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ESPAÇO GEOGRÁFICO 
E URBANIZAÇÃO
UN
IDADE
2
URBANIZAÇÃO NO BRASIL
5
C
A

TULO
Ainda há um jeito de viver
“Antigamente até que se achava bonita a palavra 
megalópole e todas as suas implicações. Hoje é o 
grande vilão do mundo moderno. O que foi a Lon-
dres imperial, a gigantesca Nova York, poderosa 
expressão de uma grandeza emergente, tornou-
-se agora sinônimo de conflito e retrocesso. As 
megalópoles são […] são sintomas, não de força 
e riqueza de um país, mas de miséria e injustiça 
social. Pois que todas essas grandes metrópoles, 
passando algumas dos doze milhões de habitantes 
ou chegando perigosamente aos vinte milhões, 
representam uma maioria que é vítima da miséria 
torçal
1
, do desemprego, do subemprego e mais 
gradações da extrema pobreza.
No Rio de Janeiro de antigamente, a favela era 
uma referência lírica, inspiradora dos sambas como 
o imortal Chão de Estrelas: ‘A lua, penetrando o 
nosso zinco/semeava de estrelas o nosso chão…/
Tu pisavas nos astros distraída/sem saber que a 
ventura nesta vida/é a cabrocha, o luar, o violão…’. 
Mas disso já se foi no tempo. Hoje, favela não é mais 
símbolo de pobreza descuidosa e lírica; cada favela 
é miniatura de Chicago dos anos 20, enclave fora da 
lei, dominada pelas quadrilhas da droga, do assalto 
e do sequestro, onde a população submissa, vítima 
do medo, é forçada a cumprir a lei da Omertá – o 
silêncio imposto pela camorra
2
 dos chefões. Aos 
quais se acumplicia a polícia conivente, ou temerosa 
também. Afinal, polícia não é super-herói, é gente 
de carne que nem nós, tem medo de metralhadora 
e é susceptível às tentações do dinheiro. Às vezes 
nem precisa fazer nada – basta só fechar os olhos.
Mas eu não queria falar em polícia colonial, mas 
nas cidades brasileiras. E por tudo que tenho visto, 
sinto que ainda existe, espalhado em quase todos 
os nossos estados, um tipo de cidade ideal para 
se morar. Cidades de porte médio, entre os 300 
e os 500 mil habitantes. Com todos os confortos 
da moderna civilização e até mesmo os requintes: 
as maravilhas da informática, TV a cabo, telefone 
celular etc. […]
Tenho a impressão de que no futuro as grandes 
cidades de muitos milhões de habitantes, onde 
já não vale a pena nem ser rico, serão banidas 
dos mapas ou reduzidas ao seu núcleo mínimo, o 
resto derrubado, substituído por pomares e jar-
dins. Esses ecologistas podem às vezes ser imper-
tinentes, mas nos alertam para a impossibilidade 
de se viver aos montões, se entredevorando uns 
aos outros. Lembrou-me um deles o exemplo das 
abelhas: quando uma colmeia chega a um grau 
perigoso de superpopulação, as fontes de alimento 
escasseando, elas começam a emigrar, os enxames 
espessos criando colônias novas em outras áreas, 
aliviando a colmeia-mãe.
Os homens têm que começar a imitar as abelhas.”
QUEIROZ, Rachel de. 
Correio Braziliense, 24 jun. 2002.


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