar comigo! O senhor Tony das quantas não sei quê…residente no lugar de tal em Barcelos fica com uma pena de 6 anos visto já ser reincide e o seu historial de crime neste Tribunal já…já é grande! “Posso falar?” “Não, não pode falar, o senhor está detido neste momento não tem declarações a dar!” Prontos, toca a ir pra Viana outra vez! Entretanto estou há 1 ano em Viana e começam-me a aparecer…isto foi dos 6 anos! Ao fim cai-me a cena do GNR aqui no Porto, ao fim cai-me a cena de agressão ao meu vizinho…

E: Já estava preso?

R.3: Já estava preso! Ao fim cai-me aquela cena dos 2 anos e meio que eu tinha, mas esses sei que tinha…que esse tava a porta do café e o gajo…eu tava dentro do café e ao sair do café o gajo botou-me logo a mão…e eu vi logo! Este já tou…já estou incriminado prontos! Apanhei 2 anos e meio de pena suspensa, com obrigação em ir fazer um tratamento e não sei quê…não sei quê! Fiz tudo direitinho só que entretanto apanho esse dos 6 anos, vou preso…vou a ordem do processo dos 6 anos…cai-me os 2 anos e meio de pena suspensa…fico com 7 e meio, cai-me mais 1 ano e meio de ter dado a chapada ao gajo!

E: Uma série…

R.3: Uma série deles, eu ao fim de tudo estava com 11 anos e 9 meses de cadeia para cumprir! Tudo de penas separadas, já estava há 1 ano e 1 mês em Viana do Castelo, comecei a flashar lá dentro, que aquilo é um buraco, nem se pode dizer que aquilo é uma cadeia, que aquilo é um buraco mesmo! Aquilo não há atividades, não há nada! Começo a meter transferências para cadeias grandes, que aquilo é só para condenados para 5 anos, e eu peguei nesse fator…como quem: “já que eu estou com uma carga grande, vou mandar-me para uma cadeia grande”…que ao menos tenho trabalho, posso fazer alguma coisa, posso jogar futebol que lá em cima não podia! Posso ter outras coisas que…

E: Outras atividades!

R.3: Das 3 vezes que eu estive preso, como eu ia dizer à bocado, eu nunca fui assim um preso muito fácil! Derivado a eu entrar revoltado com essas coisas que me estavam a acontecer, e eu em 8 anos de cadeia, fora esta última vez! Eu e 8 anos de cadeia tenho 372 dias de sala… (inaudível) Em 8 anos tenho 1 ano de mão, saí a 30 dias chegava ao pavilhão pegava-me à chapada com um qualquer e pronto…mais 15 dias, saía estava mais 15 dias fora…no pavilhão, arranjava outra vez asneiras, tornava ir mais! Porquê?! Porque andava revoltado comigo mesmo!

E: Em solitárias?

R.3: Sim…sim, são boxes, só temos direito a um cobertor, davam-nos um cama de pedra, meia refeição por dia e meia garrafa de 1,5lts de água! E as 8 da manha tas muito bem a dormir eles têm um chuveiro que abrem as 8 da manha mesmo em cima da cama! É mesmo…é tortura!

E: Seja inverno ou seja verão…

R.3: Seja inverno ou seja verão isso não interessa nada! Prontos, eles como tinham este historial meu na cadeia, eles até começaram a estranhar porque este último ano que estive lá entrei mais calmo, mais pacífico…não queria chatices com ninguém, queria levar a minha cama porque 11 anos e 9 meses não é brincadeira! Uma pessoa levar 2 anos…3…agora 11 anos?! E eu pensava: “foda-se eu só vou sair da cadeia com 45 anos de idade, a minha infância praticamente, a minha juventude foi dentro da cadeia…não! Eu vou ter que mudar isto! ” Entretanto há uma situação…que a cadeia deixou de fazer de comer e passou a mandar vir o comer através de uma empresa! Umas vezes comia-se bem, outras vezes o peixe vinha a cheirar mal ou isto ou aquilo! E eu e o meu primo...o Juka, queríamos arranjar uma maneira de nos pormos a andar, mas não sabíamos como! Não adiantava fazer asneiras porque as asneiras…ainda fiquei a dever 32 dias de manco à casa de mão! Uma pessoa vazia asneiras e não era…

E: 32 dias de manco?

R.3: Sim, cela disciplinar…solitária! Não era ao fazer asneiras, porque se fizéssemos asneiras íamos cumprir castigo, uma pessoa que ia arranjar um esquema digamos, de dizer assim: “não, eles vão se encher de nós, que eles já estão tão cheios de nos ver que”…e foi, olha…aproveitei essa situação do comer, fizemos um abaixo assinado que a comida não estava boa e…não se podia comer aquilo, ninguém comeu! E reunimos veja lá, numa cadeia que leva 62 homens estavam lá 104 ou 105, nas duas alas, ala A e ala B, nós reunimos 96 assinaturas! Eu como fui eu a ter logo iniciativa…

E: Assumiu a liderança?

R.3: A Diretora: “Senhor Araújo o quê isto?” Olhe, é a realidade…as sardinhas estavam todas podres e ninguém comeu! “E é motivo? Você querer criar um motim aqui dentro desta cadeia?” “Se for preciso doutora! Nós temos direito à habitação, temos direito a uma refeição ou duas e fosse ao que fosse! Por isso se nós não podemos comer…porque na cantina não se pode comprar nada, é só bolachas de água e sal e chocolates! Isso não é alimentação pra mim, vocês são obrigados a dar-nos de comer! E comer que esteja em condições!” Prontos a Diretora viu que eu ia criar ali um problema pra cadeia, que não lhes convém! Mas veja bem que eu estava tão mal visto naquela cadeia que eles fizeram assim: “bem este tem a mania que é inteligente, tem a mania que é fino, tem a mania que é aquilo…vamos manda-lo pra uma cadeia central que ele lá vai estar rodeado de toxicodependentes, vamos meter a proposta para entrar na ULD”…porque eu quando sou transferido tenho 2 ou 3 meses para estar no pavilhão! Eu durante esses 2 ou 3 meses tenho que ser avaliado para ser avaliado para vir para aqui pa ULD…e nesses 2 ou 3 meses se eu consumir eles chamam para fazer o despiste das drogas! Se eu acusasse eu nunca mais subia, eu ia outra vez recambiado…

E: Aqui em Santa Cruz do Bispo?

R.3: Aqui…sim, aqui! Eu ia outra vez recambiado para a cadeia de origem que era Viana do Castelo! Eles não me mandaram pa outra cadeia, mandaram mais pra “vamos fazer o teste!” Espetaram-me 5 meses lá em baixo…não foram 3 meses, foram 5 meses! Que eu vim em outubro e só subi em janeiro, foram 5 meses! E logo no dia 16, no início do ano…quer se dizer! Qualquer pessoa que esteja detido no Natal, numa Passagem de Ano, longe da família…claro que não anda muito bem psicologicamente, anda afetado! E o quê que vai acontecer?! muitos deles refugiam-se…o que aconteceu na primeira situação, quando a minha avó faleceu… refugi-me na droga! E aqui o quê que ia acontecer? Aqui…eles pensar: “bem, vamos manda-lo nessa época que de certeza que ele vai meter o pé na poça e daqui a meia dúzia de meses tá aqui outra vez!”…só que enganaram-se, eu consegui ganhar coragem, consegui ganhar força, vi muita coisa, vi fumar muita coisa, mas graças à Deus tive os 5 meses limpinho lá me cima, e ao vir cá pra cima a minha primeira preocupação foi juntar os processos todos! Porque não tinha transitado a julgado, porque tenho 2 ou 3 meses pra recorrer...acho que são 3! E eu cheguei aqui, falei com a minha técnica de educação no qual ela me disse: “olha isso já não adianta nada, você pedir cúmulo ou pedir arrastamento de penas ou pedir junções, porque isto já transitou em julgado!” E eu disse: “não doutora, isto não transitou em julgado!” “ai mas mesmo assim isto são processos diferentes e vai acontecer o que acontece a muitos aqui dentro”…e foi o que aconteceu ao meu primo, ao Juka! Andou a comer penas sucessivas. E eu disse: “não doutora, eu não me conformo com isso, se não me quer ajudar a fazer isso eu faço! Eu escrevo uma carta para o Tribunal de Barcelos e eles obrigatoriamente eles tem que me fazer…” Mesmo que não me façam um cúmulo, que me façam um arrastamento das penas, quer ser…que ponham as penas todas juntas que é pra eu ter direito ao meio, aos dois terços, aos cinco sextos não é?! uma pena superior a 6 anos!

E: O que é isso?

R.3: É por exemplo: você tem uma pena de 5 anos, o meio é aos 2 anos e meio, os dois terços é aos 3 anos e 9 meses, os dois terços…

E: Ma o quê que simbolizam esses períodos?

R.3: Simboliza as etapas que uma pessoa tem, o meio, os dois terços da pena, quer dizer que já tem duas partes da pena…

E: Quer dizer que um cúmulo acumula as penas todas e acaba por ter um…

R.3: Exatamente, porque se as penas tiverem separadas, isso é assim:…cheguei lá em baixo ao pavilhão e cumpri logo, cumpri o ano que estive em Viana mais 5 meses que faltavam da agressão ao meu vizinho! Tá a perceber? Prontos, esta pena foi extinta, tá comida! Ao fim ia comer mais 1 ano e 8 meses por ter atropelado o polícia no Porto, ao fim acabava este 1 e 8 meses...tava extinta! Depois ia começar a cumprir a de 6 ou a de 8, quer se dizer, enquanto estes processos tivesse a comer pena por pena não podia meter precárias! Nunca mais tinha a minha situação jurídica ou penal definida, resolvida não é?! Quer se dizer eu nunca iria saber quando era o meu meio, os meus dois terços ou o fim da pena. Sabia não é, ao fim de 11 anos e 9 meses, mas datas exatas não havia possibilidade de saber isso! E então escrevi uma carta ao Tribunal de Barcelos visto eu já…das outras duas penas que tive, fora a primeira já ter usufruído de um cúmulo… “agradecia por este meio que me fizesse um cúmulo jurídico do qual, eu derivado a minha situação e já estar com 37 anos de idade com mais 11 anos e 9 meses eu saiu daqui quase com a idade pra reforma…gostava que tivessem isso em consideração e eu também ter um filho menor e tal”…prontos, eu próprio fiz a carta, eu próprio registei a carta, entreguei aos guardas e pedi aos guardas pa me levarem a carta, passando uma semana sou chamado ao Tribunal de Barcelos para fazer esse tal cúmulo. Coisa que a educadora daqui disse que não havia hipóteses, que não era possível, que não sei quê…não sei quê! E era essa a situação que eu me estava a referir à bocado, chego ao cúmulo…eu estava lá fora na terapia de jardinagem, uma quarta-feira à tarde, às 4 horas da tarde! Chegou uma carrinha celular, eu nunca pensei que fosse pra mim, vem o senhor guarda: “oh Tony, arruma as tuas coisas que você vai ser transferido pra Viana.” Prá Viana?! “Sim, você não pediu um cúmulo ou assim…” sim…sim, só que não me notificaram, só que mandaram a notificação, eu já estava dado a esta cadeia?”…mas mesmo assim o Tribunal mandou a notificação pra cadeia de Viana! A cadeia de Viana é que notificou esta para eu me apresentar em tal dia que tinha que fazer o tal cúmulo.

E: Portanto teve que interromper o tratamento aqui na ULD?

R.3: Interrompi, por um dia e meio! Não é interromper, tendo processos pendentes tem que ir e voltar a ter. O quê que acontece? Nessa quarta-feira à noite sou transferido pra Viana e como disse à bocado eu estava a dever 32 dias de manco à cadeia, de cela disciplinar! O chefe que temos lá…é tipo como quem: “vens, vens de bem, vens de mau eu ainda te vou picar um bocado a ver se tu ainda respondes” e foi o que aconteceu, quer ser, eu entro para a cadeia vejo um senhor de idade pa ser posto em liberdade não é?! O senhor acho que ficou preso por causa de uma multa ou não sei quê, e é assim…cada recluso que entra para um estabelecimento prisional…nós aqui temos cada um os talheres com a nossa letra e são de inox, mas lá em baixo no Regime Comum ou em Viana, cada vez que entra nua cadeia têm que lhe dar um par de talheres novos, uma faca, um garfo e uma colher. E eu vi lá esse senhor a pousar os talheres deles lá numa em cima de uma mesinha que tinha na entrada da cadeia. E eu não vou dizer que o homem era porco ou não tinha higiene, mas que os talhares estavam todos sujos isso estavam! O quê que o chefe faz? Pra me aliciar uma bocado não é….este já está dado à ULD e tal, como quem “ele passou-nos aperna e nós a pensar que ele vinha pra cima outra vez e consegui superar, tá dado à ULD vamos ver se ele aqui estrebucha”…foi logo: “então o chefe quer me dar uns talheres usados, todos sujos e de outro recluso? Não, você tem que me dar uns talheres novos! Senão não vou comer!” “Ai não quer comer?! Ai não quer comer?! Eu vou já lhe arranjar uma sala VIP pra si”…prontos, espetou comigo no manco! Prontos, como é que uma pessoa fica? Saiu de uma Unidade Livre de Drogas, onde tenho todas as regalias e sou transferido para uma cadeia para me meterem no manco?

E: Foi um momento de revolta então!

R.3: Logo pra começar, mal entrei na cadeia começaram logo com um esquema como quem: “vamos pegar com este pra ver se ele estrebucha!” ai é pra ir para o manco? Sim senhor… “ai que você está a dever 32 dias assim fica a dever 31”… “tudo bem chefe”, entrei pa cela e só sou aberto no dia seguinte às 10 e meia da manha e as 11 e meia tinha que estar no Tribunal. Prontos, só sou aberto às 10 e meia, já tinha tomado banho logo às 8 horas, já estava pronto e tal, tava deitado em cima da cama…da cama?! Da pedra! Eles abrem, nem me deram pequeno-almoço, nem me deram jantar, não me deram nada porque eu não queria aqueles talheres. Só porque eu não quis os talheres de outra pessoa, eu sei lá se a pessoa tem doenças ou não tem…quer ser! Por eu recusar os talheres eles metem-me no manco?! Prontos, foi mais um ato pa eles se vigarem! O quê que acontece…eu vou a Tribunal, só de estar na carinha parece que não…há umas carinhas que não, mas há outras que o fumo entra pra dentro, ao fim de umas x horas uma pessoa fica todo baralhado das ideias, fica mal disposto! E eu sem comer, já sem comer do dia anterior, já não comi o pequeno-almoço às 10 e meia, fazer uma viagem numa carinha celular pra Barcelos, cheguei a Barcelos com a cabeça mesmo a estoirar! Entretanto, prontos…a minha companheira foi lá ter comigo, vi-a lá a porta do Tribunal, o meu padrinho também, cumprimentei-os e tal e os guardas prontos, sempre a empurrar-me pra dentro. Entrei pra sala de audiências e não tava lá ninguém, tava lá a minha advogada e tava lá a advogada do Ministério Público e o juiz não estava! Esperei cerca de 10 minutos e entretanto quando começo a ver…vem a primeira juíza logo aquela que me deu 2 anos e meio, e eu prontos com esta já não tenho hipóteses a nada. Ao fim entra o outro juiz que me deu os 5 anos, então aí pior que eu fiquei. Mas quando vejo o juiz principal a vir eu não conheço o homem, um homem assim na casa dos 30 anos…não conheço…30 e poucos…

E: Então ia ser o resultado do cúmulo?

R.3: Do cúmulo…para juntar as minhas penas todas, eu já tinha cumprido uma! Aquela de 1 ano e meio, 1 ano em Viana e meio aqui, essa já estava extinta, mas ao fazer fiz tudo, ao fazer juntei-as todas! O juiz pediu-me: “você escreveu uma carta assim, assim, registada, para aqui, a pedir um cúmulo, sim senhor vamos lhe fazer esse cúmulo! Olhe você está condenado à ordem do processo tal, mas já cumpriu o processo tal e tem mais o processo tal”…eu pedi licença pra falar e disse: “não senhor doutor, não são 3 processos, são 4 ao todo! É esse processo que já está extinto, o da agressão, estou agora a cumprir agora o de ter atropelado o do senhor agente no Porto, ao fim tenho mais um de 6 anos que foi esse seu colega se me permite, esse seu colega do seu lado direito, foi esse seu colega que me deu os 6 anos que eu hoje ainda não percebi porquê que ele me deu os 6 anos, nunca me caçou droga nenhum, fez-me rusgas a casa nunca me caçou nada, mas por ter duas pessoas a dizer que me compravam esse senhor que está ao seu lado condenou-me a 6 anos, mas prontos isto não vem pra aqui a ser chamado! E tenho mais 2 anos e meio que por coincidência foi essa sua colega que está do seu lado esquerdo, foi ela que me os deu!” Ele pôs-se a olhar para a colega, a olhar para o colega também, e os dois nada, não olharam pra o juiz, com a cabeça virada pra baixo, porque sabiam o mal que me tinham feito…ao menos podiam como se costuma dizer: “os colhões no sítio”…e olhar para uma pessoa na cara, não é?! Mas não! Eles sabiam o mal que tinham feito juntamente com a polícia, que nem coragem tiveram de olhar pra mim.

E: Mas como é que isso ficou então?

R.3: e eu disse. “oh senhor doutor ainda falta um processo assim…assim, do Porto” e ele disse: “não, eu tenho aqui o da agressão, o de tráfico, 2 anos e meio de pena suspensa revogados, e mais um de 6 anos. Que por acaso tá aqui a assinatura e foi o meu colega que os deu.” “Mas falta-me um senhor doutor, falta o processo de eu ter atropelado um polícia no Porto”…foi quando ele se vira pra escrivã, pra aquela senhora que está a escrever o nosso depoimento e diz: “oh dona Cristina então não está aqui o processo?” E ela: “oh senhor doutor eu só encontrei estes dois!” E o Juiz diz: “oh senhor Tony isto está a começar mal olhe, mais vale…você está na ULD?” “estou senhor doutor”, “o seu filho que idade tem?” e eu: “12 anos”, “olhe e como está a sua situação?” E eu: “tou bem senhor doutor, olhe tive 1 ano em Viana, fui transferido pra cadeia de Santa Cruz do Bispo, tive 5 meses no regime comum, no qual me esforcei um bocado pra não consumir que era pra ingressar na ULD , e vai fazer 5 meses que estou na ULD se não me engano!” “e tá tudo bem?”… “tá” “e tem feito análises de despiste à droga?”…“fiz antes de subir e já fiz se não me engano duas vezes...” “e de resto está tudo bem, o seu comportamento lá é bom?” “é senhor doutor, pelo menos as doutoras e os meus colegas nada têm a dizer sobre isso, mas se for preciso informação de lá esteja descansado que também a mando.” “não…não…não, é só pa saber, olhe é desta vez que você vai ganhar juízo?” “olhe senhor doutor, se tudo correr bem , espero que sim, pois como mencionei na carta senhor doutor, eu estou a chegar aos 40 anos e daqui pouco quer ser…”

E: Mostrou logo arrependimento…vontade em mudar!

R.3: Mostrei…mostrei! “Olhe vamos fazer assim, para você não andar pra cá, pra lá e uma: dar despesa ao Estado, de carrinha…e você não está bem não estando na ULD”…e ele referiu essa cena da cela disciplinar, que mal entrei na cadeia forçaram-me logo a isso… “e olhe pra você não ter esses problemas todos você vai fazer o seguinte: você vai sair daqui vai pa sua cadeia pra onde estava, pra ULD…e ainda hoje vou ter esse processo no ponto, eu próprio vou fazer as contas, eu próprio vou fazer um cúmulo, e pode ficar descansado que no máximo amanha de manha você tem uma resposta do seu cúmulo jurídico.” E eu claro, você esta a mandar-me embora, por um lado é bom, mas por outro lado se me dá outra castanhada de 8 ou 9 anos eu já não estou lá pra me defender!

E: Ficou com um pé atrás.

R.3: “Oh senhor doutor!” “Oh seu Araújo faça o que eu estou a dizer, vá pa cadeia não se preocupe, que eu estou a ver que isto não foi só bater com o martelo, que isto houve alguma coisa por trás que…” estava a referir-se aos 2 anos! Que eu disse como foi, que o juiz me tinha condenada porque três pessoas que tinham ido lá depor, que eu nunca lhes vendi, conheci-os da rua por uns trabalhinhos assim, assim, assim…foi os que me condenaram, e ele disse logo: “estou a ver que isto não foi só bater com o martelo e dar uns anos de cadeia, isto passou-se algo por trás, mas olhe não se preocupe com isso, vá descansado que ainda hoje a tarde ou amanha de manha você tem uma resposta.” “tudo bem senhor doutor, mas veja lá, se não for por mim ao menos que tenha um bocado de piedade do meu filho, com 12 anos já sabe o quer e a crescer e a ver o pai na cadeia, é chato senhor doutor” e eu “já lhe mostrei que estou arrependido, já mostrei que quero mudar de vida por isso veja lá a minha vida senhor doutor”, “vá-se embora…vá descansar”…e prontos eu lá vim pra esta cadeia outra vez! Saiu do Tribunal, já não fui a Viana, que as coisas que tinha já…

E: Veio logo pra aqui.

R.3: Vim logo pra aqui, ansioso, ansioso…isto foi numa quarta, o julgamento foi numa quinta as onze e meia, e eu sabia a resposta na quinta à tarde ou na sexta de manha! Na quinta-feira à tarde o juiz acho que mandou logo um táxi pra minha técnica de educação daqui, só que a minha técnica de educação, aqui que estamos na ULD só há dois dias certos pra ela vir aqui acima, ela não vem esporadicamente cá cima, é as terças ou quintas, às quartas ou sextas…tem dois dias pra vir e naquela altura não calhava ela vir cá cima. E eu ainda pedi a um guarda pra telefonar pra ela pra ver se tinha recebido alguma resposta do Tribunal de Barcelos. Ela disse-me que não, mas o que é certo é que o juiz mandou o fax para aqui, só que eu: “ora bem, mas eu não estou no cúmulo, mas tá lá o meu advogado!” Na quinta-feira de manha, deixei passar a manhã, porque no período da manhã não podemos telefonar, ao meio-dia telefono pra o escritório do meu advogado, não estava lá, estava a secretaria…e eu: “oh menina, mas você não me pode saber?”, “eu posso saber mas tem que desligar e voltar a ligar”, foi quando a menina, a senhora do escritório telefonou para o advogado”, e ele disse: “diga ao Senhor Araújo que a pena dele, tudo junto, vários processos, todos dão 4 anos e 7 meses.” E eu ao ligar pa secretaria, lá para o escritório, oh senhor Sérgio deixe-me liga para o advogado para aquela situação assim, assim, assim…ela se calhar ainda pensa que estou a ligar de outro lado qualquer. E ele: “tá bem vou-te ligar daqui”. Chamou, ligou e eu falei dali… “olhe senhor Araújo você tem que dar graças à Deus”, e eu: “porquê?”, olhe o doutor juiz juntou o processo que você tem de Barcelos por agressão, o de tráfico, o outro que também foi caço na posse de não sei de que quem…por tráfico…não, era um de tráfico agravado e outro de tráfico de quantidades diminutas ou tráfico de menor gravidade, é assim qualquer coisa. E um de atropelamento a um agente de segurança. E olhe: “por quanto ficou?”, quando a menina me diz que ficou por 4 anos e 7 meses tá a ver como fiquei?! Para quem tinha 11 anos e 9 meses…

E: Ficou contentíssimo!

R.3: Fiquei contentíssimo…

E: E já com quantos cumpridos?

R.3: Já tenho 1 e meio, já vou quase prá 2…já tenho 2 e meio, isso foi…janeiro, fevereiro, março, abril…foi em abril do ano passado! Tinha 1 ano e meio mais 1 ano e meio, tenho 2 anos e pouco…4 anos e 7 meses, fiquei contente claro! Mas desta vez pude me expressar, falar o que tinha pra falar e tá a visto, o resultado tá visto. Quando uma pessoa tem opinião…

E: Isso acalmou-o? Tornou-se uma pessoa mais calma?

R.3: Acalmou, ai se me desse os 11 anos e os 9 meses na mesma não sei o que seria de mim!

E: Não aguentava?

R.3: Não…não! Nem queria ver a minha família a sofrer por minha causa, era capaz de, sei lá…não sei, não sei! Só na altura é que era capaz de decidir, agora não, mudei muito! Dantes era uma pessoa mais revoltada, qualquer coisa enervava-me, não tinha medo fosse de quem fosse, virava-me a guardas, virava-me a polícias, agora não…quero paz e sossego, quero que os anos passam, já estou preso há 2 anos, vai fazer 2 anos e meio, graças à Deus ao fim da oitava precária consegui…metida, lá consegui uma! Foi no Natal, no ano passado, fui a casa pela primeira vez. E em 9 anos de cadeia foi a primeira vez que fui a casa. Ao fim fui em janeiro fui outra vez ao diretor, agora fui outra vez no dia 24 de abril e agora vou outra vez desta sexta-feira à oito! E tá tudo a andar, pessoas que quando eu andava no mundo da droga como a minha madrinha por exemplo, 3 ou 4 tios meus que quando andei nas coisas até era eu próprio a fugir deles não é?! Para não me verem naquele estado…na primeira vez não digo, mas desta vez… a minha avó faleceu, eu não comia e tal. Andava mais magro, com outro aspeto, andava mais…

E: Mais abatido!

R.3: Tava…tava mesmo mal pronto! E eu fugia assim um bocado, eles falavam comigo, mas era só por telemóvel, por telefone ou quando alguém fazia anos eu telefonava desejava os parabéns, mas não comparecia. A minha família sempre foi assim muito unida tá a perceber?! Neto fazia, ou primo fazia ou sobrinho fazia juntava-se tudo na casa da minha avó e prontos fazia-se tudo ali e eu comecei a me afastar um bocado, agora não, fui de precária as minhas primeiras preocupações foram logo: buscar o meu filho, não é? Fui logo buscar o meu filho que disso não abri mão, foi conviver outra vez com a minha madrinha, foi ir à casa dos meus tios, pra eles verem que eu estava preso mas estava bem né?! Que já tinha mudado um pouco de mim também e graças à Deus tem corrido tudo bem e espero que continue a correr como agora, se continuar assim…é como já lhe disse, se hoje em dia…se fosse hoje que me pusessem na rua, que não vai acontecer não é, mas sei que se saísse hoje sairia mais forte! Mas como lhe disse, não se pode dizer nunca, porque no mundo da droga…

E: Relativamente ao período em que esteve preso, à reclusão, fale-me nos significados e as estratégias que são adotadas muitas vezes e as mudanças que vai sentindo na sua pessoa, aspetos negativos digamos assim, sente…

R.3: Das primeiras 3 vezes como lhe disse estive em Viana não é, Viana posso dizer que foi uma tortura, aquilo não tem jeito de cadeia…aquilo, mesmo aberto ou se fica fechado, se fica aberto tem 50 metros de corredor com 3 ou 4 de largura. Agora você imagine o que é 80 homens, se ficam todos abertos ninguém consegue andar, para começar! Segundo aspeto, não há atividades nenhumas, não há cursos, não há….pode haver uma vez por semana um joguinho de futebol porque…

E: Em termos de trabalhos manuais não há?

R.3: Nada, os únicos trabalhos que há são os de faxina, como aqui.

E: Em termos de regime, é só regime fechado? Não existe regime aberto?

R.3: Regime fechado, ali não tem hipóteses, tem aquele pavilhão, tem a ala A e a ala B. A ala B é considerada para pessoas mais problemáticas, com alguma doença…prontos

E: Infectocontagiosa…

R.3: Sim, são mais resguardados, mas no fundo também por um lado são protegidos, porque lá na ala B são só 15 homens é como nós aqui, 15 homens eles a qualquer momento resolvem a situação não é?! Agora numa cadeia de 100 homens, botar a mão a 80 não é bem assim não é?! Se toda a gente se revoltar não há guarda nenhum que faça parar o preso…é mesmo assim. E prontos, não há problema, porque uma pessoa graças à Deus, lá em cima em Viana é o bem que tinha, podia ser uma cadeia pequena, tar-se mal lá, mas ao menos havia 2 ou 3 guardas que tivesse os problemas que tivesse chegava a beira deles e até conversava…(inaudível)…tá a perceber?! Agora por 2 ou 3 há 20 que não valem nada! São guardas por serem porque de resto não valem…

E: Sentia então um pouco de descriminação, estigma?

R.3: Você entra numa cadeia como aquela e fica sem nada, fica com a roupa que tem no corpo!

E: Essa descriminação sentiu-a por parte da guarda prisional então!

R.3: Por parte da guarda prisional uma maneira de falar e não é nada porque você…vamos supor, quando aconteceu aquela cena lá do meu vizinho eu sabia que aquele processo ia cair e tinha dito a minha companheira, aquele que dei a bofetada, porque eu no fundo nós ficamos amigos na mesma1

E: Aquele que partiu o pé?

R.3: Sim, aquele que partiu o pé, eu fui vê-lo ao hospital e tudo, mas ele disse: “oh Tony eu não disse que foste tu, mas foi a minha mãe que fez a participação de entrada no hospital e a dizer que foi uma agressão, que eu sei que errei contigo.” Ele próprio admitiu que errou comigo, só que prontos, eu esqueci aquilo, o erro foi meu e eu é que não lhe devia ter batido. E prontos, e eu disse: “olha vai falar com o Tomané e vê como anda o processo, porque senão eu vou ligar para a advogada a ver como isso está.” E eles têm muito o vício, prontos o vício, eles dizem que é uma norma de segurança, que temos o telefone sob escuta e caçaram-me essa chamada que fiz para a minha companheira a dizer: “olha, vai falar com o Tomané para saber como está o processo de eu lhe ter batido”. No mesmo dia à noite eu sou chamado ao graduado, ao chefe dos guardas…

E: Tinha telemóvel em Viana?

R.3: Não, tinha cabine como aqui, só que temos um cartãozinho de identificação, o cartão tem um shipzinho ,só temos x números, não podemos ligar pra quem queremos não é?! Temos o credifone normal, que é o do dinheiro e temos o da identificação que tem a nossa fotografia…

E: Está limitado!

R.3: Está limitado só aqueles números, para a família, para o advogado, prontos temos uma série de números! E ele veio-me pedir o cartão de identificação e eu disse: “porquê chefe?”, “Porquê? Porque você anda a ameaçar as pessoas por telefone!” “eu ando a ameaçar as pessoas por telefone?” “Anda, então você anda a dizer a sua companheira para ir falar com o gajo que você bateu, por causa do processo que está em Tribunal, e quê você anda a arranjar trabalhos para prejudicar ainda mais o rapaz?” “O quê que você conhece desse processo?” Eu assim para o chefe. “o quê que você conhece desse processo?” “eu só quero saber como o processo está, se me vai dar cadeia ou não! Agora ameaçar? Eu ando com ameaças a alguém chefe?” “ai não quero saber, passe pra cá o cartão!” Ponha-se no meu lugar…é das poucas coisas que uma pessoa tem, não é?! …pra falar com a família, a não ser as visitas ao fim-de-semana…aquilo é a mesma coisa de uma pessoa estar sem documentação, mas mais ainda, aquilo é o nosso passe para agente falar com os advogados!

E: É parte de si não é?

R.3: É parte de mim…

E: É o que o liga as outras pessoas!

R.3: Claro, é o que nos liga ao mundo exterior, sem aquilo então não sei o que vai ser da minha vida, não podia avisar quando era a visita, não podia saber se a família está bem ou não está, não podia ligar ao meu filho…

E: E reagiu logo com isso? O quê que aconteceu?

R.3: Aconteceu, olhe….eu: “como chefe, vai-me tirar o cartão? Tá bem, você tá a tirar-me o cartão e daqui a meia-hora você está-me a entrega-lo!”…“porquê?”… “porquê? Você vai já ver porquê!” Eu virar-me ao chefe não podia porque caiam-me logo 7 ou 8 em cima não é?! E era mau, ficava mau para mim…cheguei a cela ora bem, o quê que eu vou fazer? O quê que eu vou fazer? Ora bem, ei tolo da cabeça, a cela daqui por um quarto de hora fecha, nessa altura estava numa camarata com mais 4 elementos, eu virei-me lá para os meus colegas e disse: “oh pah eu vou fazer aqui uma cena, mas olha se vocês não gostarem muito olha paciência mas passou-se isto, isto e isto e é a única maneira de eu reaver o cartão, é assim…” e eles todos me apoiaram, e dês que não te aleijes faz o que tu quiseres. O quê que eu fiz?! Parti uma Gillette, amarrei numa lâmina e mandei três lanhadas no braço! Prontos, ele fechou-me as 7, as 7 e 10 estava a abrir-me a porta! “Então senhor Araújo?” “Então? Eu disse-lhe, enquanto você não me der o cartão eu vou-me cortar todo chefe, vou porque eu quero ligar para o meu filho!” Quê isso? Eu faço um telefonema para a minha mulher para ela ver como está o processo e você diz que eu ando a ameaçar pessoas? “O quê que você quer de mim?” Já não chega vocês revistarem a mulher todos os fins-de-semana, já não chega andar na boca da gente que eu ando a passar droga…e agora ainda por cima vem e tira-me o cartão? “Você anda a brincar comigo?” “Não é preciso isto! Olhe feche-me outra vez a porta e olhe agora são os dois pulsos!”

E: E consegui reaver o cartão então?

R.3: E o chefe, chamou-me lá baixo, levou-me à enfermaria, fez-me o curativo, fui ao hospital, levei 3 ou 4 pontos, 2 num, noutro não fez falta…foi 6 pontos num e 3 noutro se não me engano! E viemos para a cadeia, mal entrei na cadeia deu-me logo o cartão! Agora pergunto eu: “era preciso isto?” Foi preciso chegar a este ponto porque de outra maneira não dava.

E: E este estigma, essa discriminação já o sentiu quando…portanto já cumpriu mais de uma vez não é?

R.3: Já é a 4ª vez.

E: Como é que as pessoas reagem com isso? Aponto-lhe o dedo e sente-se discriminado?

R.3: Eu por acaso tenho uma coisa que ainda hoje posso agradecer à Deus por isso, eu graças à Deus fiz muitos amigos nos escuteiros, fiz muitos amigos no motocross, fiz amigos na tropa e todos aqueles que eu considero amigos…amigos mesmo, nunca me viraram as costas, andasse eu bem, andasse eu mal, andasse rico ou andasse eu pobre tá a perceber?! Agora, não vou dizer que tenho meia dúzia de colegas que estavam habituados a ver o Tony em grandes festas, cheio de dinheiro no bolso, grande carro à porta, mulher e filho, apartamento e tudo bem, e quando se meteu na droga viraram-me as costas! Já tive alguns já, mas aqueles que eu considero mesmo amigos graças à Deus sempre me apoiaram…e não vêm aqui porque não podem! Amigos atenção, fora das drogas!

E: E em termos profissionais, já alguma fez se sentiu discriminado?

R.3: Não, bem pelo contrário…de 3 patrões que eu tive, um deles é irmão da minha avó, é meu tio mas prontos, mas pra esse até trabalhei uma vez não trabalhei mais, mas tanto quando trabalhei em Espanha das duas vezes, como…

E: E mostrava o seu curriculum como era um ex-recluso?

R.3: Porque eu era…sim mostrava, porque automaticamente ao fazer o contrato eles pedem o registo criminal e vem lá como eu já estive detido não é?! Mas eu ao arranjar esses trabalhos não fui eu que fui lá pedi-los, foi outra pessoa que disse:… “olha eu tenho um fulano assim, assim…o gajo percebe um bocado de tudo!” Eu não é para me gabar mas olhe, eletricista, picheleiro, serralheiro, mecânico, canalizador, faço de tudo…

E: Fale-me um pouco sobre o seu percurso, a sua trajetória profissional. Que experiências têm?

R.3: Foi assim, eu saí da escola com 16 anos, de dia…comecei…

E: Já agora, percurso escolar, estudou numa pública, privada, fez RVCC?

R.3: Numa pública, em duas, a primária, o secundário e daí pa frente até ao 10º, mas tudo em escolas públicas.

E: E na altura era um rapaz problemático?

R.3: Não…não, não!

E: Dava-se bem com os professores? Com os colegas?

R.3: Dava-me bem com as pessoas, embora andasse sempre com aquela pancada, aquela adrenalina de andar de mota a todo o gás e não sei quê…mas…

E: Uma pessoa muito ativa?

R.3: É, é…mas problemático não, isso foi a primeira vez que entrei para a cadeia virou-me logo a cabeça, isso só…

E: E as drogas também, não ajudavam muito…

R.3: E as drogas também, as drogas também me levaram a isso!

E: Até aos 16 anos fez o 10º ano?

R.3: Não, até aos 6 anos andei no 9º ano, não foi até ao 8ºano se não me engano. Não, foi no 8º, porque o 9º, 10º e metade do 11º à noite. Foi assim, fui trabalhar para um senhor que tinha uma empresa de pichelaria e de eletricidade ao mesmo tempo, que é um tio meu e vende produtos da Bosh, máquinas de furar, rebarbadoras, tudo o que seja da Bosh e da Black & Decker e não sei quê, fui pra lá trabalhar, aprendi muito com um tio meu também que trabalhava lá que é filho da minha avó, o dono é irmão, e o filho era lá chefe da oficina, prontos era praticamente tudo família! Aprendi muito lá com o meu tio, tanto de eletricista, como de picheleiro, de canalizador…saí de lá fui para a tropa com 17 anos, fiz os meus 18 anos tinha eu 2 meses de recruta…vim da tropa fui trabalhar para um senhor que ainda hoje me dá trabalho, ainda nesta última precária telefonei-lhe que agora não está cá, tem um negócio em Moçambique e quando eu quiser graças à Deus tenho as portas abertas.

E: Nessas precárias aproveita e começa já e pensar em projetos futuros não é? Um dia que sair daqui.

R.3: Claro, claro! Uma pessoa…a uma tenho, tenho que meter isso no processo não é?! Uma pessoa é avaliada no meio ou nos dois terços e se uma pessoa tiver uma proposta de trabalho junto com esse processo o juiz vê isso com outros olhos, quer dizer que vai por aquele sujeito na rua e vai ter trabalho. Se tiver trabalho melhor!

E: Ajuda muito!

R.3: Ajuda muito, e eu também fui com esse intuito, vou falar com o senhor Fernando que ele tem uma empresa de reciclagem de materiais, tanto ferrosos como de plástico, como…tipo sucata só que é uma empresa de reciclagem! No qual eu trabalhei com máquinas retroescavadoras, mudava motores, tirei a carta de pesados que foi ele que me a pagou, cheguei a andar com um camião, cheguei a levar ferro daqui pra Espanha, trabalhava com giratórias…

E: Tem carta de pesados?

R.3: Sim.

E: E curso de formação profissional?

R.3: Cursos profissionais tenho um de pedreiro, tirei lá em Barcelos e tenho a carteira profissional de eletricista vim tira-la na Efacec aqui no Porto. Tenho carta de pesados e tenho uma carta, aqui não é uma carta é mais uma licença assinada pela Efacec que por exemplo, se eu quiser construir uma casa e quiser fazer tanto o sistema elétrico como o de canalização eu tenho poder de chegar ao final da obra assinar como aquilo tudo está bem! Ao fim só vem a EDP fiscalizar e aprovar a ver se a casa leva contador ou não. Pra ver se a obra ficou bem feito.

E: Para certificar…

R.3: Sim, para ver se ficou bem feito ou não.

E: E aqui dentro…aqui dentro em Santa Cruz do Bispo ou em Viana onde já esteve?

R.3: Agora estou num, só que está parado por causa destas greves, mas eu já lhe vou dizer o nome que tenho lá dentro, e participei numa de escrita recreativa, tenho participado em todos os percursos que temos, um deles até foi uma história de vida que tivemos que mandar porque a Florbela Espanca fazia aniversario dos livros e todos os reclusos que quisessem concorrer com uma história de vida e contar no qual isso foi lá pra baixo pra Lisboa. Fui certificado, recebi um diploma da qual participei, não fui nomeado nem primeiro, nem segundo, nem terceiro, mas fui dos que tive um texto magnífico, embora não ficasse aprovado, tenho participado em praticamente todas as atividades.

E: É importante pra si trabalhar e ter atividades?

R.3: Sim, ter a cabeça ocupada, parece que não, mas que seja uma hora, por exemplo esta hora que estou aqui consigo pra mim é uma escapatória, porque uma pessoa, estando aqui numa casa destas, um mês, dois, um ano, três anos….começa, já você sabe que à segunda-feira tem que fazer aquilo, terça aquilo, quarta é aquilo, quinta é aquilo, sexta é aquilo, não há nada de novo não é?! Quando aparece qualquer coisa, não precisa que seja remodelado, qualquer que venha de fora para nós é uma mais-valia! A uma porque temos mais conhecimento pra nós próprios não é?! É um bem que nós adquirimos porque qualquer pessoa que venha de fora traz-nos sempre alguma coisa nova, eu prontos já dei tanto, porque uma pessoa que tem precárias vai lá fora e já vê como as coisas tão, já vê como a sociedade está ou não tá, embora o país esteja como esteja! Mas claro, uma pessoa que está presa 8 anos como eu estive e vem uma pessoa de fora…tentámos logo sacar toda a informação que essa pessoa tivesse ao menos pra nos atualizar, não é só ver o telejornal e ver as notícias de última hora. Há certo aspetos da vida lá fora que uma pessoa gosta de saber, eu pelo menos sou assim, porque eu sou sincero há pessoas que estão presas e pra elas a cadeia…

E: Vocês ganham algum com as atividades aqui dentro?

R.3: Não, nada. Recebemos por sermos faxinas desta unidade, da ULD, todos os dias de manhã ao fim do pequeno-almoço tomamos um café e depois temos meia hora para limpar o recinto todo, este corredor, estes quartos, o refeitório, a sala de estar, o aquário que é aquela…

E: Os dois colegas que já entrevistei falaram no disponível e no…

R.3: É 60 e…2 euros se não me engano, é 31 para o disponível e para uma pessoa ter os gastos…

E: Mas sejam os da ULD, seja os do Regime Comum?

R.3: Não, não…60 euro aqui na ULD, por exemplo, se for lá pra baixo se for trabalhar para o campo já só ganho 20 euros pra cada lado, mas os faxinas do regime comum também ganham a mesma coisa…

E: Mas faxinas são os que ganham mais? São os tais 60 e tal euros?

R.3: Acho que sim….não, não 100 e tal euros é aqui na vacaria, porque também são os que se tem que por a pé as 05, 06 da manhã…

E: Esses são os de regime aberto?

R.3: Sim, é o regime aberto, já maior parte tem o regime aberto, já mas pra já estou aqui…eu tou a concluir o meu tratamento!

E: E faz muito bem. Diga-me uma coisa, tem algum sonho um dia que sair daqui? Alguma ambição em termos profissionais, o quê que gostava de ser um dia?

R.3: O quê que eu gostava de ser um dia? Gostava de ser aquilo que sou, ter um bom emprego onde eu pudesse mostrar…

E: Mas trabalhar em alguma área em específico?

R.3: Eletricidade é o que eu mais gosto!

E: Construção civil?

R.3: Sim, é isso e mecânica de preferência de motas.

E: Fale-me um pouco sobre essa atividade, esse desporto que praticou.

R.3: Motocross?

E: Sim, como começou, que idade é que tinha?

R.3: Como lhe disse andei nos escuteiros até aos 12 anos, fiz muitos acampamentos, foi bom embora ainda fosse um bocado criança, pois com 12 anos era ainda um bocado jovem. Mas quando começou o mundo das motas pra mim foi a melhor coisa que podia ter acontecido, era mesmo aquilo que eu gostava, eu sentia mesmo o motocross, gostava mesmo de motocross, mas claro as coisas nem sempre correm bem. Lutei, lutei, lutei…e infelizmente até ser campeão nacional só o meu padrinho é que patrocinava, só ele é que me dava dinheiro para investir na mota que queria e nas peças que queria…

E: Campeão nacional então! Que idade é que tinha?

R.3: 16 anos?

E: Que modalidade? Motocross mesmo?

R.3: Supercross, aos 16 anos de idade, entretanto, deixei-me andar até aos 17, era patrocinado pela Moto Garrano lá em Barcelos que é o agente da Honda, só que entretanto aquilo já participava não a título de vencer a prova, mas a título de dar experiência a outros, por exemplo você vai a uma prova e você, é como a Maclaren, a Formúla1, é como a Supercross, é como a Superbike, você tem sempre um colega seu pra fechar o caminho aos outros não é?! E eu desde que tive essa vitória participei em mais 3 ou 4 provas, porque graças à Deus tombos dei muitos, e lá está mais um fator de proteção da minha avó… “olha tudo bem que andas nesta vida, tudo bem que gostas de Motocross, mas nunca mais me entres aqui em casa com um osso partido”…e prontos mais um entrave não é?! Lutei, lutei para ser Campeão Nacional e ao fim prontos como já havia…

E: Foi um objetivo cumprido?

R.3: Foi, entretanto fiz outra mota, lá o patrocinador arranjo-me uma mota, essa mota já andava mais do que eu a que eu tinha, entretanto dei 3 ou 4 saltos que correram bem, ao quarto já me espetei, já caí…parti o braço e parti o pé e a minha avó disse: “oh, tu abranda lá que eu não te quero ir ver mais ao hospital!” e eu prontos entretanto também estava a chegar o período da tropa, e lá está a tal coisa a adrenalina em primeiro lugar uma pessoa uiii…uma pessoa saltar de para-quedas aquilo é que vai ser fixe! Prontos, alistei-me para os para-quedistas com 17 anos e 8 meses de idade.

E: Foi uma experiencia marcante a tropa?

R.3: Foi, foi…foi bom!

E: Esteve em Tancos, em São Jacinto?

R.3: Tive em Tancos, tive em Santa Margarida e tive…tive em Santa Margarida no 1ºBimec, 1º Batalhão de Infantaria Mecanizada, tive no Entroncamento depois de pronto, já tinha a boina, porque andávamos a tirar umas coisas que lá no Entroncamento é tipo uma arrecadação ou um Regimento de…

E: De material…

R.3: De material… tivemos pra lá. Ao fim o meu último salto, não sei se você se recorda, foi quando o Jorge Sampaio foi ao Campo Militar de Santa Margarida, foi naquela altura que estavam a mandar aqueles tanques e aqueles carros de combate da ONU pra mandar…

E: Sim…

R.3: Pra mandar lá pra Bósnia, o Doutor Jorge Sampaio foi ao Campo Militar de Santa Margarida do qual fizeram dois pelotões…

E: Fizeram uma demonstração…

R.3: Fiz…foi um dos saltos em que eu até ganhei mais, ganhei 35 contos naquele salto se não me engano! Saltaram 3 colegas meus com o para-quedas normal e eu como era o cabo de pelotão saltei em último com a bandeira de Portugal, eu tenho tudo filmado aí…ganhei 35 contos naquele salto!

E: São momentos importantes?

R.3: Foi…foi, muitos! Embora tivesse lá passado muito, porque as provas não são fáceis, mas…

E: E em termos futuros já está a projetar a sua vida? Para quando sair daqui?

R.3: Já, já…olhe em termos futuros olhe, graças à Deus já consegui falar com aquele meu antigo patrão e ele…

E: Com o senhor Fernando…

R.3: Com o senhor Fernando e ele diz que me abre as portas logo que eu queira…

E: Mas trabalhar onde?

R.3: Trabalhava lá em…

E: Trabalhar numa empresa em Moçambique?

R.3: Sim, ele quer mandar pra lá mas mesmo que não queiras vir eu meto-te a trabalhar em Barcelos, só que eu sou capaz de ir que ele diz que precisa lá…que ele montou uma empresa de autocarros, de táxis, um hotel que é restaurante por baixo e hotel por cima e ele disse-me: “olha tu fazes-me falta porque como se diz em bom português és o homem das sete artes, sabes fazer um bocado de tudo e precisava que tu viesses pra aqui tal…” só que lá está, também tem um outro contratempo que foi como ele disse, se não fosse aqui era em Barcelos, porque mesmo que eu saia da cadeia só se for ao fim da pena é que eu não tenho satisfações a dar a ninguém e vou pra onde quero, agora por exemplo se eu sair aos dois terços ou ao meio eu já tenho certas restrições a ter. Já não me posso ausentar do país, já fico o resto da pena eme pena suspensa…

E: Nesses períodos de dois terços, de meio tem a possibilidade de sair mais cedo…isto depende do seu comportamento?

R.3: Exato…depende de como eu me portar aqui dentro, mas…

E: Acha que o resultado final aqui na ULD é importante, se tem o seu peso Na decisão final?

R.3: Tem, porque uma pessoa só vem para aqui voluntário, só vem pra aqui quem quer…

E: E o Tony sente-se preparado para um dia sair daqui?

R.3: Sim, se fosse hoje sinto, o tal fator…eu não sei, se calhar chega o dia de amanha, porque eu não sei, as tantas chego lá dentro tenho um problema qualquer e estrago tudo não é, mas…

E: Não quer dar isso como adquirido não é?!

R.3: Exato…

E: Mas tem força pra isso?

R.3: Sim, tenho muita força para isso, garças à Deus, ao longo de muito tempo sinto…

E: O Tony dá outro sentido à vida hoje?

R.3: Dá, dá…já olho pra o meu filho e já…

E: É muito importante o seu filho pra si?

R.3: É muito importante pra mim…

E: E sente-se um cidadão melhor, ou acha que vai ser um cidadão depois de sair daqui?

R.3: Já, já…agora já. Noto mesmo em mim, porque eu muitas vezes vou pra cama e ponho-me a pensar: “isto que me aconteceu ao bocado, ou a meia dúzia de anos ou noutra altura eu…”, partia logo a cara ao gajo ou respondia torto a um guarda ou…

E: Mas não ganhava nada com isso!

R.3: E não ganhava nada com isso, mas na altura uma pessoa não pensa e agora não, agora pode me acontecer o que acontecer mas já penso e já conto até 30 antes de ter qualquer reação porque sei que isso só me vai vir a prejudicar! Não quer dizer que me deixe calcar, mas por outro lado pensando bem nas coisas uma pessoa traça outro caminho, agora só quero é ter o meu trabalhinho nesse senhor que sempre me ajudou…

E: O seu trabalho era reconhecido?

R.3: Era, recordo-me de muitas situações, de chegar ao meio do mês e não ter dinheiro e chegava à beira dele e: “olhe senhor Fernando”….vamos supor ganhava100 contos ou 11º contos e…

(interrompido por uma das técnicas para avisar a aproximação da hora de almoço)

R.3: Chegava a beira dele e dizia. “olhe senhor Fernando, preciso de dinheiro, não tenho dinheiro” e de um ordenado praí de 100 ou de 150 contos era capaz de me dar logo prai 20 ou 30 contos de uma vez…antes do fim do mês dava mais 20 ou 30 e tava no fim do mês pra receber e o ordenado estava lá igualzinho! E eu dizia. “oh senhor Fernando tem que me descontar…” “não, fica pra ti, quando precisar de ti a um sábado ou dois vens trabalhar…” e ficava assim…sempre me ajudou!

E: E sabia que consumia?

R.3: Sabia, sabia que…uma pessoa as vezes…é inevitável não é?! Chegava tarde…

E: Mas consumia haxixe ou já consumia heroína?

R.3: Não…nessa altura já consumia heroína, consumia…eu não considero o haxixe uma droga…

E: Uma droga leve não é?!

R.3: Sim, uma droga leve…

E: E a droga prejudicou-o no trabalho? Conseguia trabalhar sob o efeito? Sabia o que estava a fazer?

R.3: Sempre, sempre…posso estar a cair pro lado de drogado mas sei o que estou a fazer! Só me prejudicava nas alturas em que não havia, por exemplo, hoje estava teso, estava a contar que a minha avó ou o meu padrinho fosse tar com eles ou com a minha mulher para me dar dinheiro pra comprar uma dose para o dia seguinte, e no dia seguinte as nossas fontes falharam não é, e eu no dia seguinte pensava: “pronto vou ter que me por a pé agora ir pedir dinheiro à pessoa que não vi ontem, ao meu padrinho ou a minha mulher, a minha avó ou fosse a quem fosse porque ontem andei atrás deles e não consegui tar com eles”. E tive que trazer a mulher pra casa e o filho pra casa e não deu, e prejudicava-me, foram poucas vezes mas foram, e de manha já não aparecia no trabalho! Enquanto ia ter com o meu padrinho, ia comprar, ia consumir e não sei quê, quando dava por ela já eram 11 da manhã e já não valia a pena ir trabalhar, pegar ao trabalho por causa de meia hora? Já não valia a pena… E prejudicou-me no sentido da família não é, uma pessoa, como lhe disse a bocado fugia da família, já não tinha aquela proximidade com a família, já não tinha aquele dialogo aberto com a família porque a família apercebia-se das coisas, não é que a família viesse no sentido de: vou-te chatear!

E: Isso em relação ao consumo, mas em relação ao cumprimento da pena acha que poderá vir a prejudica-lo como pai ou como marido?

R.3: Como pai já prejudicou e continua a prejudicar.

E: E quando sair daqui?

R.3: Quando sair daqui é como eu lhe digo se continuar com esta força, o meu filho ou a minha família não vai ter mais motivos pra ficarem revoltados comigo, mas é a tal situação não é!

E: A reclusão trouxe-lhe distanciamentos?

R.3: Traz, traz…olhe uma coisa é isto: ULD, somos privados de ver primos, tios…só familiares diretos, pai, mãe, irmão, mulher, namorada e mais nada…e filhos.

E: Mas isso é pra um fim…

R.3: É pra um fim que não tem grande lógica mas prontos, se uma pessoa está a lutar contra a droga uma pessoa quer que a nossa família sinta que nós estamos bem não é?! Eu pelo menos noto, por exemplo quando fui de precária uma pessoa vê, mas há pessoas aí…

E: Mas quem o visita cá? Que visitas recebe?

R.3: Só quero da minha companheira e de mais ninguém…

E: Mas opção sua?

R.3: Sim, o meu padrinho uma altura, e foi meia dúzias de vezes à Viana quando lá estive, e ele é hospitais e cadeias, começa a ficar branco, sente-se mal prontos, não é ambiente pra ele…

E: Mas fala com ele por telefone?

R.3: Falo todos os dias pelo telefone, não vem ninguém porque também sou de Barcelos e é longe. E vem cá um primo meu…é a tal situação, o meu primo é que traz a minha mulher porque ela não tem carta, o carro é do meu primo…e traz até a porta, e como não pode entrar porque é ULD o rapaz fica lá fora, a minha mulher vem visitar-me e ao fim vai embora com ele…

E: Mas não costuma tar com ele?

R.3: Tou com ele quando vou te precária, não sai da minha beira…

E: Só foi uma vez correto?

R.3: Não, com esta é a quarta!

E: É a quarta?

R.3: No Natal, em janeiro, em abril e com esta é a quarta!

E: Então foi nestes últimos 6 meses que consegui essas precárias?

R.3: Fui em janeiro, no 24 de abril no mês passado…tem corrido bem, tem que correr!

E: Isto é um processo não é?! Não se pode, como disse a bocado, que está tudo bem, é uma coisa que é…

R.3: Eu já me conheço, se eu não me conhecesse…

E: Já teve muitas recaídas não é?!

R.3: Já, já tive muitas recaídas e sei dos pequenos pormenores que um gajo pode começar a…

E: E sabe que em termos psicológicos tem que estar muito forte é isso?

R.3: Tem, tem que estar como está agora, eu bem, a minha família bem, eu a dar-me bem com toda a gente, não ter assim nenhum percalço que me deite abaixo assim na vida, mas mesmo que me aconteça alguma coisa já estou preparado pra pensar de outra maneira.

E: Criou defesas?

R.3: Cria-se, cria-se defesas…ao longo do tempo, não lhe vou dizer que criei com 1 ou 2 anos de cadeia, não! Isto foi preciso bater muitas vezes com a cabeça contra a parede.

E: O Tony não é a mesma pessoa hoje?

R.3: Não, nem quero ser e estou convencido que nem posso ser sequer a mesma pessoa, porque se fosse a mesma pessoa Deus me libre, a uma não estava aqui, a esta hora se calhar estava na morgue, não posso dizer isso, mas…

E: Não é isso que quer pra sua vida?

R.3: Não, não é isso que quero, e sei que não é isso que quero pra mim nem os meus querem que tenha a mesma vida que tinha, eu agora neste momento estou preocupado não só comigo claro, uma pessoa tem que nos preocupar connosco, porque se nós não tivermos bem também não podemos tar bem com a sociedade e com os familiares. E há uma coisa que uma pessoa ao fim de x tempo fora das coisas conseguem alcançar que é: uma pessoa começa a tar sóbrio, deixei medicações, deixei tudo…

E: Já não toma nada?

R.3: Nada, já não tomo nada…começa a ter um coração mais mole, começa a preocupar-se mais com a família, começa a preocupar-se mais com o interesse, a preocupar-se mais com o bem-estar, mesmo nós a cuidar de nós próprios…

E: Começa a dar valor a coisas que nunca deu…

R.3: Mas começa a dar valor que uma pessoa na droga…são coisas que lá fora não liga, não liga nada, quer lá saber se comeu o meio-dia ou se comeu a noite, desde que não tenha fome tá-se bem. Aqui não, já se preocupa com a alimentação, com a higiene, já se preocupa em fazer desporto físico que pra mim isso nunca foi um tabu não é?! Sempre gostei…

E: Coisas que nunca deu importância…o modo de vida não é?!

R.3: Exato…

E: Mesmo aqui dentro?

R.3: Mesmo aqui dentro….

E: E em termos de visitas, visitas mais intimas com a sua esposa, como é que funcionam aqui?

R.3: Já tive visitas aqui, mas aqui….enquanto não tive precárias!

E: Quais são os aspetos positivos e negativos, o quê que sente? É bom, não é?

R.3: Seja homem ou seja mulher claro que é bom a visita, nesta caso…por exemplo eu, a minha companheira, era fixe, então uma pessoa tá presa, há dois anos nunca tive relações….prontos nas visitas há beijinhos, conversas de como está a vida, conversas sobre a família, como está como não está, mas contacto físico é diferente, é bom!

E: É outro tipo de necessidade.

R.3: Mas prontos, eu pedi uma visita íntima, e a minha mulher veio 3, 4, 5 vezes se não me engano…ao fim prontos, lá me deram uma precária e eu lá fui a casa, automaticamente ganhando precárias acabam-se as visitas íntimas, uma vez que você vai a casa…

E: Já não faz sentido…

R.3: Prontos mas nessas 5 vezes que a minha mulher veio cá, ora bem, eu não quer se dizer que eu não me sentia bem, não é um sentir bem, aquilo é mais uma necessidade praticamente não é? Porque um homem…

(nova interrupção por causa da hora de almoço)

E: É aquela situação que uma pessoa é homem e sabe muito bem, a nossa mulher em casa a passar fome e nós aqui a passar fome, ora bem pra mim era chato porque a minha mulher ao vir era praticamente como um objeto sexual…

E: E não queria, queria…

R.3: Tá, tá a ver o que é as guardas verem aquela mulher que vem pra ter relações sexuais com o homem e daqui a duas horas vai embora.

E: É um constrangimento não é?

R.3: Por um lado também é constrangimento, mas quanto ao resto só peço que tenha a mesma força de vontade que tive até hoje e que tudo corra bem!

E: Mas tem noção das dificuldades que vai encontrar quando sair daqui?

R.3: Tenho, tenho…tenho e muito. Tenho mais noção agora do que tive nesses anos todos! Agora sei que não posso pisar o risco, se pisar o risco uma vez sou capaz de não voltar a ganhar tanta força como ganhei até agora! É fugir é de tocar, começando, tocando uma vez , estragou tudo.



E: Tony desejo-lhe as maiores felicidade do mundo e obrigado pela sua colaboração.

R.3: Obrigado eu, agradeço, até a próxima.

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