Territorio e Sociedade3 pnld18 pr pontualOK. pdf


Leituras complementares para o professor


Página515/519
Encontro29.09.2021
Tamanho
1   ...   511   512   513   514   515   516   517   518   519
Leituras complementares para o professor
Os processos de regionaliza•‹o
“[...] o processo 
de globalização vem 
provocando a for-
mação de uma regio-
nalização em escala 
mundial, com o sur-
gimento de blocos 
de países nos vários 
continentes. Não é 
aquela regionaliza-
ção característica da 
geografia tradicional, 
que teve tanta impor-
tância no início do 
século XX, baseada sobretudo nas condições 
naturais, mas uma regionalização geopolítica. O 
mesmo ocorre em escala continental e nacional.
No Brasil, poderíamos até falar em uma regio-
nalização em escala continental, já que o país tem 
dimensões de um continente e uma grande diversi-
ficação tanto em suas condições naturais como nas 
humanas. Desde o período imperial foram nume-
rosos os estudiosos que procuraram distinguir 
regiões diversas no nosso país, falando-se sempre 
em uma contraposição entre o Norte e o Sul.
[…]
A regionalização do território brasileiro vem 
sofrendo vários impactos, como o da expansão 
do povoamento, o da criação de novas unidades 
político-administrativas e o do relacionamento 
com o Mercosul e com os países vizinhos.
No primeiro caso, o crescimento do Centro-Oeste 
e da Amazônia vem provocando o povoamento 
Este texto trata das questões 
relacionadas às dinâmicas das 
regionalizações imbricadas 
na atual fase da globalização. 
Por traçar um panorama da 
regionalização que transita 
tanto historicamente como 
nas diferentes escalas (local, 
regional e global), tendo como 
base o contexto brasileiro, 
serve como ampliação 
dos assuntos tratados nos 
Cap’tulos 10 e 11.
TS_V3_Manual_ParteEspecifica_315_384.indd   376
30/05/16   14:57


377
de áreas anteriormente subpovoadas e isoladas, 
criando novos fluxos e ampliando a produção 
econômica, muitas vezes com o sacrifício das 
populações locais – índios e posseiros – e com a 
destruição da floresta. A expansão do povoamento 
é altamente predatória, podendo-se admitir que a 
destruição da floresta pelas madeireiras, seguida 
da cultura da soja e da pecuária extensiva, pro-
vocam fortes impactos sobre a população local e 
os imigrantes que chegam à área e modificam as 
paisagens e as condições ecológicas.
Este avanço provocará a criação de novas uni-
dades territoriais, como já ocorreu em 1975, com 
o Mato Grosso do Sul, e em 1988, com o Tocantins 
e, tudo indica, ocorrerá dentro em pouco com a 
criação dos estados do Araguaia ou Mato Grosso 
do Norte e o do Tapajós e dos Territórios do Alto 
Rio Negro, do Solimões e do Juruá. Isto, para não 
mencionarmos outras possíveis redivisões de 
novos estados e territórios, em futuro próximo
1

A criação de unidades administrativas organizará 
o espaço em áreas que se mantinham em um certo 
isolamento e redefinirá formas de uso do solo 
e direção de fluxos, provocando a definição de 
novas regiões. No Norte, por exemplo, já é difí-
cil manter-se uma unidade da região Amazônica, 
observando-se a divisão da mesma em duas gran-
des regiões, a Amazônia Ocidental, liderada por 
Manaus, e a Amazônia Oriental, polarizada para 
Belém. E isto ocorre, sobretudo, com a perda da 
importância do transporte fluvial, em vista do 
desenvolvimento das rodovias.
O impacto do Mercosul, sobretudo na região 
meridional, será muito grande, já que grandes 
empresas transnacionais podem se instalar no 
Uruguai e expandir sua influência na Argentina e 
no Brasil, criando problemas para os nacionais da 
área. Também é possível que a produção de um 
país, mais mal localizado, ou que utiliza menos 
técnicas, não tenha condições de competitividade 
com os países vizinhos. Como exemplo, temos o 
caso do trigo da região Sul brasileira; será que ele 
tem condições de competitividade com a produção 
do Pampa argentino? Qual será o impacto, no Sul do 
país, da formação de um eixo de desenvolvimento 
São Paulo-Buenos Aires? E o que ocorrerá com regi-
ões tradicionalmente produtoras de açúcar, como 
o Noroeste da Argentina e o Nordeste do Brasil, 
frente à concorrência de regiões mais bem-dotadas, 
como o Centro-Oeste e o Sudeste brasileiros, onde 
numerosas usinas vêm sendo implantadas e outras 
1 ANDRADE, Manuel Correia de. Espaço: polarização e desenvolvimento. 
5. ed. São Paulo: Atlas, 1987. 
ampliadas?
2
 Até que ponto continuará a ocorrer a 
transferência de usinas das áreas tradicionalmente 
produtoras para as áreas em expansão canavieira?
Há uma expansão do povoamento brasileiro 
em países vizinhos, como ocorre no Paraguai, com 
os chamados brasiguaios, e na Bolívia, onde Santa 
Cruz de la Sierra está praticamente polarizada 
para São Paulo, apesar da grande distância entre 
as duas cidades; observando-se ainda uma migra-
ção de empresários e de técnicos brasileiros para 
países vizinhos mais pobres e de trabalhadores 
rurais, não qualificados profissionalmente, destes 
países para o Brasil. Outro movimento de menor 
expressão ocorre no norte da Bolívia, onde muitos 
dos seringueiros do departamento de Pando são 
brasileiros que migraram de Rondônia e do Acre, 
expulsos pelo avanço das relações capitalistas de 
produção no meio rural, que expropriam os cha-
mados ‘homens da floresta’. Também um intercâm-
bio de influência é observado no noroeste do país, 
onde a cidade brasileira de Tabatinga está pratica-
mente conurbada com a de Letícia, na Colômbia, 
criando problemas sérios de convivência fron-
teiriça, devido à dinamização do contrabando e 
do narcotráfico, comprometendo, muitas vezes, 
nações indígenas que são nômades e não respei-
tam as fronteiras políticas. Fora isto, as relações 
internacionais podem ser perturbadas em função 
da presença de guerrilha no território colombiano.
[…]
Pode-se admitir ainda uma série de tensões 
territoriais do Brasil com a Guiana e o Suriname, 
em áreas praticamente despovoadas e, ao mesmo 
tempo, possíveis confrontos com a França, na área 
fronteiriça do Amapá com a Guiana Francesa.
É bem verdade que na fase anterior à globa-
lização já havia uma tendência a alterações nas 
formações regionais, mas agora, com a evolução 
acelerada da tecnologia e com a globalização do 
sistema de relações internacionais, o processo de 
transformação regional pode e tende a acelerar-se, 
convocando os geógrafos e outros cientistas sociais 
a maiores reflexões, a estudos mais detalhados.
A globalização, ao mesmo tempo em que tenta 
unificar o espaço geográfico, estimula novas dife-
renciações, dando margem a novas formas de 
regionalizações e de transformações no meio geo-
gráfico, gerando, em consequência, o surgimento 
de uma nova fase com novas características.”
2 ANDRADE, Manuel Correia de. Modernização e pobreza. São Paulo: 
Unesp, 1994. 
ANDRADE, Manuel Correia de. O espaço da globalização. In: Brasil: globalização e regionalização. Conferência proferida  
na sessão de abertura do Curso de Mestrado em Geografia da Universidade Federal Fluminense, em março de 2001.
TS_V3_Manual_ParteEspecifica_315_384.indd   377
30/05/16   14:57


378
Os quatro Brasis
“Neste ponto da 
história do território 
brasileiro, parece lícito 
propor, a partir das 
premissas levantadas 
aqui, uma discussão em 
torno da possibilidade 
de propormos uma 
divisão regional base-
ada, simultaneamente
numa atualidade mar-
cada pela difusão 
diferencial do meio 
téc n ico - c ie nt í f ico -
-informacional e nas 
heranças do passado.
Cada região ins-
tala aquilo que, a cada 
momento, vem a cons-
tituir rugosidades dife-
rentes. Essas rugosida-
des estão ligadas, de um lado, à tecnicidade dos 
objetos de trabalho e, de outro, ao arranjo desses 
objetos e às relações daí resultantes. A constante 
é o espaço, isto é, um conjunto indissociável, soli-
dário, mas também contraditório, de sistemas de 
objetos e sistemas de ações
1
.
Poderíamos assim, grosseiramente – e como 
sugestão para um debate –, reconhecer a existência 
de quatro Brasis: uma Região Concentrada, for-
mada pelo Sudeste e pelo Sul, o Brasil do Nordeste, 
o Centro-Oeste e a Amazônia [...].
A Região Concentrada, abrangendo São Paulo, 
Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, 
Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, carac-
teriza-se pela implantação mais consolidada dos 
dados da ciência, da técnica e da informação.
Nessa Região Concentrada do país, o meio téc-
nico-científico-informacional se implantou sobre 
um meio mecanizado, portador de um denso sis-
tema de relações, devido, em parte, a uma urba-
nização importante, ao padrão de consumo das 
empresas e das famílias, a uma vida comercial 
mais intensa. Em consequência, a distribuição da 
população e do trabalho em numerosos núcleos 
importantes é outro traço regional.
Atividades ligadas à globalização que produ-
zem novíssimas formas específicas de terciário 
superior, um quaternário e um quinquenário liga-
1 SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. 
São Paulo: Hucitec, 1996. 
dos à finança, à assistência técnica e política e à 
informação em suas diferentes modalidades vêm 
superpor-se às formas anteriores do terciário e 
testemunham as novas especializações do trabalho 
nessa região. Esse novo setor de serviços sustenta 
as novas classes médias que trabalham nos diver-
sos setores financeiros, nas múltiplas ocupações 
técnicas, nas diversas formas de intermediação, 
marketing, publicidade etc. Uma cidade como São 
Paulo, onde em 1971 havia 204 mil pessoas ligadas 
a atividades técnicas, científicas e artísticas, conta, 
em 1986, com 508 mil trabalhadores nessas ativi-
dades, número que pula para 1 milhão em 1997.
A cidade de São Paulo continua sendo, nesse 
novo período, o polo nacional. Todavia, enquanto 
ascendem as atividades terciárias e de serviço, a 
indústria continua crescendo em terra paulista, 
embora sua velocidade seja menor. São Paulo man-
tém sua posição hierárquica sobre a vida econô-
mica nacional. Se ela perde relativamente o seu 
poder industrial, aumenta o seu papel de regulação 
graças à concentração da informação, dos serviços 
e da tomada de decisões. É a conjugação desses 
três dados que permite à metrópole paulistana 
renovar o seu comando em todo o território brasi-
leiro. Desse modo onipresente no espaço nacional, 
mediante uma ação instantânea e diretora, pode-se 
falar numa verdadeira dissolução da metrópole, já 
que ela está em toda parte.
[…]
Consolidam-se, outrossim, belts modernos des-
tinados à produção de laranja e cana-de-açúcar 
no estado de São Paulo, vinculados sobretudo 
ao fornecimento para a produção de suco para o 
estrangeiro e à fabricação de álcool. Mas também 
reafirmam-se como modernos os cinturões de 
soja, trigo, algodão, milho, arroz, fumo e uva nos 
Estados sulinos. Numerosas empresas de aviação 
agrícola perfazem essa agricultura moderna, per-
mitindo o controle e a aplicação de fertilizantes e 
pesticidas por via aérea.
Graças aos acréscimos de ciência, técnica e 
informação, maiores volumes de produtos são 
obtidos em áreas mais reduzidas e em tempos 
mais curtos. Rompem-se, então, os equilíbrios 
preexistentes e impõem-se outros em relação à 
quantidade e qualidade da população, dos capitais, 
das formas de organização, das relações sociais.
Ao mesmo tempo que aumenta a importância 
dos capitais fixos (estradas, portos, silos etc.) e 
dos capitais constantes (maquinários, veículos, 
Neste texto, o professor 
Milton Santos e a 
professora Maria Laura 
Silveira discutem a 
regionalização chamada 
de “quatro Brasis” e 
argumentam, com base no 
avanço do meio técnico-
-científico-informacional, 
como as rugosidades 
são constituídas a partir 
da tecnicidade, dos 
objetos e das relações 
de trabalho, portanto 
são dinâmicas. Explicam 
as especificidades 
de cada “Brasil” 
com profundidade, 
possibilitando uma 
ampliação do texto tratado 
no Cap’tulo 10.
TS_V3_Manual_ParteEspecifica_315_384.indd   378
30/05/16   14:57


379
sementes, adubos etc.), aumenta também a neces-
sidade de movimento. Crescem assim o número e 
a importância dos fluxos, sobretudo a circulação 
de dinheiro. Mas esses fluxos multiplicam-se com 
mais intensidade dentro da Região Concentrada, 
onde a divisão do trabalho é extrema e a vida de 
relações assume especial relevo.
Como hoje aumenta a repartição do trabalho no 
território, ao sabor das vocações técnicas e norma-
tivas das regiões, cresce também a necessidade de 
unir o trabalho segmentado. É a cooperação que 
une as etapas do trabalho e, assim, entretece círcu-
los no território. Essa é outra força nova da Região 
Concentrada, mostrando a densidade que nela 
adquirem as redes de abastecimento (silos, depó-
sitos, frigoríficos, mercados concentradores), mas 
também redes de outra natureza (supermercados, 


Compartilhe com seus amigos:
1   ...   511   512   513   514   515   516   517   518   519


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal