Teogonia a origem dos Deuses



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polis,  o alfabeto e a moeda. No entanto, a poesia de Hesíodo é anterior ao 
florescimento dessas três invenções catastróficas e, ainda que já tenha sido 
escrita ao ser composta, toda ela se orienta e vigora dentro das dimensões 
anteriores às condições paulatinamente trazidas por essas três. A polis e a 
moeda estão ausentes ou só pressentidas no poema a que, por sua 
envergadura social, agrícola e mercantil, mais elas interessariam:  Os 
trabalhos e os dias. E o uso do alfabeto e suas conseqüências (cujo caráter 
deletério para a Memória Sócrates acusa no Fedro)  estão ausentes e 
afastados da concepção de poesia que é exposta na Teogonia  (no hino às 
Musas, versos 1 a 115) e que subjacentemente fundamenta tanto a 
elaboração como a devida fruição do poema.
 
A marca da oralidade não está somente nas características exteriores e 
formais da Teogonia, a saber:
 
1)  nas fórmulas e frases pré-fabricadas que, combinando-se como 
mosaicos, vão compondo os versos em seqüências salpicadas por palavras e 
expressões inevitavelmente retornantes;
 


2) na justaposição com que as seqüências narrativas se associam sem que 
nenhuma delas se centralize articulando em torno de si as outras, mas antes 
tendo cada seqüência narrativa um igual valor na sintaxe da narração total e 
podendo portanto sempre e ao arbítrio do poeta articular-se a um número 
quase indefinido de novas seqüências;
 
3) nos catálogos (listas de nomes próprios) que se oferecem como um 
espetacular jogo mnemônico, que só a habilidade do poeta redime do 
gratuito e lhe confere uma função motivada e significativa dentro do 
contexto do poema.
 
A marca da oralidade está também na própria concepção de linguagem 
poética que Hesíodo tem e expõe nos prologais 115 versos do hino às Musas, 
e sobretudo no uso que ele faz desta linguagem e na plena certeza que ele 
tem do poder de presentificação de seu canto.
 
Nesta comunidade agrícola e pastoril anterior à constituição da polis e à 
adoção do alfabeto, o aedo (i.e., o poeta-cantor) representa o máximo poder 
da tecnologia de comunicação. Toda a visão de mundo e consciência de sua 
própria história (sagrada e/ou exemplar) é, para este grupo social, 
conservada e transmitida pelo canto do poeta. É através da audição deste 
canto que o homem comum podia romper os restritos limites de suas 
possibilidades físicas de movimento e visão, transcender suas fronteiras 
geográficas e temporais, que de outro modo permaneceriam infranqueáveis, 
e entrar em contato e contemplar figuras, fatos e mundos que pelo poder do 
canto se tornam audíveis, visíveis e presentes. O poeta, portanto, tem na 
palavra cantada o poder de ultrapassar e superar todos os bloqueios e 
distâncias espaciais e temporais, um poder que só lhe é conferido pela 
Memória  (Mnemosyne)  através das palavras cantadas (Musas). Fecundada 
por Zeus Pai, que no panteão hesiódico encarna a Justiça e a Soberania 
supremas, a Memória gera e dá à luz as Palavras Cantadas, que na língua de 
Hesíodo se dizem Musas. Portanto, o canto (as Musas) é nascido da 
Memória (num sentido psicológico, inclusive) e do mais alto exercício do 
Poder (num sentido político, inclusive). O aedo (Hesíodo) se põe ao lado e 
por vezes acima dos basileîs  (reis), nobres locais que detinham o poder de 
conservar e interpretar as fórmulas pré-jurídicas não-escritas e administrar a 
justiça entre querelantes e que encarnavam a autoridade mais alta entre os 
homens. Esta extrema importância que se confere ao poeta e à poesia 
repousa em parte no fato de o poeta ser, dentro das perspectivas de uma 
cultura oral, um cultor da Memória (no sentido religioso e no da eficiência 
prática), e em parte no imenso poder que os povos ágrafos sentem na força 
da palavra e que a adoção do alfabeto solapou até quase destruir. Este poder 
da força da palavra se instaura por uma relação quase mágica entre o nome e 


a coisa nomeada, pela qual o nome traz consigo, uma vez pronunciado, a 
presença da própria coisa. Nascida antes que o veneno do alfabeto 
entorpecesse a Memória, a poesia de Hesíodo é também anterior à 
elaboração da prosa em seus vários registros e à diversificação da 
experiência poética em seus característicos gêneros. O aedo canta sem que 
ao exercício de seu canto se contraponha outra modalidade artística do uso 
da palavra. Seus versos hexâmetros nascem num fluxo contínuo, como a 
única forma própria para a palavra mostrar-se em toda a sua plenitude e 
força ontofânicas, como a mais alta revelação da vida, dos Deuses, do 
mundo e dos seres. De nenhum outro modo a palavra libera toda a sua força, 
nenhuma outra forma poética se põe como alternativa à em que o canto se 
configura.
 
Só quase um século depois de Hesíodo surge, com Arquíloco de Paros, a 
poesia lírica que, tematizando o aqui e agora, os sentimentos, atitudes e 
valores individuais do poeta, constitui-se com os seus metros vários um novo 
gênero, uma nova gênese, uma nova forma de manifestação da palavra, 
nascida e própria das novas condições trazidas pela polis,  pela reforma 
hoplítica, pelo uso do alfabeto. Ao mesmo tempo e solidariamente ao 
nascimento da lírica, os primeiros pensadores jônicos e os logógrafos 
(autores de registros de fundações de cidades-colônias e de genealogias da 
nobreza) começam a elaboração da prosa; a língua grega começa a adquirir 
palavras abstratas (sobretudo pela substantivação de adjetivos no neutro 
singular); e o pensamento racional começa a abrir novas perspectivas a partir 
das quais imporá novas exigências. Com os pensadores a linguagem põe-se a 
caminho de tornar-se abstrato-conceitual, racional, hipotática e desencarnada 
(na perfeição do processo, o nome se torna um signo convencionado para a 
coisa nomeada, cf. Crátilo  de Platão). Com os poetas líricos a linguagem 
perscruta a realidade do indivíduo humano, examina seus sentimentos, 
valores e motivações, até começar a transmutá-los e transportá-los, de forças 
divinas e cósmicas que eram (v.g. Êros, Éris, Aidós, Apáte, Áte, Lyssa, etc.) 
para um interiorizado páthos  humano (amor, rivalidade, pudor, engano, 
loucura, furor, etc.). 
Poetas líricos e pensadores colaboram inicialmente (séculos VII e VI) na 
grande tarefa de elaborar uma linguagem abstrato-conceitual e apta como 
instrumento de análise tanto do cosmos como da realidade humana; e em 
verdade nos pródomos deste processo multi-secular de transformação da 
linguagem em instrumento está Hesíodo. A tentativa globalizadora de 
sinopse dos mitos com a qual a Teogonia  se esforça por organizá-los em 
torno da figura e da soberania de Zeus é de fato o primeiro (ou um dos 
primeiros) alvor da atividade unificante, totalizante e subordinante do 


pensamento racional. Perseguir a totalidade unificada, o Todo-Uno (Pân 
Hén), é a aspiração extrema do pensamento racional e da prosa, que um ao 
outro se elaboram e se trabalham, a partir das novas condições oferecidas 
pelo alfabeto para se aprisionar as palavras pela arte da escrita, despojá-las 
paulatinamente de seu poder encantatório e de sua magia musical e 
imagética, despojá-las do domínio que exercem numinosamente sobre o 
homem e domesticá-las no cativeiro da escritura e torná-las instrumento 
seco, fixo e preciso. Em Hesíodo as palavras são forças divinas, Deusas 
nascidas de Zeus e Memória (as Musas), mas Hesíodo já ouve o apelo do 
Todo-Uno e é claramente perceptível na Teogonia  a tendência de toda a 
polimorfa realidade e os múltiplos âmbitos do Divino convergirem 
subordinados à realeza de Zeus Pai dos homens e dos Deuses. A luta de Zeus 
pelo poder e a manutenção do poder por Zeus é à uma o ápice e o centro da 
visão do mundo apresentada na Teogonia;  — isso e ainda ser a Teogonia 
uma sinopse não só de mitos de diversas procedências mas uma sinopse do 
próprio processo cosmogônico e mundificante mostram que neste canto 
arcaico pulsa já o primeiro impulso do pensamento racional. 
Em Os trabalhos e os dias Hesíodo tematiza o seu aqui e agora — o que 
é a radical descoberta e invenção dos líricos gregos. E se por um lado, como 
vimos, a Teogonia  se liga a uma ulterior corrente da Época Arcaica, a do 
pensamento com o qual a Razão se manifestou através da elaboração do 
discurso em prosa, — por outro lado também se liga a certas práticas 
inauguradas pela poesia lírica: Hesíodo se nomeia a si mesmo no seu canto 
sobre o nascimento dos Deuses (v. 22) e dá, nos seus dois principais poemas 
supérstites, a respeito de sua própria vida todas as notícias de que hoje 
dispomos sobre ela com maior segurança (Trabalhos,  vv. 27-41, 631-40, 
650-62; Teogonia, 23-34). 
Assim é arcaica a poesia hesiódica: ligada formalmente à épica homérica 
(hexâmetros, estilo próprio à composição oral), ligada prenunciai e 
prefiguradoramente às duas mais importantes correntes culturais ulteriores a 
ela (a dos pensadores e a da poesia lírica), expondo uma concepção 
caracteristicamente ágrafo-oral de poesia e expondo-se rigorosamente 
segundo essa concepção. (Analisaremos adiante mais ampla e 
pormenorizadamente que concepção é esta e como o é.) 
No que concerne ao sentido historiográfico ("Época Arcaica") e ao 
sentido usual (antigo, anterior) deste adjetivo arcaico,  a poesia hesiódica 
pertence a uma outra época por tudo diversa e distante da nossa e de nossos 
hábitos, pertence a um outro mundo mental, para nós sem interesse porque 
com nenhum ou só escassos pontos de contato com o nosso próprio mundo 
mental. E se fosse apenas pelos dois primeiros sentidos do arcaico, a leitura 


da Teogonia seria deveras estudiosa e trabalhosa, do interesse e competência 
apenas da pesquisa erudita e acadêmica. Mas não é nada disso, porque não é 
só arcaica nesses dois sentidos. A leitura da Teogonia ultrapassa e extrapola 
o interesse da mera erudição acadêmica, porque o mundo que este poema 
arcaico põe à luz, e no qual ele próprio vive, está vivo de um modo 
permanente e — enquanto formos homens — imortal. Um mundo mágico, 
mítico, arquetípico e divino, que beira o Espanto e o Horror, que permite a 
experiência do Sublime e do Terrível, e ao qual o nosso próprio mundo 
mental e a nossa própria vida estão umbilicalmente ligados. Porque também 
num sentido etimológico a poesia hesiódica é arcaica. 
Durante milênios, anteriores à adoção e difusão da escrita, a poesia foi 
oral e foi o centro e o eixo da vida espiritual dos povos, da gente que —  
reunida em torno do poeta numa cerimônia ao mesmo tempo religiosa, 
festiva e mágica — a ouvia. Então, a palavra tinha o poder de tornar 
presentes os fatos passados e os fatos futuros (Teogonia,  vv. 32 e 38), de 
restaurar e renovar a vida (idem, vv. 98-103). 
Mas sobretudo a palavra cantada tinha o poder de fazer o mundo e o 
tempo retornarem à sua matriz original e ressurgirem com o vigor, perfeição 
e opulência de vida com que vieram à luz pela primeira vez. A recitação de 
cantos cosmogônicos tinha o poder de pôr os doentes que os ouvissem em 
contato com as fontes originárias da Vida e restabelecer-lhes a saúde, tal o 
poder e impacto que a força da palavra tinha sobre seus ouvintes.—Na 
solidária colaboração dos homens com a Divindade, o rei-cantor na antiga 
Babilônia devia entoar, nas festas de Ano Novo, o poema narrativo de corno 
a ordem cósmica divina e humana surgiu prevalecendo sobre as anteriores 
trevas amorfas, e por meio desta declamação do canto prover que o novo 
círculo do Ano, o novo ciclo do Mundo, tendo retornado a suas fontes 
originais, se refizessem de novo no Novo Ano.— Este poder ontopoético que 
a palavra cantada teve multimilenarmente nas culturas orais se faz presente 
na poesia de Hesíodo como um poder ontofânico. O mundo, os seres, os 
Deuses (tudo são Deuses) e a vida aos homens surgem no canto das Musas 
no Olimpo, canto divino que coincide com o próprio canto do pastor 
Hesíodo, a mostrar como surgiu e a fazer surgir o mundo, os seres, os 
Deuses e a vida aos homens. Este poder ontofânico da palavra perdura ainda 
hoje em nossa experiência poética e em nossa experiência bem mais vulgar 
de temor a certas palavras aziagas. Desde sempre e ainda hoje — e creio que 
assim será sempre — o maior encanto da poesia reside no seu poder de 
instaurar uma realidade própria a ela, de iluminar um mundo que sem ela 
não existiria. Para Hesíodo, este mundo instaurado pela poesia é o próprio 
mundo; — por isso certos Deuses monstruosos e terríveis não devem ser 


nomeados, são não-nomeáveis (ouk onomastoí, Teog. v. 148), é o domínio 
do nefando, o que não deve ser dito (oútiphateión, idem v. 310). Em Hesíodo 
as palavras cantadas não são uma constelação de signos abstratos e vazios, 
mas forças divinas nascidas de Zeus Pai e da Memória, que sabiamente 
fazem o mundo, os Deuses e os fatos esplenderem na luz da Presença, e 
implantam, na vida dos homens, um sentido que, com o vigor do eterno, 
centra-a e ultrapassa-a. 
Neste sentido de que nela está total e vigorosamente encarnado o que é a 
maior força de encantamento da poesia ainda hoje e multimilenarmente, a 
poesia hesiódica é arcaica,  — porque nela mais plena e claramente se 
manifesta a arkhé da poesia: o seu poder ontofânico. 


 
III 
MUSAS E SER 
 
A primeira palavra que se pronuncia neste canto sobre o nascimento dos 
Deuses e do mundo é Musas, no genitivo plural. Por que esta palavra e não 
outra? Dentro da perspectiva da experiência arcaica da linguagem, por outra 
palavra qualquer o canto não poderia começar, não poderia se fazer canto, 
ter a força de trazer consigo os seres e os âmbitos em que são. É preciso que 
primeiro o nome das Musas se pronuncie e as Musas se apresentem como a 
numinosa força que são das palavras cantadas, para que o canto se dê em seu 
encanto. Pois dentro desta perspectiva arcaica, o nome das Musas são as 
Musas e as Musas são o Canto em seu encanto. O nome das Musas é o 
próprio ser das Musas, porque as Musas se pronunciam quando o nome delas 
se apresenta em seu ser, porque quando as Musas se apresentam em seu ser, 
o ser-nome delas se pronuncia. 
Elas são o princípio do canto, tanto no sentido inaugural como no 
dirigente-constitutivo (da arkhé).  A exortação "pelas Musas comecemos a 
cantar" diz também que tenhamos nelas o princípio por que nos deixar guiar 
e exprime ainda a vontade de que seja pela força delas que se cante. Não é 
nem a voz nem a habilidade humana do cantor que imprimirá sentido e 
força, direção e presença ao canto, mas é a própria força e presença das 
Musas que gera e dirige o nosso canto
1
. — Assim o canto irrompe e se 
manifesta, a partir do nome que o nomeia em sua força numinosa, e os 
versos que seguem ao verso inicial são desdobramentos e explicitações do 
que neste nome (Mousáon = Pelas Musas) se diz no início e como o 
Princípio: o pronome Elas  (vv. 2 e 22), a indicar sempre este nome-ser do 
Canto, retoma-o como sujeito das cláusulas descritivas e narrativas das 
atividades habituais deste Canto (i.e., das Musas) que pelo nome numinoso 
se evoca e se faz presente.
 
1) O genitivo-ablativo Mousáon  ("Pelas Musas") e o subjuntivo médio-passivo arkliómetha 
("comecemos"/"sejamos dirigidos") têm um nuanceamento semântico maior do que o podem suportar as 
palavras portuguesas de nossa tradução e mesmo maior do que o podem suspeitar os nossos hábitos 
lógico-analíticos. A distinção entre o sentido próprio à voz média ("comecemos") e o próprio à passiva 
("sejamos dirigidos") aqui neste verso principiai é muito menor do que o nosso rigor analítico apreciaria 
ver; a noção de arkhé  contida no verbo arkliómetha  reúne numa unidade indiscernível o sentido de 
princípio-começo e o de princípio-poder-império. 
 
"Elas têm grande e divino o monte Hélicon." O verbo grego ékhousin 
("têm") conserva a dupla acepção de ter-ocupar-habitar e a de ter-manter-
suster
2
. Como as Deusas o têm por habitação, elas o mantêm na grandeza e 


sacralidade em que ele se mostra. É pela presença delas que ele, o Hélicon, 
se dá em sua presença imponente e sagrada. Mantendo o Hélicon como sua 
habitação, elas o mantêm como uma hierofania — como mantêm no encanto 
do canto o poder de presentificar o que sem elas é ausente. 
2) Não nos esqueçamos de que habitare  ("habitar") é um freqüentativo de habere  ("ter"), que 
também conserva em latim essa dupla acepção.
 
 
Presentes, as Musas são um poder de presença e de presentificação. Isto 
é o que se vai mostrando em inúmeros momentos e de vários modos neste 
hino que abre a Teogonia e neste canto teogônico assim aberto.
 
A dança em volta da fonte (vv. 3-4) é uma prática de magia simpatética 
com que o pensamento mítico analógico crê garantir a perenidade do fluxo 
da fonte. O círculo ininterrupto, que a dança constitui, comunicaria por 
contágio o seu caráter de renovação constante e de inesgotável infinitude ao 
fluxo da água, preservando-o e fortalecendo-o. Nestes dois versos 
justapostos (3-4), as Musas dançam em torno da fonte violácea e do altar do 
fortíssimo Zeus. Como centros criados pela circunferência da dança, a fonte 
e o altar se equivalem. E todo o contexto deste Proêmio mostrará que, como 
a fonte é fortalecida e mantida pela dança, o altar do bem forte filho de 
Crono (i.e., a presença da própria força de Zeus) é mantido pelo canto e 
dança das Musas. O fluxo recebe da dança a sua força, e o altar de Zeus, 
força suprema, também a recebe da voz e da dança das Musas. Um verbo 
como  mélpomai  (= "cantar-dançar"), donde o nome Melpoméne  para uma 
delas, indica o quanto eram sentidos pelos gregos antigos como uma unidade 
os atos de cantar e dançar, a voz e o gesto. — Voz e gestos que, executados 
pelas Musas, tornam aqui presente a Força de Zeus entre os homens.
 
A seqüência dos versos 5-21 descreve as Deusas ambiguamente
 
com os 
hábitos das mortais gregas e à uma como potestades ontofânicas que são. 
Banham-se antes de formarem os coros, como as gregas cuidadosas de se 
mostrarem mais belas no espetáculo; banham-se nos córregos e fontes e 
dançam sobre os cimos das montanhas, como se ninfas desses lugares. Mas 
elas são sobretudo a belíssima voz que brilha no negror da noite (do Não-
Ser). "Ocultas por muita névoa" é fórmula épica para indicar a invisibilidade: 
as Musas, invisíveis, manifestam-se unicamente como o canto e o som de 
dança a esplender dentro da noite. A procissão noturna, invisível, de 
cantoras-dançarinas faz surgir por suas vozes os Deuses da "atual" fase 
cósmica e os das duas "anteriores", como se neste catálogo (vv. 11-21) se 
desse uma teogonia "ascendente"
3
, a remontar dos Deuses "atuais", Zeus, 
Hera, Apoio, às Divindades de gerações "anteriores", até as forças 
originárias donde tudo saiu à luz: "a Terra, o grande Oceano, a Noite negra". 


A irrupção da voz, impondo-se à Noite negra, traz consigo os Deuses 
senhores de cada fase cósmica, a ordem cósmica que estes Deuses 
determinam e em si mesmos são, e traz ainda consigo a própria noite 
circundante dentro de que as Musas surgem como belíssima voz e fazem 
surgir múltiplo o cosmo divino. Fecham este catálogo a Noite negra 
(expressão do Não-Ser, filha do Kháos,  a noite circunstante e a solitária 
geradora de todas as forças que marcam pela privação e não-ser a vida do 
homem) e a referência à sagrada geração (= ser) dos outros imortais sempre 
vivos. Assim, enantiologicamente, as potências ontofânicas (Musas) situam-
se no meio da potência do não-ser e da privação (Noite) e mais: trazem junto 
à sua plenitude configuradora da Ordem e da Vida esta Força originária da 
Negação. 
3) Cf. Méautis, George. "Le prologue a la Théogonie d'Hésiode" In: Revue des Études Grecques, L 
II, 1939, pp. 573-83.
 
 
A manifestação das Musas não é apenas um esplendor e diacosmese que 
se opõem ao reino das trevas e da carência, mas sobretudo tem no 
antinômico reino da Noite o seu fundamento e, ao esplender em seu 
fundamento, dá a este mesmo reino antinômico a sua fundamentação. Nesta 
sabedoria arcaica, que encontrou em Heráclito a sua expressão mais clara (e 
mais obscura), cada contrário, ao surgir à luz da existência, traz também, por 
determinação de sua própria essência, o seu contrário. Na oposição em que 
se opõem, os opostos vigoram no mesmo vigor em que um contra o outro os 
opõe a unidade que na essência deles os reúne
 
a um e outro. Assim a epifania diacosmética das Musas (filhas de Zeus 
Olímpio e da Memória) se dá nas trevas meônticas da Noite (geradora do 
sono, da morte, dos massacres e do esquecimento) e, ao nomear as gerações 
(=os seres) divinas fazendo-as presentes por força da belíssima voz, nomeia 
também a Noite, dando-lhe por fundamento o ser-nome. 
Esta tensão enantiológica aduzida pela visão aguda da unidade dos 
opostos penetra e perpassa toda a Teogonia  — e todo o Mito e Religião 
gregos. 
Na primeira epifania das Musas a Hesíodo, quando estas lhe outorgam 
com o cetro o dom do canto, outras oposições e identidades (ou, talvez, 
melhor: mesmitudes) são postas em relevo pelas palavras mesmas das 
Musas. Primeiro, as Deusas reveladoras de todos os seres e de todos os 
acontecimentos se contrapõem, enquanto plenitude de vida e de visão, à vida 
meramente gástrica de pastores cegos, sendo o que ultrapassa as suas 
possibilidades corpóreas; a estes pastores elas se revelam: "ó pastores 
agrestes, vis infâmias e ventres só" (v. 26). Esta epifania numinosa é uma 


consagração: inspiram ao pastor Hesíodo o canto que elas próprias cantam e 
o poder de torná-las presentes pelo canto ("e a elas primeiro e por último 
sempre cantar", v. 34). Depois desta epifania, o pastor agreste encarna, de 
certa forma e parcialmente, o Poder numinoso das Musas,—o qual é, em 
qualquer de seus aspectos e partes, sempre o Poder numinoso das Musas. 
As Deusas sublinham ainda a ambigüidade do Poder que são elas. A 
força de presentificação e descobrimento que põe os seres e fatos à luz da 
Presença é a mesma força de ocultação e encobrimento que os subtrai à luz e 
lhes impõe a ausência: 


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