Teogonia a origem dos Deuses



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Como Heráclito pôs em seu livrinho os aforismas de sua Sabedoria Arcaica
tentei pôr neste meu as dicas das visões que vi e da Senda que tenho trilhado e pela 
qual penso alcançar o télos de meu Destino.
 
Outros já passaram por esta Senda; por isso a novidade de tudo o que eu digo 
de novo está na força da repetição. A força do Sábio está em saber dizer o já dito 
com o mesmo vigor com que foi dito pela primeira vez.
 
Evocada ou não, contemplada ou sem templo, a Deusa Mãe está presente e nos 
nutre. As feras, ainda que tenham perdido a inocência e a natural crueldade, são 
sempre as suas crias.
 
Tão perverso como as ex-feras minhas contemporâneas, de cujo convívio não 
poderei me apartar senão quando me sentir próximo do fim de meus dias, vivo nos 
últimos anos desta Idade de Ferro preditos por Hesíodo —  e confio este meu 
livrinho aos que tiverem prazer em falar e ouvir falar dos Deuses sempre vivos, e 
aos que com Eles vivem.
 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O MUNDO COMO 
 
FUNÇÃO DE MUSA


 
 

DISCURSO SOBRE UMA CANÇÃO NUMINOSA 
 
 
 
O que se lera neste livro é um discurso sobre o nefando e sobre o 
inefável, i.e., um discurso sobre a experiência do Sagrado, um discurso sobre 
o que não deve e não pode ser dito, quer por ser motivo do mais desgraço 
horror (o Nefando), quer por ser motivo e objeto da mais sublime vivência (o 
Inefável).
 
Portanto, o trabalho aqui apresentado (con)centra-se num problema 
metodológico insolúvel, já que este trabalho se propõe a executar o 
inexeqüível, ou seja: se propõe como um discurso sobre a experiência do 
Sagrado. Se essa experiência for apreendida e compreendida (talvez fosse 
mais adequado dizer não com-preendida,  mas con-vividà)  em seu mais 
próprio sentido e vigor, — então este discurso que se propõe apresentá-la 
deve necessariamente frustrar-se enquanto discurso.
 
Um discurso que se propõe dizer com rigor a essência do que em seu 
vigor é indizível (nefando e/ou inefável) não pode cumprir-se a rigor. Se ele 
se fizer como um discurso rigoroso, ele deverá para isso falsificar a 
apresentação de seu objeto e, portanto, ele deverá, para ser rigoroso, ser 
também falso.
 
Este discurso, portanto, mais do que se resignar a seu próprio fracasso —
já que tem por escopo realizar a impossibilidade enquanto ela vigora como 
impossibilidade — deverá programar o seu próprio fracasso e deverá, na 
avaliação que fizer de sua própria eficiência e efetividade, estar atento a que 
só pode computar como êxito e consecução do objeto perseguido os seus 
momentos de fracasso, momentos nos quais não atingiu o objeto ao qual 
perseguia.
 
Mas o Sagrado (ou melhor: o Numinoso), sobre o qual este trabalho 
propõe-se constituir um discurso, é uma qualificação especial a que podem 
servir de suporte determinados objetos. Se esta qualificação especial 
constituída pelo Numinoso é que é indizível (e, por conseqüência, a especial 
qualidade da experiência humana desta qualificação constituída pelo 
Numinoso), — não é absolutamente indizível o objeto que suporta a 
qualificação de numinoso;  esse objeto pode ser dito, descrito e definido.—
Por conseguinte, além de se propor a consecução do que não se deve (porque 


não se pode) conseguir (i.e., dizer o indizível), este trabalho se propõe 
apresentar, por meio de uma descrição, determinados objetos enquanto 
suportes desta inexprimível qualificação que é o numinoso.
 
Assim, este trabalho se propõe descrever a linguagem enquanto objeto de 
uma experiência numinosa arcaica. Esta experiência da linguagem está 
profunda e inextricavelmente ligada a uma certa concepção arcaica da 
linguagem, a uma certa concepção arcaica de tempo, a uma certa concepção 
arcaica de Ser e de Verdade.
 
O objetivo a que se programa este trabalho é, além de seu próprio 
fracasso (entendido como a mais adequada medida para o seu êxito), 
descrever como foi vivida e apresentada na Teogonia hesiódica a complexão 
das concepções arcaicas de linguagem, de tempo, de Ser e de Verdade.
 
A linguagem é, neste caso, a linguagem do aedo, i.e., a canção — uma 
canção que ao mesmo tempo é veículo de uma concepção do mundo e 
suporte de uma experiência numinosa.
 


 
 
II 
OUVIR VER VIVER A CANÇÃO 
 
 
A poesia de Hesíodo é arcaica e, a meu ver, só podemos apreciá-la em 
sua plenitude e vigor se estivermos atentos ao sentido em que ela o é e às 
suas implicações. Na afirmação segundo a qual a poesia de Hesíodo é 
arcaica, devemos levar em conta o sentido historiográfico da palavra arcaico 
("Época Arcaica"), o sentido que aponta a anterioridade e a antigüidade (uma 
canção composta quando o pensamento racional começava a pré-figurar-se), 
e ainda um sentido etimológico, que envolve a idéia de arkhé,  de um 
princípio inaugural, constitutivo e dirigente de toda a experiência da palavra 
poética. Se meditarmos nessas três direções implicadas no arcaico do poema 
hesiódico, talvez nos aproximemos com maior clareza das condições em que 
esta poesia se deu pela primeira vez aos homens e possamos compreender a 
função, natureza e sentido com que então ela se fazia presente.
 
Os estudiosos designaram Arcaica  a Época em cujos umbrais Hesíodo 
viveu e compôs seus cantos. Na Grécia, os séculos VIII -VII a.C. 
testemunharam a germinação ou transplante de instituições sociais e 
culturais cujo florescimento ulterior transmutaria revolucionariamente as 
condições, fundamentos e pontos de referência da existência humana: a 


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