Teogonia a origem dos Deuses



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óssa, épea, mythoi, khoroí, molpé (não há na Teogonia  a palavra hymnos, 
empregada contudo nos Trabalhos,  mas repete-se várias vezes o verbo 
hymnéo, "hinear"). O Deus-Oração é a Voz Múltipla e Una a vibrar em meio 
à Noite do Não-Ser que O envolve e que Ele, irrompendo por Seu próprio 
vigor, traz con-Sigo no seu ontofânico poder-nomear (cf. vv. 9-21).
 
O Mundo (Mundus - puro, con-sagrado) é o Canto das Musas, as quais 
não são senão a teo-cosmofânica função do Cantar, explicitações do Ser de 
Zeus e da Memória (e estes Zeus e Memória são explicitações do Ser 
inconcusso e primordial da Terra-Mãe, Fundamento de Tudo e de todos os 
mortais e Imortais); — e, sensuais e fecundas, infundindo a volúpia de ouvir, 
ver e Ser, as Musas são o Canto Mundificante (teogônico = cosmogônico e 
con-sagrado) Ouvido por Si Mesmo Que O Canta.
 
Teogonia hesiódica na verdade é antes um hino às Musas que um hino 
a Zeus, já que é um hino a Zeus só na medida em que o é às Musas, pois são 
as Musas que, na experiência de Hesíodo e de seus ouvintes, correspondiam 
ao mais alto Poder e à mais alta Eficiência: o Poder e a E-Ficiência da Pro-
Ducção do Mundo. Zeus tem o renhidamente conquistado poder de theôn 
patèr kaì andrôn, "pai (=  chefe soberano) dos Deuses e dos homens"; as 
Musas têm nos Encantos de seus Cantos o poder de presentificar o Mundo e 
as dimensões, entes e eventos intra- e extra-mundanos.
 
Se desta experiência numinosa da linguagem, tal como é documentada 
na  Teogonia  hesiódica, se fez uma exposição correta e claramente 
compreendida, então deve clarificar-se com um novo sentido (que o vincula 
a uma pré-figuração em Hesíodo) o hèn pánta einai do fragmento 50 D.K. de 
Heráclito, que na tradução do Prof. José Cavalcante de Souza, diz: "Não de 
mim mas do logos tendo ouvido é sábio homologar tudo é um". O Prof. 
Cavalcante (Os Pré-Socráticos, São Paulo, Abril Cultural, 1973, p. 90) faz, 
em nota acrescida a essa sua tradução, observar a relação logos-homologar 
(lógouhomo-logein)  e informa que o componente "homo-" significa 
"junto".
 


O aforisma deste fragmento 50 aponta em direção à experiência 
numinosa que está — segundo a nossa análise e entendimento — 
documentada na canção de Hesíodo. Nesta, a Fala, que se experimenta não 
como uma faculdade humana, mas como Potestades divinas filhas de Zeus e 
de Memória, é vivida e convivida como a mais intensa e irradiante pletora de 
Ser. Na concretitude arcaica que reúne e con-funde o nome e a coisa 
nomeada, a Fala presentifica com o nome a própria coisa nomeada. Esta 
Fala, filha de Zeus e Memória, enquanto canta o poder e a glória de Zeus, 
presentifica no Canto o próprio Zeus a quem esse mesmo Canto se dirige 
para dar-lhe alegria e prazer (tal como lhe dá também Ser). Zeus é o 
precípuo destinatário deste Canto tal como é também —juntamente com 
Memória — o genitor deste Canto e das Fontes deste Canto de que é 
igualmente objeto. Este Canto, que é a Fala teo-cosmo-gônica, é o mesmo 
canto do aedo a quem o poder de cantá-lo foi outorgado por uma explícita e 
"histórica" epifania desta mesma Divina Fala gerada por Zeus e geratriz de 
Zeus e do Mundo. Ao reunir e con-fundir o Ouvinte e o Agente da Dicção 
numa unidade insolúvel tal como reúne e con-funde o que é dito e a Dicção 
mesma, esta Fala
 
Divina e Ontofânica — que é a Mesma no Canto das 
Musas e no canto do aedo — faz com que os Ouvintes mortais e Imortais 
coincidam e sejam o Mesmo numa só e mesma Percepção (= Espírito) que é 
simultaneamente o Percepiente e o Percebido, Percepção de uma Fala que é 
simultaneamente a fala e a coisa dita, o emissor e o destinatário. Nessa 
Percepção, nesse mégas nóos, tudo é Um.
 
Se esta exposição é correta e claramente compreendida, esse aforisma de 
Heráclito diz: "Se ouvem não a mim, Herákleitos Blósonos Ephésios, mas à 
Fala (o que equivale, em termos hesiódicos, à Voz uníssona das Musas), é 
hábil condizer-se que Tudo é Um, i.e., há condições hábeis para se con-dizer 
(com) o que se ouve: Todos os entes e eventos é Um Só e o Mesmo — 
scilicet a Fala".
 
Essa leitura do aforisma do fragmento 50 deve ser tomada como o 
exercício de uma  interpretação  possível;  essa leitura se desvirtuaria se o 
leitor a recebesse como se a presidisse a intenção de com ela se apresentar o 
autêntico e enfim desvendado sentido desse aforisma — porque se são 
inúmeros os sentidos falseados que dele se podem apresentar, o seu autêntico 
sentido nem se diz nem se oculta, mas é novo a cada dia. (Cf. Heráclito, 
frags. 93 e 6 D.K.)
 
De mais a mais, é tão manifesta insensatez fazer coincidir e tomar como 
uma mesma coisa a experiência hesiódica da linguagem e a heraclítica, 
quanto apartá-las e supor que não têm pontos de contacto e de coincidência.
 
Essa leitura do fragmento 50 arcaíza um tanto e consciamente o aforisma 


heraclítico para evidenciar certos vínculos e uma certa continuidade que a 
Cultura Grega de século a século manteve, ainda quando a experiência do 
Discurso passava da aoidé para o lógos.
 
Na experiência Numinosa arcaica e hesiódica da linguagem, o nome do 
Nume é esse Nume em sua própria Ipseidade. O Deus, na perspectiva 
arcaica, tem como seu atributo essencial a sua Ipseidade; assim também, o 
nome de um Nume muitas vezes não signi-fica esse Nume, mas é  o Nume 
Mesmo. Este é o sentido de expressões como: ouk onomastoí, "não-
nomeáveis" referida à assombrosa figura dos três Centímanos (v. 148), e oú 
ti phateión, "algo que não se deve dizer", aplicada ao incombatível cão de 
Hades (v. 310); o nome desses seres apavorantes é nefando, e o que impede 
pronunciar o nome desses Deuses é justamente o pavor que a presença deles 
infunde ou o mal que ela traz, pois o nome é a Presença.
 
Este é o sentido das tão freqüentes antífrases que faz com que a hedionda 
Noite filha de Caos seja nomeada (ainda em Heráclito por exemplo, no frag. 
67 D.K.) Euphróne,  "a benévola". Divindades terríveis e maléficas são 
nomeadas, — quando a necessidade a isso obriga, — com antífrases 
propiciadoras ou apotropaicas, e assim as aniquiladoras Erínias  chamam-se 
também Eumênides (= Benevolentes) ou o sinistro Áxeinos Póntos (= Mar 
Inóspito), onde os naufrágios se sucediam passa a chamar-se Euxeinos  (= 
Hospitaleiro).
 
Antífrases e corruptelas motivadas pelo temor de palavras aziagas ou 
ominosas são comuns a diversas culturas e a diversas épocas. Em Hesíodo, 
esse fato ganha uma envergadura e um peso decisivos dentro do contexto da 
veneração pelas Musas, do cultivo do Canto como um dom divino. Nesse 
contexto, conforme o documentam o prologal hino às Musas e a própria 
estrutura e elementos componentes da Teogonia, o Nume é o seu Nome cuja 
Nomeação funda a Presença do próprio Nume — e, portanto, não signi-fica, 
mas é.
 
Os nomes, quer associados uns aos outros nos catálogos quer articulados 
à narração, neste poema valem por um poder ontofânico que se 
experimentava como neles vigorando. Neste sentido é que deve ter-se dado a 
percepção e a fruição deste Canto teo-cosmo-gônico quando se o cantou e se 
o ouviu pela primeira vez. Neste sentido é que têm vida e sentido os extensos 
catálogos de nomes sagrados que constituem este Canto e compõem o 
Mundo que este Canto ilumina e traz consigo.
 
 
 


EPÍLOGO
 
 
Cantar, encaixar dentro da combinação dos versos essas fórmulas que 
gerações ágrafas de aedos burilaram e joeiraram ao longo de séculos, — não 
tem só o sentido de compor um mosaico verbal com fórmulas pré-moldadas 
e fazer surgir de novo um novo e antigo canto. O Cantar, para Hesíodo, 
transcende as forças e possibilidades humanas, ele nasce nonuplamente das 
nove noites de cópulas entre Zeus Pai e Memória Rainha de Eleutera. Cantar 
é fazer surgir, segundo a ordem harmoniosa da lira (poder de Apoio), essa 
mesma ordem das linhagens divinas e a ordem mesma instituída e mantida 
por Zeus — fazer surgir pelas forças numinosas do Canto os múltiplos 
aspectos do inúmero conjunto de teofanias, benévolas e/ou malignas, 
sublimes e/ou horrendas.
 
A ordem dos Nomes no Canto é a ordem do(s) múltiplo(s) Mundo(s). 
Quando o aedo canta, no Canto vão se mostrando todos os entes e eventos 
passados, futuros e presentes.
 
Na  Teogonia,  cada Deus tem um âmbito próprio, uma constelação de 
acontecimentos que o envolve, um elenco de noções ou de lendas associadas 
a ele; cada Deus é uma dimensão divina de existência, cada Deus é um 

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