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neiro de Geografia: 
Professora, como foi 
sua aproximação com 
a geografa brasileira? 
Você citou várias vezes 
a obra do professor 
Milton Santos…
Luisa Iñiguez Rojas
Minha aproximação 
com a geografia bra-
sileira é uma história 
impressionante. O 
diretor da FEEMA – 
Federação Estadual de 
Engenharia do Meio 
Ambiente – fez uma 
viagem a Cuba, procu-
rando alguma coisa de 
interesse pra FEEMA, 
do Rio de Janeiro. Ele 
andou pela minha uni-
versidade, pela Uni-
versidade Tecnológica, 
chegou até Santiago de 
Cuba. E quando acabou 
a viagem dele, decidiu 
convidar duas pessoas. 
Um engenheiro da uni-
versidade de Campos dos Goytacazes lá no Rio – a 
Universidade Darcy Ribeiro, que é uma universidade 
bem interessante, de produção de cana-de-açúcar; 
e a mim, porque eu estava tentando trabalhar com 
meio ambiente. Os russos não deixavam trabalhar o 
meio ambiente, não trabalhavam com o meio 
ambiente. A origem [da questão ambiental] não era 
marxista, era positivista, de Comte, ou naturalista, 
que não tinha nada a ver com as lutas, então meio 
ambiente não era estudado. 
E eu fiz uma viagem para um complexo de 
Tungstênio/Molibdênio na Rússia e um outro… 
(pausa) um nacional e outro que é um território 
autônomo, porque os russos [no período da URSS] 
têm quinze repúblicas e vários outros territórios 
autônomos. A universidade tinha uma área onde os 
estudantes iam ter aula prática e nós fomos para lá. 
E quando fiz uma entrevista com o chefe da mina 
de Tungstênio/Molibdênio, ele começou a mostrar 
as doenças do pulmão, um monte de problemas do 
tungstênio e do molibdênio… O vale glacial é um 
vale morto, porque no vale do rio normalmente 
é inverno. Aquela contaminação fica toda assim… 
você respira aquele negócio.
E a segunda viagem foi para a Bulgária, me 
convidaram para fazer uma fala de Geografia em 
Sofia. Me convidaram para ver a Dimitrov
1
, mas 
hoje Dimitrov está igual a Lenin, embalsamado na 
cidade dele. Mas quando passei pelo rio na cidade 
dele, o rio era vermelho. Vermelho. Aí eu disse que 
a água não é vermelha, não? ‘Ah, não, é um com-
plexo ferro-não sei o que…’. Não estava entendendo 
nada (risos). Muita inocência. Eu tinha vinte e tan-
tos anos. Nós achávamos que era perfeito, uma coisa 
perfeita, sabe? Queremos chegar do capitalismo a 
isso, mas achamos que isso é perfeito porque já tem 
cinquenta anos. E não é perfeito nada… Depois, com 
glasnost e a transparência, apareceram muitas coi-
sas piores. Só estou falando da minha experiência, 
que foi no complexo de Cabárdia-Balcária (que 
é a região do complexo), e no lugar onde nasceu 
Georgi Dimitrov. Foi muito difícil, então, quando 
voltei para Cuba, continuar dando aula do mesmo 
jeito. E continuar dizendo coisas que você viu que 
não eram assim… É todo um processo, sabe. Por que 
estava falando sobre isso? Falei da União Soviética…
Boletim Campineiro de Geografia: falávamos do 
Brasil… 
Luisa Iñiguez Rojas: Ah, então, nesse mesmo 
momento eles pedem que eu assuma uma coorde-
1 Georgi Dimitrov Mikhaylov (1882-1949) foi um político comunista 
búlgaro, líder da Bulgária entre 1946 e 1949. Seu corpo foi embalsamado 
e colocado em um mausoléu em Sofia. Após a queda do comunismo 
no país, seu corpo foi transferido para um cemitério e, em 1999, o 
mausoléu foi destruído.
Com a globalização, é 
cada vez mais frequente 
o intercâmbio de pessoas 
e outros elementos vivos 
entre diferentes regiões 
do planeta. Isso vem 
impondo novas questões 
desafiadoras à sociedade, 
como o ressurgimento 
de epidemias antes 
erradicadas e a rápida 
disseminação de doenças 
antes restritas a uma 
região para amplas 
extensões do globo. 
Nesse novo cenário, a 
Geografia da saúde, ou 
Geografia médica, adquire 
grande relevância. Neste 
excerto de entrevista é 
apresentada a opinião da 
geógrafa cubana Luisa 
Iñiguez Rojas, professora 
da Universidade de 
Havana e conhecida 
sobretudo por seus estudos 
da área da saúde, tendo 
atuado em diversas 
pesquisas da Geografia 
médica no Brasil, com foco 
na Região Norte do país.
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nação. No extremo nordeste de Cuba tem uma área 
de laterita. É níquel e cobalto, uma terra vermelha, 
mas que tem muito mineral. Tem no Canadá, na 
Jamaica… poucos países no mundo têm isso. E 
tem muita contaminação, então me fizeram ser 
coordenadora de impacto do desenvolvimento 
minero-metalúrgico sobre o meio ambiente. Como 
eu era a única pessoa que falava do meio ambiente, 
então… (risos). Fui a coordenadora daquele pro-
jeto enorme, tinha 13 instituições, 68 pessoas, um 
‘projetão’ que tirava amostras de mangue, amos-
tras do chão, amostras da água, amostras da roça, 
amostras de água do mar, amostras do ar… impres-
sionante! A amostragem era geoquímica, era um 
estudo geoquímico, mas social também, porque 
na época tinha onze mil vivendo em moradias, e 
eu consegui entrevistar todo mundo com meus 
estudantes do último ano.
Aí tentei associar as condições de vida com a 
saúde. Inventei uma metodologia que até hoje é 
boa, mas na época era uma coisa impressionante… 
E também ‘inventei’ que uma coisa é a informação 
oficial, o que está num sistema de informação, e 
outra coisa é o que acontece quando você está no 
lugar, porque as pessoas mudam os indicadores, 
e isso você não sabe como é que muda se não vai 
lá. Ou seja, pode ser que não tenha esgoto e esteja 
horrível, mas pode ser que não tenha esgoto e as 
pessoas deram um jeito. Você não sente cheiros, 
pode ser que a coleta do lixo seja uma vez por 
semana, mas… Isso já aconteceu, isso não é história 
– quando você vai está mais limpo, que é quando 
coletam lixo um dia antes. Então um diretor ficou 
apaixonado e me convidou, e eu cheguei ao Rio de 
Janeiro. Isso foi em fevereiro de 1994.


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