Teogonia a origem dos Deuses



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appeal.  Como assinala Clémence Ramnoux
1
, "os gregos conheciam três 
maneiras de se impor: pela violência (bía),  pela persuasão (peithó)  e pela 
sedução". Esta última é função das Khárites,  Graças, sequazes-irmãs das 
Musas, e a estreita conexão entre ambos os grupos se revela também na 
homonímia 
(Thalía-Thalía) 
e proximidade onomástica (Eutérpe-
Euphrosynè) entre indivíduos de um e outro grupo. 
1)  La nuit et les enfants de la nuit. Paris, Flammarion, 1959, pp. 70-1.'Em verdade C. Ramnoux 
omite, nessa enumeração, a mais importante dessas maneiras: a mêtis,  que é amplamente estudada por 
Vernant e Detienne no belíssimo livro Les ruses de 1'intelligence. La mètis des Grecs. Paris, Flammarion, 
1974.
 
 
Na procissão para o Olimpo, em que cantam a realeza paterna, as Musas 
desempenham a função decorrente da natureza de sua mãe, Memória (vv. 
68-75), assim como na subseqüente descrição de sua habitual atividade de 
patrocínio dos reis (vv. 80-93) elas se mostram na função herdada do ser de 
seu pai, Zeus soberano. No cortejo em que tão logo nascem vão ao Olimpo, 
as Musas dançam e cantam o poderio de Zeus, suas armas (o trovão e o raio), 
a vitória sobre seus predecessores pela qual conquista o poder, e a perfectiva 
ordenação do mundo e (re-)distribuição de honrarias que Zeus levou a cabo 
ao assumir a soberania. Este tema de seus cantos e de sua dança coincide 
com o próprio tema da Teogonia: o poder e a ordem de Zeus, e a luta feroz 
pela qual se impõem. O canto das Musas com que Zeus se compraz no 
Olimpo coincide com a canção que Hesíodo compõe e canta inspirado pelas 
mesmas Musas: a Divindade se dá na canção.
 


Curiosamente, Hesíodo diz que "isto elas cantavam tendo o palácio 
olímpio"  (v. 75). Vimos já que o verbo grego ter (ékho)  conserva a dupla 
acepção de habitar  e de manter.  As Musas têm  por habitação o palácio 
olímpio e elas o mantêm pela força do canto. É porque elas o cantam que ele 
se dá entre os homens como sublime Presença. Mantendo o palácio olímpio 
em seu canto, elas o mantêm como presentificação da ordem
 
e do poder de 
Zeus, — elas revelam esta ordem e poder de Zeus, i.e., elas o fazem 
ingressar no reino luminoso do ser, do não-esquecimento. Mas a ordem e o 
poder de Zeus são, para Hesíodo, o próprio mundo, a suprema e máxima 
realidade. Como as Musas podem fazê-lo ingressar no reino do Ser, se o 
reino do Ser não é senão essa ordem e poder de Zeus? — Eis um outro 
aspecto da complexão de linguagem, tempo e ser. — Todo o dilema se 
dissolve se substituirmos a ordem predominantemente causai em que 
estamos habituados a pensar a conexão entre os fatos por uma ordem de 
concomitância, sem qualquer determinação causai: a ordem e o poder de 
Zeus, que por si mesmos é a realidade suprema, e o Canto, pela natureza da 
força que lhe é própria, fazem-nos ingressar no reino do Ser, o qual eles são 
tanto quanto o Canto é o Canto na força e natureza do Canto.
 
Em verdade, se esta voz que são as Musas é o suporte da cratofania de 
Zeus, é também uma explicitação do próprio ser de Zeus. Elas prolongam e 
exprimem o ser da Soberania Suprema na importância que elas têm para os 
reis, na medida em que elas é que fundamentam e amparam o exercício da 
realeza entre os homens.
 
Hesíodo solda o segmento em que as Musas se mostram como expressão 
do poder materno (Memória, o canto ontofânico e presentificador) ao 
segmento em que elas explicitam o ser paterno (Zeus, o exercício do poder e 
da autoridade) através de dois versos (vv. 79-80) em que se realça Kalliópe, 
a Belavoz. Kalliópe  portanto é o elo que irmana reis e cantores, — e, por 
esta intersecção entre o canto e a realeza, cujo elemento comum é a Belavoz, 
podemos ter uma noção mais clara e mais bem definida do que entendiam 
por Belo os gregos arcaicos.
 
Reis são nobres locais que guardavam fórmulas não-escritas (díkai) 
consagradas pela tradição como normativas da vida pública e social. Estes 
senhores, por seu poderio e riqueza, detinham a autoridade de dirimir litígios 
e querelas, mediante a aplicação das fórmulas corretas, i.e., itheíeisi díkeisin 
(v. 86), cujo conhecimento e conservação era privilégio deles. A palavra 


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