Teogonia a origem dos Deuses



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"sabemos muitas mentiras dizer símeis aos fatos "e sabemos, se 
queremos, dar a ouvir revelações". 
(vv. 27-28) 
Dizer mentiras símeis aos fatos é furtá-los à luz da Presença, encobri-los. 
As mentiras são símeis aos fatos enquanto só os tornam manifestos como 
manifestação do que os encobre. As mentiras são símeis (= homoia) aos fatos 
enquanto se dissimula a unidade que, por estar na raiz da similitude, une 
simultaneamente em um só lugar o símil e o ser-mesmo. Símil (lat. similis) 
o grego homoia  têm a mesma raiz etimológica, que indica como idéia 
fundamental da similitude a unidade
4
. Por meio também desta raiz podemos 
apreender e pensar a similitude que une as mentiras e os fatos, unidade-
similitude em que a mentira e o ser-mesmo se dão como símeis. Ao dar-se 
como símil, o ser-mesmo se dissimula pela simulação desta similitude que, 
na força do assemelhar e do simular, apresenta-o como simulacro (a mentira 
símil). O Símil mesmo é já Outro ao dar-se como símil, pois aí o ser-mesmo 
se oculta sob a similitude que o une ao Outro. Assim, na unidade desta 
similitude, estão unidos as mentiras e os fatos, pois os fatos, enquanto 
símeis, ocultam-se eles mesmos sob a similitude com outra coisa, — 
subtraindo-se enquanto ipseidade. 
4) Boisaq, Émile. Dictionnaire étymologique de Ia Langue Grecque. 2" ed. Heidelberg-Paris,
 
 
Winter-Klincksieck, 1923, pp. 230-l(/im) e 701-2 (hómoios/homós).
 
 
E se a presença de um Deus vige e impõe-se essencialmente como 
ipseidade (i.e., como Ele-Mesmo), o encobrir-se da ipseidade por sob a 
similitude faz com que a própria Presença se esconda e se subtraia sob o 
simulacro verbal de mentiras símeis. 
A similitude com que os fatos se dissimulam e se ocultam sob a 
simulação das mentiras símeis é a própria força da ocultação. E esta força 
não é outra senão as Musas, i.e., apropria força da desocultação, 
presentificação. 
Como desocultação é que os gregos antigos tiveram a experiência 


fundamental da Verdade. A palavra grega alétheia,  que a nomeia, indica-a 
como  não-esquecimento,  no sentido em que eles experimentaram o 
Esquecimento  não como um fato psicológico, mas como uma força 
numinosa de ocultação, de encobrimento. Desde as reflexões de Martin 
Heidegger
5
 estamos afeitos a traduzir alétheia por re-velação (como fiz no v. 
28),  des-ocultação,  ou ainda, não-esquecimento.  Isto porque a experiência 
que originariamente os gregos tiveram da Verdade é radicalmente distinta e 
diversa da noção comum hodierna que esta nossa palavra verdade veicula. 
5) Cf., por exemplo, "Alétheia" em Os Pré-Socráticos (seleção de textos e supervisão do Prof.
 
José Cavalcante de Souza). São Paulo, Abril Cultural, 1973, p. 129-42.
 
 
As mentiras símeis aos fatos opõem-se, portanto, às revelações — como 
a força da simulação ocultadora se opõe à da presença manifesta — e são, no 
entanto, uma só e mesma força. Para bem compreendermos o sentido dos 
versos 27-28, em que as Musas indicam que saber constituem, devemos 
evitar a mera contraposição de verdade e mentira e ainda mais evitar 
entender verdade e mentira como adequação (ou não) do intelecto à coisa ou 
como a confirmação (ou não) que a verificação empírica traz ao que a 
palavra afirma. As revelações que as Musas, se querem, sabem dar a ouvir 
são des-velações, o retirar-se seres e fatos do reino noturno (i.e., me-ôntico) 
do Esquecimento e fundá-los como manifestação e Presença. 
O que passa despercebido, o que está oculto, o não-presente, é o que 
resvalou já na reino do Esquecimento e do Não-Ser. O que se mostra à luz, o 
que brilha ao ser nomeado, o não-ausente, é o que Memória recolhe na força 
da belíssima voz que são as Musas. No entanto, Memória gerou as Musas 
também como esquecimento ("para oblívio de males e pausa de aflições", v. 
55) e, força numinosa que são, as Musas tornam o ser-nome presente ou 
impõem-lhe a ausência, manifestam o ser-mesmo como lúcida presença ou o 
encobrem com o véu da similitude, presentificam os Deuses configuradores 
da Vida e nomeiam a Noite negra. O próprio ser das Musas geradas e 
nascidas da Memória as constitui como força de esquecimento e de 
memória, com o poder entre presença e ausência, entre a luz da nomeação e 
a noite do oblívio. Porque as Musas são o Canto e o Canto é a Presença 
como a numinosa força da parusia: este é o reino da Memória, Deusa de 
antigüidade venerável, que surge da proximidade das Origens 
Mundificantes, nascida do Céu e da Terra (v. 135). 
O que as Musas fazem, quando assim falam (vv. 26-8), é, tanto quanto a 
fala, explicitação da natureza delas: 


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