Teogonia a origem dos Deuses



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omnium ceterorum (Deorum). Cada Deus sendo, por sua definição essencial
causa de si mesmo e de tudo o mais que a ele se refira, nada nesse universo 
multidivino se deixa subsumir como efeito porque tudo nesse universo é 
sempre causa. Causa à qual corresponde nenhum efeito além de si mesma e 
de outras causas que são—tanto quanto ela—presenças absolutas e não 
causadas senão por si mesmas.
 
Neste caso, a palavra "causa" está sendo usada num sentido transposto; a 
palavra "causa" está sendo empregada como uma metáfora a que se recorre 
para se descrever a condição da múltipla presença divina. Uma "causa", cujo 
efeito é ela mesma e outros seres que são eles próprios causas de si mesmos, 
não pode ser considerada como "causa" senão por um uso metafórico (i.e., 
transposto e deslocado) da palavra "causa". E com este uso propositalmente 
deslocado desta palavra "causa" procuro estabelecer uma comparação entre 
nossa hodierna e habitual apreensão e compreensão dos entes e das coisas e a 
experiência grega arcaica na qual o Ser se manifesta como numinoso e na 


qual o universo não é senão um conjunto não-enumerável de Teofanias.
 
A concomitância como princípio de organização e inter-relação dos 
eventos mostra-se com particular nitidez no caso das relações entre Zeus, 
Estige e seus quatro filhos. A vitória e o poder de Zeus, o poder de Estige e o 
raro apanágio (o da constante companhia de Zeus) que honra os quatro filhos 
de Estige não poderiam ser senão em função uns dos outros.
 
Mas a vitória de Zeus na Titanomaquia não tem por causa preponderante 
o fato de Estige ter-se decidido alinhar seus filhos Zelo e Vitória, Poder e 
Violência nas falanges de Zeus. Zeus ele mesmo é kydistos  (v. 548), i.e., o 
que detém o maior e mais forte kydos.  Embora tradicionalmente traduzido, 
como se fosse sinônimo de kléos, por "glória", kydos é o signo momentâneo
1
 
com que um guerreiro é marcado por um Deus que o favorece, signo mágico 
da infalível supremacia no combate, e que é percebido, tão logo o Deus 
numa batalha o instaura sobre alguém, tanto por esse que é assim favorecido 
quanto por seu adversário e pelos demais que estão ao redor. A eficácia do 
kydos é momentânea, válida para esse instante de perigo em plena batalha no 
qual o Deus preserva e faz prevalecer como vitorioso um mortal a quem 
privilegia com sua preferência. O kydos  de Zeus não é de eficácia 
temporária, porque Zeus é a própria fonte de kydos  e por Zeus ou por sua 
filha Atena é que esse signo talismânico de vitória é transmitido aos mortais. 
Zeus não detém um kydos que ele tenha recebido ou tenha arrebatado por seu 
esforço: Zeus é o próprio kydos,  e suas preferências e suas intenções é que 
constituem para os mortais a origem e a fonte de kydos,  sinal prodigioso e 
mágico que cerca de prodígios o guerreiro a quem assinala para a vitória. 
Esse poder talismânico, que um dia é concedido a um e outro dia a outro, 
tem sua permanente e inesgotável fonte no imutável kydos  que é o caráter 
mesmo de Zeus kydistos. Como então não seria Zeus kydistos o vencedor na 
batalha contra os Titãs e contra seus demais inimigos? 
1) Cf. Benveniste, Emile. Le vocabulaire des institutions indo-européennes. Paris, Minuit, 1969, 22 
vol., pp. 57ss. 
 
No entanto, além de Zeus ser por si mesmo essencialmente assinalado 
para a Vitória na guerra, dado o seu caráter kydistos,  concorrem também 
para essa Vitória e Poder de Zeus sobre os Titãs (e além de Vitória e Poder 
serem filhos de Estige e por decisão desta serem postos à disposição e ao 
lado de Zeus) os seguintes fatos: 
 
1) a alertada previdência que é própria da natureza de Zeus e com a qual 
ele poderá superar a presciência e a alertada previdência da própria Mêtis, 
surpreendendo-a com palavras sedutoras e inesperada manobra, e engolindo-


a, i.e., incorporando-a a si mesmo mediante esse ato
 
pelo qual Zeus se revela 
ter mais mêtis  (presciência, astúcia) que a própria Mêtis  (= Presciência, 
Astúcia). (Cf. a sedução e assimilação de Mêtis  por Zeus nos vv. 889-90 e 
899-900.);
 
2) as advertências e indicações da Terra e do Céu que alertam Zeus 
quanto ao porvir: Terra aconselha o Cronida a libertar e tentar 
engajarem suas falanges os Centímanos Cotos, Briareu e Giges (vv. 
626-9); Terra e Céu aconselham-no a incorporar a si a própria Mêtis 
para não se ver superado e dominado por um filho seu e dela (vv. 891- 
8); por esses conselhos é que Zeus — entre outras "causas" — 
conquista e conserva o Poder e a Vitória; 
3) o auxílio dos Centímanos Cotos, Briareu e Giges, que Zeus não só 
liberta de suas cadeias subterrâneas mas ainda lhes oferece, com a 
finalidade de celebrar com eles um pacto e uma aliança de irrompível 
fidelidade, néctar e ambrosia, i.e., a condição divina. Os Centímanos, 
em retribuição a este benefício com que Zeus lhes outorga simultaneamente 
o acesso à luz livre do Céu e à imortalidade dada pelos 
alimentos divinos (vv. 639-41), desdobram suas forças na batalha 
contra os Titãs (vv. 669-75) e cobrem-nos com os golpes dos 
projéteis arremessados por seus três vezes trezentos braços (vv. 713- 
7), e assim—entre outras "causas" — asseguram a Zeus a conquista 
do Poder e da Vitória; 
4) o auxílio dos Ciclopes Raio, Trovão e Relâmpago, a quem Zeus 
libertou de aniquilantes prisões subterrâneas (oloôn hypò desmôn, v. 
501), e que, "lembrados dessa graça benéfica" (v. 503), deram-lhe o 
Trovão, o Raio e o Relâmpago (vv. 504-5), essas armas com as quais 
Zeus se faz forte e pode reinar (v. 506) e as quais a Terra prodigiosa 
escondia em seu críptico seio até que Zeus as descobrisse e libertasse 
(v. 505). Deste modo, os Ciclopes Raio, Trovão e Relâmpago, — 
cujos nomes os revelam como sendo não só os fabricantes e forjadores 
das armas de soberania de Zeus, mas ainda essas armas mesmas, 
trovão, relâmpago e raio, — são artífices da Vitória de Zeus, já que 
é com o recurso a esses instrumentos de triunfo que Zeus assegura 
sua Vitória sobre os Titãs (v. 687) e sobre Tifeu (vv. 853-68). 
 
As armas de Zeus são tanto atributos do Ser de Zeus quanto são também 
atributos do Ser de Zeus determinadas faculdades e qualificações "mentais" e 
"psíquicas" de Zeus—e, no entanto, tanto essas armas 


quanto essas "faculdades mentais" são, além de atributos constitutivos da 
natureza mesma de Zeus, Divindades com esfera de existência e de 
atribuições própria. Assim, os Ciclopes Raio, Relâmpago e Trovão são 
divindades com uma esfera de existência e de atribuições e de tribulações 
própria — ao mesmo tempo que são também "armas", i.é., atributos da 
natureza de Zeus. Assim, a oceanina Mêtis é tanto um âmbito de existência e 
de essência próprio a ela quanto é afinal uma qualificação ou faculdade que 
o espírito de Zeus tem no mais alto grau, que em lugar nenhum existe e vige 
mais plenamente e mais eficazmente que no próprio espírito de Zeus.
 
Se para a Vitória de Zeus concorrem todas essas causas (as quatro que 
acabamos de enumerar mais as duas antes enumeradas, a saber, a decisão de 
Estige e o caráter kydistos  de Zeus), ocorre que essas causas concorrentes 
(i.e., concomitantes) não são mais exteriores e alheias à essência mesma de 
Zeus que o próprio Zeus em sua mesma essência; não são exteriores e 
alheias e no entanto são outras Divindades que não o próprio Zeus em sua 
mesma essência. — Na verdade, o pensamento mítico, servindo-se de figuras 
não-conceituais, de imagens concretas e de ideações plásticas, servindo-se de 


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