Teogonia a origem dos Deuses



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(mia kaì he auté, segundo o vocabulário que, no século seguinte a Hesíodo, 
Heráclito elabora para expressar no novo discurso inaugurado pela polis  
pelo uso do alfabeto uma das intuições fundamentais da sensibilidade 
religiosa grega).
 
Não há um vínculo genealógico direto entre Memória e as Moirai. 
Enquanto filhas de Zeus e Thémis,  as  Moirai  são sobrinhas (e num certo 
momento enteadas) de Memória. Enquanto filhas da Noite, as Moirai são um 
pólo oposto de Memória, pertencentes à raça da Negação-de-Ser.
 
Assim como as Musas nascem de Memória e Zeus para serem o Canto 
ontofânico mas também o meôntico Oblívio (v. 55), as Moirai de dúplice e 
antinômica origem têm, também, a mesma relação ambígua com a Memória.
 
As Musas trazem à luz e presentificam o que é, recolhendo-o por força 
de Memória e redimindo-o das trevas obliviais do Não-Ser — mas as Musas 


também presidem ao Esquecimento e impõem-no, quando assim querem 
(eut' ethélomen, v. 28). As Moirai  definem e circunscrevem o ser (i.e., o 
nascimento-natureza) de cada Deus e por isso mesmo impõem a cada Deus 
que ele não seja o que ele não é e  não pode ser. Há, portanto, um 
paralelismo entre a função das Musas e a das Moirai.
 
A ação das Musas na manutenção do ser de cada ser se dá na ordem da 
temporalidade e da ontologia. A ação das Moirai  na manutenção do ser de 
cada ser se dá na ordem da espacialidade e da ontologia. Mas temporalidade 
e espacialidade não têm, na Teogonia, de modo algum o caráter quantitativo 
com o qual hoje entendemos essas categorias: elas aí são qualitativas e, se 
não exclusivamente qualitativas, são precipuamente qualitativas. O espaço e 
o tempo são sempre e sobretudo qualificados e instaurados pelo nascimento-
natureza do Deus cuja epifania os instaura. Tempo e espaço na Teogonia são 
antes adjetivos que substantivos.
 
Moîra Musas presidem igualmente a função de Memória. Esta Deusa, 
cujo ser (= nascimento-natureza) explicita o Ser-Fundamento da Terra-Mãe e 
do Céu luminoso e fecundador, não é uma Memória individual que deva 
conservar (e servir a) vicissitudes e singularidades factuais restritas à história 
de um indivíduo, — é sim uma Memória cosmo-gônica, é uma Divindade 
cujo ser é dado por esse mesmo mo(vi)mento da ordem ao Mundo (o 
momentum cosmogônico). Assim também, Moira é o princípio individuante, 
mas só o é na medida em que é um princípio mundificante.
 
Pela função de Moira, o ser individual só se constitui com o constituir-se 
do ser mundial: nenhum indivíduo é o que é sem que simultaneamente todos 
os kósmoi da Totalidade Cósmica estejam constituídos como tal. Por isso, o 
indivíduo nunca é ele mesmo num restrito insulamento, mas todo indivíduo 
se constitui numa manifestação divina por força e função das potências 
cosmogônicas e cosmofânicas: Moîrai  e Musas, Zeus e Memória, Terra e 
Céu ladeados por Kháos Éros.
 
 
 
 
 


 
VIII 
A TEMPORALIDADE DA PRESENÇA ABSOLUTA
 
 
As Musas, múltipla força numinosa do Cantar, mantêm o monte Hélicon 
grande e divino enquanto o têm como sua morada e no vigor da nomeação 
que é o Cantar (v. 2). As Musas magicamente mantêm constante o fluxo da 
fonte do Cavalo, e mantêm perene o altar de Zeus, através da dança circular 
em que os cantam e desse poderoso canto que dançam ao redor da fonte e do 
altar do muitíssimo forte Zeus (vv. 3-4). A voz e os sons de dança das Musas 
(enquanto elas ainda estão invisíveis no fundo da Noite que a tudo encobre e 
oculta com muita névoa) (v. 9) quebram o silêncio da Noite meôntica com o 
polifônico canto em que (res-)surgem os nomes-numes constituidores das 
três fases cósmicas, i.e., da totalidade do Ser (vv. 11-21). No entanto, 
embora as Musas enquanto forças ontofânicas do Cantar constituam o 
próprio Fundamento da ontofania, elas têm — como qualquer outro ente que 
nelas tenha seu Fundamento ontofânico — progenitores e particulares 
circunstâncias e lugar de nascimento. Elas são o Fundamento de tudo e de si 
mesmas e no entanto nasceram na Piéria, geradas por Memória e Zeus.
 
O fato de terem nascido na Piéria e serem um determinado e situado elo 
no inúmero encadeamento genealógico que elas próprias cantam (i.e., 
fundam) constitui um círculo em que nosso pensamento parece ficar 
insoluvelmente preso e, assim preso, incapaz de compreender essa 
circularidade temporal em que os subseqüentes geram os antecedentes e as 
filhas dão fundamento e ser a seus pais.
 
Apesar de geradas por Zeus após sua vitória sobre seus inimigos e após 
Grande Partilha das honras que ele preside, as Musas cantam (i.e., fundam) o 
seu reinado urânico (hò d'ouranôi embasileúei, v. 71), sua vitória sobre 
Crono (v. 73) e sua fixação das honras (epéphrade timás, v. 74). Ora, o 
Cantar das Musas coincide com alethéa  (v. 28), i.e.,
 
com a Aparição pela 
qual o Ser se nega a Não-Ser; o Cantar das Musas é alethéa,  os próprios 
seres em sua manifestação existentiva, e são as Musas que os mantêm nessa 
manifestação (a-létheia)  pela qual o oblivial Não-Ser é negado. Portanto, 
como é possível que as Musas tenham sido geradas por  Zeus e após  
Vitória deste cantada por elas? As Musas cantam isso que cantam (tauta, v. 
75) tendo o palácio Olímpio (v. 75), e ter, ékhein, em grego significa manter 
(cf. lat. habere-habitare).  As Musas cantam isso,  no exercício mesmo de 
manterem o ser das moradas em que cantam, as moradas olímpias (Olympia 


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