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O que é ser geógrafo: memórias profissionais de Aziz Ab’Saber. Rio de Janeiro: Record, 2007. p. 145-146.
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podem estar situados nas adjacências da unidade 
escolar, tais como: o quarteirão, o bairro, o fundo 
de vale mais próximo, passando pelo município, 
tais como um distrito industrial, um prédio público 
e seus arredores, uma área de mata nativa, até luga-
res mais distantes como uma cidade histórica, um 
parque ecológico, uma barragem de hidrelétrica 
etc. A rigor, não existem ‘lugares privilegiados’ 
e não há também ‘lugares pobres’ para a realiza-
ção dos Estudos do Meio. Em cada caso, o grande 
desafio que se apresenta aos seus realizadores é o 
processo de ‘[...] saber ‘ver’, saber ‘dialogar’ com 
a paisagem, detectar os problemas existentes na 
vida de seus moradores, estabelecer relações entre 
os fatos verificados e o cotidiano do estudante’ 
(Pontuschka, 2004a, p. 260). Todavia, como alerta 
a mesma autora em outra obra:   
Escolher e optar não são práticas fortuitas, 
mas definidoras da vida. Escolher os meios 
a estudar é optar pelo currículo que se quer 
desenvolver. A escolha coletiva implica a orga-
nização coletiva. Esta se efetivará com a prepa-
ração prévia, com a definição dos instrumentos 
e das tarefas a ser desenvolvidas (2007, p. 176).   
Os Estudos do Meio podem ser realizados em 
todos os níveis de ensino e, inclusive, nos pro-
cessos de formação continuada de professores. 
Contudo, é preciso lembrar que sua realização, 
especialmente nos Ensino Fundamental e Médio, 
requer atenção especial dos organizadores quanto 
à segurança dos estudantes. Além da prévia auto-
rização dos pais ou responsáveis e da contratação, 
quando necessária, de transporte e de alojamento, 
a elaboração dos roteiros de observação e pesquisa 
devem levar em consideração o estágio de desen-
volvimento cognitivo e emocional dos estudantes. 
Deste modo, a definição do espaço a ser estudado 
não pode prescindir de uma prévia visita ao local 
e da identificação, considerando as características 
dos participantes, de um itinerário que não colo-
que em risco a sua segurança. [...]
A definição dos objetivos e o planejamento 
Ainda que cada Estudo do Meio a ser realizado 
possua, em função dos interesses de seus organiza-
dores e da própria natureza do espaço a ser estu-
dado, finalidades mais específicas, seus objetivos 
mais gerais podem ser descritos, de acordo com 
Pontuschka, Paganelli e Cacete (2007, p. 177-178) 
da seguinte maneira:  
•  consolidação de um método de ensino inter-
disciplinar denominado estudo do meio, no 
qual interagem a pesquisa e o ensino; 
•  verificação de testemunhos de tempos e 
espaços diferentes: transformações e per-
manências; 
•  levantamento dos sujeitos sociais a ser con-
tatados para as entrevistas;
•  observações a ser feitas nos diferentes luga-
res arrolados para a produção de fontes e 
documentos: anotações escritas, desenhos, 
fotografias e filmes; 
•  compartilhamento dos diferentes olhares 
presentes no trabalho de campo mediante 
as visões diferenciadas dos sujeitos sociais 
envolvidos no projeto; 
•  coleta de dados e informações específicas do 
lugar, de seus frequentadores e das relações 
que mantêm com outros espaços; 
•  emersão de conteúdos curriculares discipli-
nares e interdisciplinares a ser contempla-
dos na programação; 
•  produção de instrumentos de avaliação em 
um trabalho participativo; 
•  criação de recursos didáticos baseados nos 
registros; 
•  divulgação dos processos e do resultado.  
Obviamente, [...] a esses objetivos mais gerais 
devem ser somados outros que, considerando as 
características e a potencialidade do meio esco-
lhido para o estudo, conferirão sua pertinência e 
sua originalidade. [...]
O trabalho de campo
Uma das etapas fundamentais dos Estudos do 
Meio é o trabalho de campo. É preciso, entretanto, 
para evitar mal entendidos, que façamos alguns 
comentários a respeito. A ideia de ir a campo ape-
nas como ‘necessidade de sair da sala de aula’ é um 
pouco perigosa. Pode, seguramente, esvaziar as 
potencialidades educativas dessa atividade como 
método de ensino e subestimar, obviamente, os 
momentos de aprendizagem realizados na sala de 
aula. Assim, as práticas de campo em um Estudo 
do Meio não devem ser caracterizadas como uma 
ocasião de ruptura do processo ensino-aprendiza-
gem. Ao contrário, fazem parte dele, são momentos 
especiais, sem dúvida, mas que não se sustentam 
isoladamente. Não se desconsidera, evidentemente, 
a dimensão lúdica de uma saída de campo em um 
Estudo do Meio. O que queremos evitar é a sedi-
mentação de estereótipos da sala de aula, ‘natural-
mente chata’ sendo preciso ‘retirar’ os estudantes 
para ‘passear de vez em quando’ noutro lugar. 
A pesquisa de campo é reveladora da vida, ou 
seja, por meio dela pretende-se conhecer mais 
sistematicamente a maneira como os homens e 
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as mulheres de um determinado espaço e tempo 
organizam sua existência, compreender suas 
necessidades, seus desejos, suas lutas com vitórias 
e fracassos. Assim, durante o trabalho de campo, 
educadores e educandos devem submergir no 
cotidiano do espaço a ser pesquisado, buscando 
estabelecer um rico diálogo com o espaço e, na 
condição de pesquisadores, com eles mesmos. É 
o momento de descobrir que o meio ou o espaço, 
na inter-relação de processos naturais e sociais, é 
uma Geografia viva (Pontuschka, 2006). Todavia, 
travar diálogos com o espaço pressupõe o domínio 
de conceitos e linguagens diversas de muitas disci-
plinas. O Estudo do Meio não prescinde, portanto, 
das características ou identidade das diversas dis-
ciplinas. São elas que, de fato, permitem com-
preender mais profundamente a dimensão social 
da organização do espaço e, ao mesmo tempo, 
da influência que essa organização exerce sobre 
a vida dos homens e mulheres que nele vivem. 
Compreendendo o meio como uma ‘Geografia 
viva’, é preciso ir a campo   
[...] sem pré-julgamentos ou preconceitos: 
liberar o olhar, o cheirar, o ouvir, o tatear, 
o degustar. Enfim, liberar o sentir mecani-
zado pela vida em sociedade, para a leitura 
afetiva que se realiza em dois movimentos 
contrários – negar a alienação, o esquema a 
rotina, o sistema, o preconceito – e afirmar 
o afeto da comunidade e da personalidade 
(Pontuschka, 2006, p. 12). 
Ao romper as fronteiras dos territórios institu-
cionalizados de aprendizagem – a sala de aula e a 
escola –, a pesquisa de campo permite a ampliação 
desse território levando, ao mesmo tempo, ‘a sala 
de aula e a escola’ para o mundo – um lugar ou 
situação mais específica ou particular deste mundo 
para ser pesquisado e estudado –, e o mundo – mais 
real ou concreto –, para dentro da sala de aula e da 
escola. Trata-se, portanto, de uma oportunidade, 
como afirma Thompson (1998) falando mais espe-
cificamente do trabalho de campo na realização da 
História Oral, de gerar ocasiões de aprendizagem 
para além de seus tradicionais abrigos institucionais.   
[...] 
A sistematização dos dados coletados  
na pesquisa/trabalho de campo 
O Estudo do Meio não se encerra com o traba-
lho de campo. Considerando as características dos 
sujeitos envolvidos e as possibilidades e os limites 
materiais oferecidas pela escola,  
A partir dele se inicia um processo de siste-
matização, extremamente cuidadoso, de todo 
o material obtido e registrado nos desenhos
nas fotografias, nos poemas, nas anotações, 
no falar dos moradores. Os múltiplos saberes, 
agora enriquecidos pelas várias experiências e 
saberes conquistados no campo, se encontram 
na sala de aula (Pontuschka, 2004b p. 13). 
Desta forma, no primeiro contato entre os partici-
pantes do Estudo do Meio, conduz-se uma exposição 
livre das sensações experimentadas perguntando-se 
ao grupo os fatos que foram mais importantes ou 
significativos para cada pessoa. Neste compartilhar 
de sentimentos e ideias, a subjetividade presente nas 
impressões mais pessoais de cada um, nos registros 
escritos e nos desenhos se enriquece e, na inter-
-relação com outras subjetividades, surgem novos 
sentidos, novas compreensões. A visão fragmentária 
perde força e inicia-se um processo de síntese no 
qual os envolvidos no trabalho se descobrem como 
seres interdisciplinares (Freire, 2000).   
O momento seguinte é o da construção do 
conhecimento, ou seja, da análise do material cole-
tado na pesquisa de campo, de pensar coletivamente 
o que revela o conjunto dos registros. Começam a 
aparecer os nexos, os significados, as contradições 
e aspectos relevantes, mas talvez pouco conhecidos 
da história do lugar estudado, que ganham visibili-
dade. Que eixos temáticos afloram? Como tudo isso 
se insere ou pode ser inserido no currículo? Que 
material podemos construir? O resultado pode ser 
um vídeo-documentário, um ensaio fotográfico, um 
mural, um teatro, um artigo, ou materiais didáticos 
mais específicos que, posteriormente, devem ser 
adequadamente socializados, compartilhados. 
Avaliação e divulgação dos resultados 
Como todo trabalho educativo, a avaliação per-
mite aos seus participantes apreciar os resultados, 
aprimorar os processos e, sempre que necessário, 
redefinir seus objetivos. É importante, também, 
que na medida do possível, a equipe responsável 
possa divulgar seus resultados. Deve haver, opor-
tunamente, a preocupação ética e política de comu-
nicar às comunidades, aos homens e mulheres que 
residem nos lugares estudados e pesquisados, os 
resultados dessa atividade, pois estes, como afirma 
Yves Lacoste (2006, p. 78) fazendo referência ao 
trabalho de campo desenvolvido pelos geógrafos, 
“conferem poder a quem os detém”. Assim, os 
possíveis benefícios produzidos pela realização dos 
Estudos do Meio podem extrapolar as fronteiras da 
escola que o organizou. 
LOPES, Claudivan S.; PONTUSCHKA, Nídia N. Estudo do meio: teoria e prática. Em: 


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