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Boletim Campineiro de Geografia: No Período 
Especial
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, não é? 
Luisa Iñiguez Rojas: Foi no período especial, só 
que quando eu cheguei… em junho desse ano houve 
o Plano Real, antes havia o cruzeiro, o cruzeiro 
real. Nesse processo, quando eu botei o pé no Rio 
de Janeiro, a pessoa da FEEMA no aeroporto falou 
‘você tem que voltar, porque o dinheiro estava no 
banco e não tem mais dinheiro’ (risos). Outra opção 
é você ir para Niterói, tem um geógrafo que gosta 
muito de Cuba e quer que você more com ele. Eu, 
como o sonho da minha vida era o Rio de Janeiro, 
é claro que ia ficar (risos). Então, fiquei, só que ele 
era tesoureiro dos geógrafos do CREA (Conselho 
Regional de Engenharia e Administração). Então 
começou a fazer propaganda que tinha uma cubana
2 O chamado Período Especial em Cuba iniciou-se após 1990, com a 
queda da União Soviética. A perda de mercado externo (até então muito 
dependente da URSS), combinada com o bloqueio econômico imposto 
pelos Estados Unidos, trouxe severas dificuldades econômicas ao país.
que mexia com geografia médica… Sim, porque 
ninguém sabia de geografia da saúde na época. E 
eu tenho um trabalho de geografia da saúde com a 
russa com quem me formei. Essa russa espetacular, 
Natalia Petrovna Kostenko, não chegou à univer-
sidade, chegou ao Instituto de Medicina Tropical
só que lá ninguém falava russo, e eles foram para a 
Geografia. Ela ia dar um curso de geografia médica, 
então… Na geografia, vários falavam russo, só que a 
interessada pela Geografia médica lá era eu, então 
falaram ‘é você’, e eu fui a tradutora do curso dela. 
A senhora voltou no outro ano e quando deu o 
segundo curso, foi para o Ministério da Saúde, e 
falou ‘eu quero que os geógrafos entreguem alguma 
coisa, [quero] alguma doença para eles demons-
trarem que podem fazer uma contribuição’. E ela 
conseguiu. Depois de muita briga lá conseguiu, me 
deram a meningite meningocócica B. Estavam ten-
tando uma vacina mas tinha havido um pico epi-
dêmico horrível, porque a doença atingia crianças. 
Então, esse senhor, Sérgio Velho, que me aco-
lheu em Niterói, começou a falar da meningite, 
do trabalho que eu tinha feito. E Bertha Becker 
me convidou pra uma palestra na UFRJ. Conheci 
a todos eles: Armando Correa da Silva, Orlando 
Valverde – fui à casa dele no Rio de Janeiro, sentar 
pra conversar com ele. Eu andei por tudo… (risos) 
Na época, Claudio Egler e Bertha Becker estavam 
com um projeto ambiental em Volta Redonda… 
não lembro do que era o projeto. Mas dentro desse 
projeto de Claudio Egler e Bertha Becker tinha 
saúde, e tinham convidado pessoas da Escola 
Nacional de Saúde Pública para assistir a palestra. 
Então, quando acabou a palestra, esse pessoal da 
Fiocruz veio perguntar se eu poderia repetir essa 
palestra na Escola Nacional de Saúde Pública, na 
Fundação Oswaldo Cruz (a palestra de Saúde e 
Geografia). E aí eu fui. [...] 
Aí conheci Milton Santos. Foi 1991 o ano em 
que conheci ele, no México. Tinha um canto para 
ter conversas entre professor e estudante, e ele 
falou ‘3 horas da tarde a gente se encontra aqui’. 
Então chegou com um monte de livros. Eu tenho o 
livro ‘Por uma geografia nova’ [escrito] ‘Para Luisa, 
de um aprendiz de geógrafo. Com carinho, Milton 
Santos’ (risos). Tenho guardado. No dia em que 
houve a despedida, ele pediu à Mónica [Arroyo] 
que me ligasse – estava no Rio de Janeiro, na Fio-
cruz – para me convidar para almoçar. Eu sabia 
que ele estava muito mal. Já tinha mais de dois 
meses que ele não vinha aqui [na FFLCH/USP]. 
Então fui direto para a casa dele com a Mónica. 
Almoçamos rápido e ele foi para o quarto, estava 
muito mal. Nos sentamos a falar, Marie Hélène 
[Tiercelin], Mónica e eu, na sala, conversando de 
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qualquer coisa. Passou uma hora, uma hora e meia. 
E ele saiu com uma camisa de flores, com aqueles 
suspensórios. ‘Vamos pra USP.’ Aí a Marie Hélène 
agiu normalmente, como se fosse normal, a hora de 
ir. Eu olhei pra Mónica e ela também não fez nada, 
como se fosse normal, um dia de trabalho. Mas na 
verdade fazia tempo que não vinha. Era a última 
vez – ele sabia e eu também. E eu chorei tanto. A 
minha relação com Milton era uma relação muito 
pessoal… ele tinha muita confiança. 
E ele ‘bateu’ muito em cima de mim, por exem-
plo com a Natureza. Nós tivemos muito problema, 
ele sempre me falava ‘Luisa, a natureza acabou’. E 
eu: ‘Milton, não acabou. A natureza não acabou, eu 
estou no Amazonas, as subidas do rio comandam 
a vida das pessoas’. ‘Quê que você está falando?! 
Que horror, a natureza comanda a vida…’ (risos). 
Ficava bravo, brigava muito comigo por isso. 
Bom, então, fui conhecendo geógrafos e geógra-
fos… e Christovam Barcellos, que é meu ‘irmão’ bra-
sileiro até hoje, é formado na UFF – se formou em 
engenharia civil, mas fez sua pós-graduação toda 
em Geografia. É um grande geógrafo e uma pessoa 
que conhece muito de geoprocessamento, de tec-
nologia, mas também de teoria. É muito estranho 
achar uma pessoa que conheça e que ande pelos 
dois mundos. Eu adoro ele, é uma pessoa muito 
reconhecida. Não tem um geógrafo brasileiro que 
seja reconhecido fora do Brasil como ele na área da 
geografia médica. Também é da Fiocruz e vai em 
muitos congressos. Tem muitos estudantes, muitas 
teses… Conheci Ariovaldo [Umbelino de Oliveira] 
também, Carlos Walter [Porto-Gonçalves], Ruy 
Moreira… E já dei aula na Unemat, na UFF, já dei 
aula em Rondônia, já dei aula em Manaus, já dei aula 
em Recife, já dei aula em Natal. Aula de geografia, 
sempre com essa questão da saúde.”
PASTI, André; STEDA, Melissa; Nabarro, Wagner. Entrevista: Luisa Iñiguez Rojas. In: Boletim Campineiro de Geografia,  
v. 4, n. 1, 2014. p. 138-144. Diposnível em: . Acesso em: abr. 2016.


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