Teogonia a origem dos Deuses



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nóon,  v. 51); os vv. 71-5 mostram que isso que elas aí cantam enquanto 
mantêm na luz de seu Canto as moradas olímpicas (taut' ára Moûsai áeidon 


Olympia dómat' ékhousai, v. 75) coincide com isso mesmo que se canta na 
Teogonia de Hesíodo.
 
No Encanto do Canto—na força dessa Poesia oral arcaica—é que se 
experimenta a Mais Forte Realidade, O Que Se dá como Presença Divina. 
Essa experiência numinosa — i.e., essa experiência em que o Nume (= 
Deus) Se dá — da linguagem e particularmente do Canto é a experiência em 
que mais fortemente se vive como percepiente, com a alertada e acesa 
atenção ao que se ouve e ao que se canta. A experiência numinosa do Canto 
é a audição de palavras-seres, de palavras-presenças. A Palavra-Presença, 
i.e., a Voz múltipla e uníssona das Musas encarnada na voz do aedo, mais do 
que ouvida é percebida: é vivida e vista na arcaica concretitude em que se 
reúnem e se confundem o nome e a coisa nomeada. A percepção humana 
que percebe esse Canto iluminador da a-létheia  e presentificador da 
Presença Divina e da Totalidade Cósmica coincide com a Grande Percepção 
de Zeus no OlimpoDiòs nóon entòs Olympou (v. 51). Essa Percepção 
(mégan nóon) não constitui para o homem um ato entre outros nem uma 
faculdade de que o homem disponha entre outras tantas que ele exerce 
habitual e trivialmente, mas essa Percepção constitui um ato pelo qual o 
homem se funda e se constitui. Trata-se de uma Percepção pela qual o 
homem encontra o seu próprio Fundamento, pela qual se comunica com a 
própria Fonte de Vida e a partir da qual a existência humana se configura, 
ganha Sentido e se vivifica. Essa Percepção imprime no coração do homem 
um novo tonos,  novas forças e Sentido iluminador. Nóos,  "percepção", se 
deixa traduzir também por "espírito", porque indica a totalidade percepiente 
do espírito e da consciência; o verbo noéo,  derivado de nóos,  diz tanto 
"perceber" e "ver" como "refletir", "meditar", "ser lúcido" e "ter sentido".
 
A experiência numinosa do Canto, para quem O canta e para quem
 

ouve, é — enquanto dura essa experiência em sua Numinosidade — unio 
mystica, i.e., um momento em que o espírito dos mortais e o Espírito de Zeus 
no Olimpo coincidem e são o mesmo e a mesma Percepção, iluminados 
voluptuosamente pela Voz ontofânica das Musas a dizerem entes e eventos 
presentes, futuros e passados.
 
Nessa experiência pela qual o homem arcaico se integra numa realidade 
absoluta que se dá como Presença Divina, esse absoluto que se determina e 
se dá à experiência dos homens como Presença Divina é o Deus que canta e 
ouve — o Deus que, no centro do convívio dos homens, canta a Si Mesmo e 
à totalidade do Ser e percebe a Si Mesmo, a seus ouvintes (mortais e 
Imortais) e à totalidade do Ser como o Canto de múltiplas e uníssonas 
Musas.
 
O Deus é a Oração, a Fala que vibra no Cantar, e que na experiência 


posterior de um Heráclito, — quando já se elabora a prosa por meio da 
escrita e o Discurso começa já a cegar-se de voz e de canto mas ainda se 
nutre das fórmulas e formulações legadas pelos aedos cujo período criativo 
já é então pretérito — será nomeada Lógos. Lógos é a Fala ontodíctica e 
cosmopoética, mas já não mais cantada. Mas, para Hesíodo e seus ouvintes
o Deus-Oração nomeia-se Musas, as Potestades do Hélicon sobranceiro e 
vizinho. Antes de se tornar Lógos, cego de canto e depois também de voz na 
estratificação gráfica e bíblica que o uso do alfabeto acabou por lhe impor, o 
Deus-Oração, enquanto se dá ao con-vívio dos homens em seu numinoso 
nome de Musas, ainda em Hesíodo multiplamente se designa aoidé, audé, 


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