Teogonia a origem dos Deuses



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dómat' ékhousai, v. 75); e cantando deleitam a grande Percepção de Zeus 
dentro do Olimpo (v. 51), deleitam o Percepiente que é justamente quem e 


para quem elas cantam. (O Ser de Zeus consiste em Perceber o Cantar Que 
ele e Memória geram e Que lhes dá Ser.)
 
Se o Cantar é e coincide com o próprio Ser, e se o Cantar é que tem as 
moradas olímpias como tem também a Tudo o que será e é e já foi, — como 
é possível que não haja uma coincidência temporal entre o mo(vi)mento do 
Cantar (i.e., das Musas) e o mo(vi)mento do que o Cantar a-presenta (i.e., 
presentifica)? Ou, em outras palavras: como podem as Musas terem nascido 
na Piéria geradas por Zeus e serem a Força ontofânica pela qual não só Zeus 
mas também a Totalidade Cósmica se dão como Zeus e como Totalidade 
Cósmica?
 
As Musas não nascem antes  nem  depois  de Zeus nem sequer 
simultaneamente com Zeus. Para que se desse uma dessas três possibilidades 
seria necessário que houvesse um tempo absoluto, preexistente por si 
mesmo, cujo decurso homogêneo e incondicionado fosse pontilhado por 
acontecimentos que não pudessem afetá-lo, quaisquer que fossem as 
naturezas desses acontecimentos. Somente esse tempo absoluto e 
preexistente poderia estabelecer entre o nascimento das Musas e o de Zeus 
uma relação de anterioridade, posterioridade ou simultaneidade; mas essa 
noção de tempo como pura extensão e quantificabilidade absolutas é uma 
representação elaborada por nossa cultura moderna e exclusivamente nossa, 
não há isso em Hesíodo nem em nenhuma parte a não ser em nossas 
convicções culturais.
 
Em verdade, o mo(vi)mento do Cantar (das Musas) é analogicamente o 
mo(vi)mento mesmo do que o Cantar presentifica, já que o Cantar é Ser. As 
Musas nascidas na Piéria não vêm à luz de um tempo preexistente a elas e 
indiferente à existência ou inexistência delas, pois não há, para Hesíodo e 
sua época, essa preexistência incondicional do tempo. Assim como cantar é a 
função pela qual as Musas se dão como Musas, já que Musa é essa força 
divina que canta em cada cantar, — o tempo em que as Musas nascem, nasce 
como a temporalidade própria das Musas e, além deste tempo qualificado e 
originado pelo nascimento-natureza das próprias Musas, não há para elas 
nenhum outro tempo a que a Presença absoluta dessas Deusas possa ser 
referida.
 
A Presença numinosa por excelência só se refere a Si Mesma, e, ao dar-
Se como Presença o Deus, sua Presença impõe-Se e impõe, como única 
remissão e referência possível ante sua Presença, a remissão e referência a Si 
Mesma.
 
O tempo em que Zeus nasce e vive e reina não é senão a temporalidade 
própria do nascimento-natureza de Zeus e portanto não pode preexistir nem 
ultra-existir ao nascimento-natureza de Zeus.
 


E assim é, na Teogonia  hesiódica, para cada Deus e cada evento 
numinoso; e, verdadeiramente, — segundo a cosmovisão que nessa obra se 
documenta, tudo é numinoso, o Universo são múltiplas e inumeráveis 
manifestações do Divino. Pouco mais de um século depois de Hesíodo, Tales 
de Mileto, segundo informação que nos transmite Aécio
1
, afirmava: tò dè 
pân émpsykhon háma kai daimónon plêres, "tudo é animado e plenamente 
numinoso". 
1) Kirk, G. S. e Raven, J. E. Los filósofos presocráticos. Historia crítica con selección de textos. 
Trad. esp. Jesus Garcia Fernández, Madrid, Gredos, 1974, p. 141.
 
 
O tempo como pura extensão e quantificabilidade é uma representação 
elaborada por nossa cultura moderna e exclusivamente nossa, não há isso em 
Hesíodo nem ela é comum a outras civilizações. É difícil para nós sequer 


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