Teogonia a origem dos Deuses



Baixar 0.52 Mb.
Pdf preview
Página7/51
Encontro03.08.2021
Tamanho0.52 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   ...   51
(alethéa) e o Esquecimento (lesmosyne). A segunda parte (vv. 53-103) narra 
o nascimento das Musas e descreve, como decorrência deste nascimento e da 
natureza dos progenitores, os diversos aspectos e implicações do poder 
presentificante (o poder que são as Musas) e das funções desse poder. Uma 
conseqüente evocação e súplica às Musas (vv. 104-115) completa o hino-
proêmio e serve de transição ao corpo do poema.
 
A rigor, não há na Teogonia  uma  relação  entre linguagem e ser, mas 
uma  imanência recíproca entre eles. Na Teogonia  o reino do ser é o não-
esquecimento, a aparição (alethéa);  toda negação de ser vem da 
manifestação da Noite e seus filhos, entre eles o Esquecimento (léthe, 
lesmosyne). A linguagem, — que é concebida e experimentada por Hesíodo 
como uma força múltipla e numinosa que ele nomeia com o nome de Musas, 
— é filha da Memória, ou seja: deste divino Poder trazer à Presença o não-
presente, coisas passadas ou futuras. Ora, ser é dar-se como presença, como 
aparição  (alethéa),  e a aparição se dá sobretudo através das Musas, estes 
poderes divinos provenientes da Memória. O ser-aparição portanto dá-se 
através da linguagem, ou seja: por força da linguagem e na linguagem. O 
ser-aparição é o desempenho (= a função) das Musas. E o desempenho das 
Musas é ser-aparição. É na linguagem que se dá o ser-aparição — e também 
o simulacro, as mentiras (v. 27). É na linguagem que impera a aparição 
(alethéa)  — e também o esquecimento (lesmosyne  v. 55). O ser se dá na 
linguagem porque a linguagem é numinosamente a força-de-nomear. E a 
força-de-nomear repousa sempre no ser, isto é, tem sempre força de ser e de 
dar ser. Não se trata portanto de uma relação mas de uma imanência 
 
recíproca: o ser está na linguagem porque a linguagem está no ser (e 
vice-versa). Na expressão de Hesíodo: as Musas falam as aparições (e 
também os simulacros de aparições) porque (= todas as vezes que) as Musas 
se fazem presentes como força numinosa que são das palavras cantadas.
 
Enquanto experimentada como múltiplas forças numinosas, a linguagem 
é uma estrutura que encerra para o homem não só todos os eventos e todas as 
relações possíveis entre eles, mas ainda a própria consciência que o homem 
tem de si e do mundo. A consciência é o círculo absoluto que encerra todos 
os eventos e entes possíveis: o âmbito da consciência, na imediatez concreta 


do pensamento mítico, cinge o âmbito do mundo. As relações entre os entes 
e a própria presença (ou ausência) de cada ente são, em cada momento e em 
cada situação, determinadas pela linguagem e — de um modo mais sensível 
— pelo nome e pela nomeação. A força de coerência da linguagem mantém 
em seus liames relacionais a coerência do mundo; a força presentificante do 
nome (ou melhor: da nomeação) é que mantém a coisa nomeada no reino do 
ser, na luz da presença, — o não-nomeado pertence ao reino do oblívio e do 
não-ser.
 
O homem arcaico sente que a força da linguagem o subjuga e que sua 
consciência se firma sobre a linguagem e é por ela dirigida. No caso de um 
cantor, que diuturnamente trabalha sua consciência das palavras e das 
estruturas lingüísticas, esta percepção do poderio avassalador e governante 
da linguagem torna-se ainda mais intensa e mais nítida. Eis então a 
experiência numinosa que constitui a epifania das Musas.
 
No caso de Hesíodo, a linguagem é por excelência o sagrado. No hino-
proêmio da Teogonia ele exprime esta piedade e veneração pelas Palavras. O 
Sagrado é a pletora de ser. A experiência do sagrado é a mais viva 
experiência do que é o mais real, e é a mais vivificante experiência de 
Realidade. A partir de sua experiência da epifania das Musas, Hesíodo se 
torna Cantor, servo das Musas, o vigia da Palavra. Espiritualmente ele passa 
a habitar nesta proximidade do mais real.
 
Mas o que aqui, no caso de Hesíodo, é o mais real, — é especificamente 
as Palavras. E as Palavras falam do que é real e do que não é real, 
apresentando-os quando e como elas querem ("se queremos..." v. 28). As 
Palavras falam tudo,  elas apresentam o mundo. Sendo as Palavras por 
excelência o mais real e consistindo o poder delas especificamente num 
poder de presentificação, nas Palavras é que reside o ser.
 
Esta imbricação recíproca de linguagem e ser não é senão a recíproca 
imbricação de linguagem e poder. As Musas têm e mantêm o domínio do ser 
enquanto poderes que são provenientes de Memória. Enquanto filhas de 
Memória é que as Musas fazem revelações (alethéa)  ou impõem o 
esquecimento  (lesmosyne).  Este poder sobre o ser e o não-ser, este poder 
decidir entre a revelação e o esquecimento, — é em verdade a raiz originante 
de todo poder, porque este é o poder que configura o mundo e que em cada 
momento e em cada situação configura portanto todas as possibilidades de 
existência do homem no mundo assim configurado. Se na Teogonia há uma 
imanência recíproca entre linguagem e ser, esta imanência se dá pela 
recíproca imanência entre linguagem e poder — o poder de configurar o 
mundo e de decidir quais possibilidades nele se oferecerão em cada caso ao 
homem.
 


As Musas têm e mantêm o domínio da revelação (ser) e do esquecimento 
(não-ser) e este domínio é o da raiz originante de todo poder e exercício de 
poder. Na expressão mítica de Hesíodo isto se diz: as Musas são filhas de 
Memória e de Zeus.
 
Zeus é a expressão suprema do exercício de poder. Toda a cosmogonia, 
na visão de Hesíodo, converge e centra-se na assumpção da realeza universal 
por Zeus. A Teogonia  é em verdade um hino às façanhas e à excelência 
guerreiras de Zeus; nela, tudo se dispõe na convergência para esta perfectiva 
diacosmese que é a assumpção deste último e definitivo Soberano divino, 
(re-)Distribuidor de todas as honrarias e encargos e Mantenedor da ordem e 
da justiça. Zeus é a própria expressão do Poder, e toda realeza e exercício de 
poder têm sempre a sua fonte em Zeus (ek dè Diòs basilêes v. 96).
 
As Musas nascem de Zeus. Uma lei onipresente na Teogonia  é que a 
descendência é sempre uma explicitação do ser próprio e profundo da 
Divindade genitora: o ser próprio dos pais se explicita e torna-se manifesto 
na natureza e atividade dos filhos.
 
Não são fortuitos, portanto, os epítetos escolhidos para sublinharem, 
nesta passagem narrativa do nascimento das Musas, a natureza de seus pais. 
Da mãe se diz medéousa  (v. 54) e do pai metíeta  (v. 56). Medéousa  indica 
sobretudo a atividade de cuidar (de), tomar conta de, donde a acepção de 


Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   ...   51


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal