Teogonia a origem dos Deuses



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Hesíodo - Teogonia
marcantes  atributos de Terra-Mãe, assim como a força de subjugar a todos 
os imortais e mortais é o mais marcante atributo de Éros lysimelés (Amor 
solta-membros).
 
Quanto ao espaço como um atributo decorrente das (e marcado pelas) 
qualidades próprias (da Presença) do Deus, eis um exemplo simples: Piéria é 
nome da região onde nascem as Musas, está ao norte do Olimpo, situada 
entre esse monte numinoso e o rio Haliácmon (rio esse que é filho de 


Oceano e Téthys, a Nutriz, cf. v. 341). Ser o lugar natal das Musas é o que 
antes de tudo define Piéria como lugar: — um lugar sagrado, que é  por aí 
ter-se dado o nascimento das Deusas. Não se trata de um espaço neutro em 
que pode dar-se indiferentemente este ou aquele fato, pois aí é um lugar 
numinoso, nele nascem as Musas. Neste sentido, Piéria não seria concebível 
se aí não se tivesse dado o nascimento das Musas, como não é concebível o 
não-nascimento das Musas, já que as Musas são as Musas. Porque aí nascem 
as Musas é que Piéria e Piéria, e não Piéria é Piéria e, entre outros fatos sem 
tanta importância, as Musas, aí nascem. O nascimento-natureza das Musas é 
que instaura e inaugura a Piéria sagrada pelas Musas. Do mesmo modo, 
Olimpo é a morada de Zeus e seus filhos. Sem Zeus o Olimpo não poderia 
ser o monte Olimpo.
 
A primeira interferência que se menciona de Zeus na seqüência 
expositiva das genealogias é no episódio de Estige e seus filhos (vv. 383-
403). Estige, filha de Oceano como Zeus o é de Crono, é da mesma 
"geração" divina que Zeus, no sentido de que ambos são entre si primos de 
primeiro grau e distam igualmente duas gerações do par primordial Céu-
Terra.
 
"No dia em que o Olímpio relampeante a todos  
"os imortais conclamou ao alto Olimpo 
 "e disse quem dos Deuses combatesse com ele os Titãs 
 "ele não o privaria dos prêmios e cada honra 
 "manteria como antes entre os Deuses imortais,  
"e que o não-honrado sob Crono e sem-prêmios  
"honra e prêmio alcançaria, como é justiça." 
(vv. 389-396) 
 
Nesse dia, Estige, aconselhada por Oceano, foi a primeira a apresentar-se 
ante Zeus, alinhando seus quatro filhos, Zelo, Vitória, Poder e Violência nas 
hostes de Zeus. Em retribuição,
 
"honrou-a Zeus e supremos dons lhe deu: 
 "fez dela própria o grande juramento dos Deuses 
 "e seus filhos para sempre residirem com ele.  
"Assim para todos inteiramente como prometeu  
"cumpriu, ele próprio tem grande poder e reina ". 
(vv. 399-403) 
 
Já analisamos essa passagem em outro capítulo, a propósito do princípio 
de concomitância não-causal que organiza os acontecimentos na teogonia 
hesiódica. Importa aqui ressaltar alguns aspectos e implicações do 
cumprimento por Zeus do que ele prometeu nessa conclamação.
 


Zeus não poderia deixar de cumprir, sem que deixasse de ser Zeus, sua 
promessa a todos os demais Deuses (além de Estige), — pois, para ele, 
dispensar aos aliados as honras (timaí)  prometidas não é senão impor ao 
Universo a sua  nova Ordenação, a sua  nova Partilha (a Moira  que vem de 
Zeus). Se Zeus não tivesse cumprido para todos inteiramente como 
prometeu, ele não teria grande poder nem reinaria, pois seu grande poder e 
seu reinado consistem justamente em ele ter podido cumprir o que 
prometera, i.e., impor à constituição da Totalidade Cósmica a sua Ordem e a 
sua Justiça, levando a cabo segundo o seu arbítrio a Grande Partilha.
 
Mas para que Zeus pudesse atribuir, segundo sua justiça (thémis v. 396), 
honra e prêmio (times kaì geráon, v. 396) aos que sob Crono se encontram 
(então e sempre) "não-honrados" e "sem-prêmios" (átimos... ed’ agératos, v. 
395), seria necessário que o poder de Zeus fosse contemporâneo da 
constituição (i.e., nascimento) deste e daquele Deus que se constituem em 
sua time (i.e., honra, privilégios, âmbito e ser) a partir das outorgas das timaí 
por Zeus. — Assim é, efetivamente, no caso de Estige, que lhe é da mesma 
"geração" (i.e., estão sincronizados numa contagem de gerações a partir da 
Terra-Fundamento). Mas não é assim, não há uma "sincronização" desse 
tipo, no caso dos Centímanos, dos Ciclopes, de Hécate, de Crono e de outros 
Deuses. Ou seja: Zeus tem poderes sobre a constituição (i.e., nascimento-
natureza) de Deuses "anteriores" à constituição do próprio Zeus e de seus 
poderes.
 
Isto demonstra que não é possível pensarmos a Teogonia  segundo a 
representação de uma temporalidade sucessiva, organizada pelas relações de 
anterioridade e posterioridade, seja ela do tipo linear escoativo-irreversível 
(como no Cristianismo, por exemplo) ou do tipo circular repetitivo-
reversível (como na Escola Pitagórica ou em Empédocles, por exemplo). 
Pensar a Teogonia segundo essas representações do tempo estranhas a ela é 
reduzi-la ao absurdo, e, efetivamente, modernos intérpretes e editores de 
Hesíodo se fatigam no afã de discutir a "autenticidade" hesiódica de certos 
versos, pelo único motivo de que esses versos lhes parecem "contraditórios". 
Não é que o sejam, mas é que estão sendo lidos e (des-)entendidos pela 
óptica de concepções estranhas a eles e que os deforma. Exemplo disso são 
os versos 450-3 e 465, que comentaremos a seguir.
 
Dentro do contexto do Sagrado na Teogonia, anterioridade e posteridade 
não são noções rigorosamente excludentes uma de outra. E aqui não se trata 
de uma coincidência de contrários (coincidentia oppositorum) mas sim de 
uma percepção e concepção do tempo tal que essas duas noções nem 
contrárias são entre si (aliás, nem são).
 
Cada Deus nasce e é num tempo que só tem origem e ser na origem e ser 


desse Deus que o instaura ao instaurar-se em seu ser. Não há um tempo 
único e uniforme, duração homogênea e infinita, comum a todos os Deuses e 
preexistente a eles; há tempos múltiplos e qualificados diversamente 
segundo o nascimento—natureza do Deus que o instaura. O tempo em que 
cada Deus vive faz parte dos atributos e atribuições desse Deus, exclusivo 
dele tal como quaisquer outros de seus privilégios. O tempo em que cada 
Deus vive restringe-se ao âmbito de existência desse Deus, não é anterior a 
ele nem ultrapassa as fronteiras às quais o ser e privilégios desse Deus se 
circunscreve. É um tempo qualificado e con-creto, i.e., nascido com esse 
Deus- de cujo Ser ele depende e decorre. Não há um antes ou depois que 
inter-relacione as Divindades e as hierarquize segundo uma ordenação 
temporal, porque não há um tempo único que as transcenda e possa assim 
reuni-las. 
Cada Deus, como Presença absoluta que é, instaura sua própria ordem 
temporal. E cada uma dessas ordens temporais, como o próprio âmbito de 
cada Deus, encontra suas determinações e configura-se na Grande 
Conflagração na qual Zeus se faz o Supremo Soberano e seus inimigos 
tornam-se prisioneiros. No conflito e na guerra é que se determina a extensão 
do âmbito e dos privilégios de cada um, segundo a força de ser de cada um. 
Como os Deuses são imortais, a guerra pela qual eles se configuram é 
também inextinguível definitivamente; a trégua e a ordem que se impõem ao 
respeito advêm da supremacia de Zeus, cujo espírito alerta e vigilante é 
invencível e impõe a seus adversários as condições por ele decididas (scilicet 
as Moirai que vêm de Zeus). 
Pelo fato de o tempo ser múltiplo e não único, adjetivo e não substantivo, 
a inter-relação dos Deuses não é de ordem cronológica, mas crato-onto-
lógica: os Deuses se conexionam, se organizam e se hierarquizam segundo 

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