Teogonia a origem dos Deuses



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& força de ser. 
O fato de Kháos ter nascido primeiríssimo (prótista, v. 116) e a Terra ter 
vindo depois {épeita, v. 116) indica tão-somente que têm um valor diferente 
e uma diferente função no constituir-se de cada ser, e que o valor e a função 
de Kháos aí prepondera. Estas expressões temporais prótista épeita têm um 
sentido ontológico, e não cronológico: indicam a prioridade de Kháos sobre 
Terra e Eros, e não a anterioridade daquele a estes, — indicam que, no 
constituir-se de cada ente, o que esse ente não é ultrapassa de muito o que 
ele é. Kháos é a imagem mítica da Negação-de-Ser, cuja natureza — como 
vimos no capítulo cinco — se explicita em parte através de sua descendência 
tanto quanto em parte se esclarece através do nome Kháos que o nomeia; o 
Tártaro, seu outro nome, está no fundo, no âmago da própria Terra-
Fundamento-de-Tudo-e-de-Todos. E essa situação do Tártaro, tanto quanto 


esse prótista jungido à nomeação primeira de Kháos, indica igualmente que 
o constituir-se de cada ente funda-se na afirmação do que ele efetivamente é 
e, também e sobretudo, na negação de tudo o que ele definitivamente não é 
— e esta negação (do que não se é) é muito mais vigorosa e radical do que 
aquela afirmação (do que se é). E é ontologicamente e não cronologicamente 
que a negação {Kháos) se impõe prótista e a afirmação (Terra) se faz épeita. 
No hino a Hécate (vv. 404-53), ao exaltar os poderes e privilégios dessa 
Deusa, Hesíodo diz que 
"de quantos Deuses nasceram da Terra e do Céu  
"e receberam honra, de todos ela obteve um lote;  
"nem o Cronida a violou nem a despojou  
"do que recebeu entre os antigos Deuses Titãs,  
"e ela tem como primeiro no começo houve a partilha." 
(vv. 421-5) 
 
Portanto Hécate, no reinado de Crono, não se encontra no número dos 
"não-honrados" e "sem-prêmios" (cf. v. 395), mas, bem ao contrário, nesse 
reinado ela obtém um lote (ékhei aisan, v. 423) de quantos Titãs nascidos da 
Terra e do Céu receberam honra (timèn élakhon, v. 422). E os poderes de 
Hécate ainda se multiplicam, porque, no reinado de Zeus, ela não só 
conserva "o que recebeu dos antigos Deuses Titãs" (v. 421), mas também 
Zeus, além de honrá-la e conceder-lhe 
"esplêndidos dons, 
"ter parte na terra e no mar infecundo" 
(vv. 412-3), 
 
"afez nutriz de jovens que depois dela 
"com os olhos viram a luz da multividente Aurora. 
"Assim dês o começo é nutriz de jovens (...)". 
(vv. 450-2) 
 
Hécate só pode ter sido "nutriz de jovens" (kourotróphos)  por uma 
outorga de Zeus que lhe tem valido "dês o começo" (ex arkhês), i.e. desde o 
seu nascimento, num universo cujos eventos não se organizam segundo o 
princípio cronológico do antes-e-depois, mas segundo o princípio crato-
ontológico da força-de-ser. 
Hécate, por obra de Zeus, já nasce nutriz de jovens (v. 452); e para que 
isso assim se dê, ela deve nascer na fase cósmica do reinado de Zeus (se não, 
como Zeus poderia lhe outorgar tão honrosa função?). No entanto, consoante 
diz o v. 414, "ela também do Céu constelado partilhou a honra" — e isto 


significa que Hécate transita para a fase cósmica em que o Céu ancestral 
copula desordenada e proliferantemente com a Terra-Mãe? — Pode ser. — 
De todo modo, os vv. 421-5 supracitados indicam claramente que ela vive 
honrada e apanagiosamente na fase cósmica do reinado de Crono.
 
Se há uma sucessão das três fases cósmicas numa ordem em que 
primeiro há a do Céu primordial, depois há o kósmos de Crono e em terceiro 
a realeza de Zeus, — neste caso, Hécate remonta da última (reinado de Zeus) 
para a primeira (reinado do Céu) e instala-se na segunda (reinado de 
Crono).—O que significa que essa "sucessão" não é uma seqüência 
rigorosamente pautada pelo princípio cronológico do antes-e-depois.
 
Ou, então, Hécate — que é desde seu nascimento {ex arkhês) nutriz de 
jovens por outorga de Zeus — não nasce sob o reinado de Zeus; e, neste 
caso, a Grande Partilha (pela qual Zeus instaura e impõe a sua Ordem e a sua 
Justiça) determina e ordena fatos que, numa perspectiva cronológica pautada 
pelo antes-e-depois, deveriam dar-se antes dessa mesma Grande Partilha.—
Donde se conclui que não tem sentido nem função na Teogonia o princípio 
cronológico do antes-e-depois. De fato, segundo uma leitura da Teogonia, de 
acordo com esse princípio o cruel comportamento de Crono para com seus 
filhos é motivado por uma decisão da vontade de um Zeus ainda por nascer. 
Crono, soberano, engolia os seus filhos, tão logo nasciam,
 


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