Teogonia a origem dos Deuses


particular mundo divino, com suas experiências, seus eventos e vivências



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particular mundo divino, com suas experiências, seus eventos e vivências 
prototípicos. O nome que nomeia este Deus contém em si um mundo e é em 
potencial um outro novo Canto. Pronunciado sob a forma deste Nome de um 
Deus, ouve-se toda uma canção como um Nome nesta canção que é a 
Teogonia. Este Nome em que se condensam tantos sentidos e significações é 
um Nome intenso e que atua com intensa força sobre o ouvinte: é um Nome 
Numinoso, i.e., este Nome tem em si um Nume — é um Nome carregado de 
energia (sagrado) como é sagrado o Deus.
 
Este Nome se articula com outros Nomes como o Nume com outros 
Numes. A áspera e tensa harmonia dos Nomes na Canção é a tensa e 
agonística harmonia dos Deuses. Como um combate de Potestades e um 
combate pelo Poder é que a Teogonia diz e apresenta o Mundo. O Mundo é 
este conjunto inexprimível e inumerável de teofanias — Hesíodo confessa 
que não pode dizê-lo todo, cada homem conhece os Deuses que o 
acompanham e aos quais acompanha.
 
"De todos é difícil a um mortal dizer o nome, 
 "a cada um conhece quem habita à sua beira." 
(vv. 369-70) 
 
O Mundo é um conjunto inesgotável de Numes circunscritos por uma 
ordem  (Moîra, Anánke) que lhes atribui seus departamentos (i.e., seus 


privilégios, sua time).  O Nome é sagrado pela sacralidade do Nume 
nomeado, a força do Nome é a força do Nume, a força evocadora do Nome é 
já a Presença do Nume. Os Nomes na harmonia da Canção re-velam os 
Numes na harmonia da ordem. Esta ordem é a Fatalidade (Anánke, Moira) 
que é a Facticidade da Presença, dos factos. Os Deuses são seus privilégios, 
seus poderes (timaí)  por força de serem: a Ordem se impõe por si mesma 
através do equilíbrio (instável) a que chegam ou tendem as Forças Divinas 
no Com-bate em que se empenham, que as reúne, e de onde Elas tiram suas 
Forças para serem Forças neste mesmo Com-bate. A Ordem é esta 
configuração instável a que as Forças tendem com tanta constância por que 
só são Forças no empenho do Com-bate que as configura como Forças. Cada 
Deus vigia ciosamente (phthonerón te kai tarakhôdes, Heródoto, 1.23) o seu 
âmbito e seus privilégios (time, moîra): se um outro Deus ou homem 
transgride o seu âmbito-privilégio, isto para ele é uma diminuição de ser; se 
ele ultrapassa o seu âmbito, isto é transgredir o âmbito de um outro Deus. 
Para o transgressor, a transgressão é uma incorporação de novos privilégios 
(um aumento de ser); para esse cujo âmbito-privilégio é transgredido, uma 
perda (uma diminuição de ser).
 
O Nume está no seu Nome, o Nume está na sua re-velação, o Nume está 
no seu não-esquecimento. Ouvir o Nome é estar em Presença do Nume (to 
gàr auto noeîn estín te kai einai, "pois o mesmo é perceber e Ser", 
Parmênides, frag. 3 D.K.).
 
O Nome é o Ser, o Nume é a pletora de Ser, a experiência do Sagrado é a 
da mais forte Realidade, a da suprema Força de Ser. A Canção dos Nomes 
Numinosos é o próprio Com-bate que a uns mostra como Deuses e a outros 
faz homens. Este Com-bate dos Deuses que se revela (na) Canção é o 
próprio Mundo na sua suprema Força de Ser e de desvelar-se. A Canção é 
este desvelar-se do Mundo. A revelação em que o Mundo se dá com sua 
maior força e expansão de Ser vige e é na experiência Numinosa que é 
Cantar e Ouvir esta Canção.
 
O Canto que o aedo está cantando é o Canto que as Musas cantam para 
que o Ser se dê e para que voluptuosamente se dê a Grande Percepção 
(mégas nóos) vigilante e mundificante de Zeus no Olimpo. As Musas e o 
aedo Hesíodo se nomeiam neste mesmo Canto que cantam e é no exercício 
mesmo deste Canto que eles têm a sua mais plena manifestação de Ser: o 
Cantar, que cinge em si a Totalidade Cósmica e cujo centro é Zeus, se canta 
e se ouve a si mesmo.
 
Esta experiência arcaica do Canto é arcaica também no sentido de que é 
arquetípica. Neste sentido, o arcaico é arcaico porque nele se dá a Arkhé, 
Princípio-Fonte con-stitutivo e con-temporâneo do que é por ele con-


stituído.
 
A experiência do Nume-Nome, a experiência Numinosa da linguagem, é 
inefável e/ou nefanda. É indizível porque o nome que a de-signa não pode 
signi-ficar nada: não é um signo (= sinal) mas um nome que não é senão o 
Nume-Mesmo. Por isso a experiência Numinosa pode-se tê-la ou não, mas 
não se pode dizê-la — porque dizê-la verdadeiramente não é dizê-la, mas tê-
la: porque através dela o nome não é mais signo mas o próprio Nume. E a 
única condição para se compreender um discurso que se pretende sobre ela é 
repeti-la em si e tê-la por si própria, e nesse caso se compreenderá a própria 
experiência pessoal e não o discurso em si mesmo enquanto um discurso 
feito por uma outra pessoa.
 


 
 
 
 
 
 
 
 
TEOGONIA 
 
 
A origem dos Deuses 


 


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