Teogonia a origem dos Deuses



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Hesíodo - Teogonia
génos como fator de estruturação cosmo-teogônica (tal como, noutro plano
é eixo da organização social) que vigora a lei básica da Teogonia hesiódica 
segundo a qual a descendência é sempre uma explicitação da natureza dos 
genitores.
 
No entanto, esse Grande Cosmo vivente e divino como um único tecido 
composto de células que são as teofanias,—esse Grande Cosmo centra-se em 
múltiplos centros: cada um dos Deuses-unidades que o constituem é em si 
mesmo essencialmente um centro de convergência de honras, veneranda 
fonte de poderes e de forças que infunde não só o sentimento de respeito ao 
homem, mas também um sentido absoluto (i.e., uma significação não 
condicionada nem gerada senão por si mesma), pois cada Deus, como 
plenitude e sentido absolutos, irrompe dramaticamente e comunica à vida 
humana uma plenitude de sentido —benéfica ou terrível—que traz assombro 
e a experiência do sublime e do horror.
 
Todos esses múltiplos centros em que o Grande Cosmo se centra, 
centros absolutos não condicionados nem gerados senão por si mesmos 
(dada a coincidência em que a Ipseidade deles coincide com a Ipseidade de 
seu(s) genitor(es)), encontram-se sob a jurisdição da
 
Moîra que os constitui.
 
A  Moira,  i.e., o lote ou o quinhão partilhado, é esse limite ôntico pelo 
qual a essência mesma de cada Deus se delimita e se configura como tal. 
Moîra, portanto, está acima de cada Deus-centro ao mesmo tempo que é esse 
próprio Deus-centro. E enquanto a Moira está acima de cada Deus-centro ela 
se identifica com a vontade de Zeus, já que é a vontade de Zeus que 
determinou (ou determina: aqui cessa toda compartimentação do tempo em 
presente, passado e futuro) a Grande Partilha e, nessa Grande Partilha
constituição de cada parte, i.e., Zeus determinou (determina) o Grande 
Dasmós (vv. 73-4, 112 e 885) e, no Grande Dasmós, a constituição de cada 
moira.  (E além de árbitro do Grande Dasmós,  Zeus é o cônjuge de Eury-
nóme,  a Grande-Partilha, e é cônjuge de Thémis,  com a qual procria as 
Moirai, as partes ou lotes.)
 
Não adianta estabelecermos aqui uma sistematização e classificação 
conceituais dos vários sentidos com os quais a palavra Moira vigorou entre 
os gregos na Época Arcaica, porque na Época Arcaica em que todos esses 
sentidos vigoraram eles não se deixaram, em seu vigor, nem se sistematizar 


nem se classificar conceitualmente, e essa sistematização e classificação não 
vão nos auxiliar a compreender o vigor em que a Moira  pôde viger e 
configurar um Mundo Divino.
 
Hesíodo põe as Moirai  simultaneamente em duas linhagens diferentes 
que, por suas naturezas e modos de procriação diversos, em nada se tocam, 
em nenhum momento se miscigenam: as Moîrai  são filhas da Noite 
cissiparidas (vv. 217-9) e são filhas da união de Zeus e Thémis (vv. 904-6). 
Com essa origem dupla e antinômica, as Moirai  são o limite positivo, 
constitutivo e configurativo de cada ser divino ou humano e — e por isso 
mesmo — são o limite negativo, coercitivo e cancelante: elas afirmam tudo o 
que um ser é e pode ser e negam  tudo o que ele não é e não pode ser. A 
afirmação do que é e pode ser é já em si mesma a negação do que não é nem 
pode ser. A dupla filiação das Moirai  indica, nos termos próprios do 
pensamento mítico, que toda afirmação implica a negação (omnis affirmatio 
est negatio).
 
A  Moira,  que constitui cada ser divino ou humano e com ele coincide 
enquanto é esse lote de opulência e de valor partilhado (áphenos kaì timás, 
cf. v. 112), exprime-se em cada ser divino ou humano como a sua mais 
autêntica e própria expressão. No entanto, a Moira, enquanto é para cada ser 
o seu próprio ser, constitui para cada Ser todas as coerções e imposições que 
se pode padecer e sentir como vindas disso que não se é mais por si próprio; 
a Moira é, para cada ser, tudo o que provém de seu além-ser, tudo o que 
lhe é exterior e Outro.
 
Na Moîra (i.e., nesse lote, nesse horizonte individual particular que se 
delimita à parte da Totalidade Cósmica), afirmação e negação, liberdade e 
necessidade, espontaneidade e coerção, ipseidade e alteridade coincidem e 
são ao mesmo tempo no mesmo lugar sob o mesmo aspecto uma e mesma 

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