Teogonia a origem dos Deuses


Partilha dos privilégios de valor e de poder que constituem o ser de cada



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Partilha dos privilégios de valor e de poder que constituem o ser de cada 
Deus.
 
 
 
 


VII
 
MEMÓRIA E MOÎRA
 
 
Hesíodo retoma a narração do nascimento das Musas (vv. 53-67) no 
contexto do catálogo das esposas de Zeus (vv. 915-7). Memória é a quinta 
união de Zeus. Que significa esta união e o fato de ser a quinta?
 
Com Mêtis, o soberano do Olimpo incorpora a si uma Sapiência que lhe 
assegura o poder sobre o imprevisível, sobre todos os ardis que em todos os 
tempos e em todos os lugares se possam tramar, pois com Mêtis ele conhece 
o bem e o mal (v. 900) num domínio que, cambiante e instável, tem tanta 
afinidade com a natureza do Mar. — Com Thémis, o novo soberano gera a 
Ordenação interior de seu reinado, a Ordem em todos os aspectos nomeados 
pelos nomes de suas filhas Hórai e Moîrai, que dosam e regram a 
distribuição de bem e de mal (v. 906), pois com Thémis ele assegura ao seu 
poder um domínio imutável e estável, afim com a natureza fundamental da 
Terra. — Com Eurynóme, filha do Oceano, a Grande-Partilha configuradora 
da Totalidade Cósmica assume a forma que desperta muito desejo amoroso 
(v. 908): com a Grande-Partilha  o soberano olímpio gera as Graças de 
esplender, de alegrar-se e da amorosa participação na opulência (cf. v. 909), 
estas Graças companheiras das Musas (v. 64) e cujo olhar infunde o Amor 
solta-membros (vv. 910-1). — Com Deméter, o novo soberano garante a 
circulação das forças entre o mundo subterrâneo dos mortos e o âmbito 
terrestre dos vivos e garante assim, no equilíbrio dessa imbricação entre vida 
e morte, a manutenção do hemisfério dos vivos: Deméter, alimentadora da 
vida, Senhora que é das forças ctônicas, gera Perséfone que reina sobre os 
mortos. — Com as quatro primeiras núpcias, portanto, o reinado de Zeus 
compõe-se com a estabilidade insubvertível dada pela Astúcia de Mêtis, com 
a Ordenação interior dada pela Lei de Thémis, com as Graças de esplender, 
alegrar-se e ser opulento, dadas pela Grande-Partilha,  e com o equilíbrio 
entre as pulsações da vida e as latências da morte dado pela terrena e 
maternal Deméter.
 
No catálogo das esposas de Zeus, Memória está entre Deméter e
 
Leto. Como Deméter, Memória assegura a circulação das forças entre o 
domínio do Invisível e o do Visível, já que Memória é que, em cada 
mo(vi)mento de cada ente, decide entre o ocultamento do Oblívio e a luz da 
Presença. Como Leto, mãe dos mais belos descendentes do Céu (v. 919), 
tem nos seus filhos a mais perfeita forma explicitadora da luminosidade e 
sobranceria do Céu ancestral, a uranida Memória tem na mais forte e 
reveladora luminosidade o domínio próprio de sua função.
 


Com sua quinta união, Zeus confere ao seu poder o domínio da 
luminosidade desveladora, a indeclinável permanência no âmbito da 
aparição, e assim o reinado de Zeus torna-se a vigência da mais vigorosa 
verdade (a mais vigorosa negação do Esquecimento em que se dá o Não-
Ser), torna-se o poder esplender infatigavelmente. Como a mais vigorosa 
manifestação da Presença, o soberano cônjuge de Memória é a grande 
percepção que se deleita com a voz uníssona das Musas a dizerem os seres 
presentes, futuros e pretéritos (cf. vv. 36-7).
 
O poder de Zeus, centrado no espírito (epí-phron), dá-se como o gerador 
e o sujeito dessa grande percepção (mégan nóon) em que seu cônjuge 
Memória gera as Forças do Canto (= Musas) pelas quais os nomes-numes se 
fazem presentes como presenças configuradoras da totalidade do que se 
desvela e do que não se desvela.
 
Longe de se esgotar em sua acepção psicológica, Memória é uma 
Potência cósmica, que nasce da cópula do Céu e da Terra, esses 
Fundamentos inabaláveis dos Deuses e de Tudo, assim como deles é que 
nascem a Visão (Théia),  a Fluência (Rhéia),  a Luminosidade (Phoíbe)  e a 
Instauradora-Nutriz (Téthys) (cf. vv. 135-6).
 
Memória, que mantém as ações e os seres na luz da Presença enquanto 
eles se dão como não-esquecimento (a-létheia), gera de Zeus Pai as Forças 
do Canto, cuja função é nomear-presentificar-gloriar tanto quanto a de deixar 
cair no Oblívio e assim ser encoberto pelo noturno Não-Ser tudo o que não 
reclama a luz da Presença. A audição deste Canto, que ao irromper quebra a 
Noite do Não-Ser (vv. 7-10), é o regozijo de Zeus (vv. 37 e 51), que, unido a 
Memória, o gera. Como o poder de Zeus que se estende de ponta a ponta no 
Universo, este Canto para o regozijo de Zeus não conhece os limites entre 
presente, futuro e passado, mas flui infatigável (akámatos rhéei, v. 39) e, 
cantando, nomeia-presentifica-gloria o próprio poder e reino de Zeus (cf. vv. 
71-5). Sujeito da percepção deste Canto, Zeus é também o seu objeto. 
Genitor que funda as Forças deste Canto, Zeus tem o seu próprio ser e poder 
fundados pelo poder deste Canto.
 
A união de Zeus com Memória coloca certos problemas com que já 
deparamos antes: o da imanência recíproca entre linguagem e ser (que, como 
vimos nos caps. III e IV, não é senão a recíproca imanência entre linguagem 
e poder); o da imbricação do tempo na complexão de linguagem, ser e poder; 
o de uma concepção de tempo que se estrutura sobre a concomitância e 
simultaneidade sem quaisquer indícios da relação de causa e efeito; o de uma 
concepção segundo a qual o tempo sob o aspecto qualitativo se apresenta 
ricamente diversificado enquanto sob o aspecto quantitativo ele dificilmente 
se deixa apreender pelo rigor da medição, — uma concepção de tempo na 


qual, portanto, tendem a se desfazerem e a perderem o sentido as relações de 
anterioridade e de posterioridade.
 
O traço mais marcante do pensamento que organiza a Teogonia 
hesiódica é o da continuidade, de tal forma que nela cada questão parece 
implicar todas as outras questões, cada aspecto do ser parece implicar todos 
os outros aspectos, e a solução de cada problema pertinente à estrutura e à 
função desse pensamento parece implicar a solução de todos os outros 
problemas desse tipo. Isto porque essa continuidade pela qual esse 
pensamento se dirige e se organiza não é simples, linear e unidirecional, mas 
multidirecional, multívoca e complexa. A própria continuidade genealógica 
entre genitores e gerados não é simples e linear como uma mera relação de 
causa e efeito, de antecedente e conseqüente; porque a relação entre 
genitores e gerados não se dá fundamentalmente como uma referência 
unívoca de uns a outros, mas como uma imanência essencial da natureza de 
uns na natureza de outros: a natureza dos filhos está implicada e implícita na 
dos pais assim como a dos pais continua e se explicita na dos filhos. Sob 
certos aspectos os pais não são anteriores aos filhos, mas são em muitos 
casos determinados e marcados por eles ou por "pósteros", como se fossem 
todos "contemporâneos". Essa continuidade é uma tal contigüidade, que é 
como se todos esses múltiplos tempos diversamente qualificados devessem 
antes ser entendidos por nós como "contemporâneos", de preferência a serem 
entendidos como sucessivos — entendidos sim como tempos compostos de 
momentos imóveis, presenças permanentes em si mesmos, e não entendidos 
como sucessão, fluxo e escoamento.
 
Memória, filha da Terra e do Céu, esta na raiz da natureza da Terra e do 
Céu, esses Fundamentos eternamente presentes em si mesmos, e está na raiz 
de todos os entes e eventos com os quais se configura a Totalidade Cósmica, 
que já que esta totalidade se compõe de uma simultânea sucessão de 
momentos imóveis, um conjunto de séries a cruzarem-se de mo(vi)mentos de 
inextinguíveis esplendores, — esplendores que as trevas obliviais do Não-
Ser não encobrem porque são o próprio ser divino, recolhidos por Memória e 
esplendentes ao serem nomeados pelos nomes-numes nascidos da Memória e 
de Zeus, as Musas.
 
Essa totalidade sendo presidida pelo Conflito, e a constituição de cada 
ser e cada Deus sendo decidida e delimitada pela Guerra, não é difícil 
compreendermos que cada ser divino é  segundo a sua força de ser  ou 
segundo lhe é dado ser pelo arbítrio soberano de Zeus, e inclusive Zeus é 
segundo a sua força de ser.  Tudo se decidindo, se definindo e se fundando 
pela Guerra e por Zeus que se decide, se define e se funda em seu poder 
através da Guerra, todos os entes e eventos se impõem em seu âmbito por 


sua própria força de ser ou pela força máxima constituída por Zeus; tudo são 
forças vivas e divinas cuja harmonia que as compõe é a Guerra. Os Deuses 
dividem entre si a Opulência do Ser por uma medição de forças e assim 
definem os privilégios e atributos que os constituem; nessa decisiva e 
definitiva medição de forças a força de cada um é a causa de cada um ser o 
que é—e simultaneamente a causa de cada um dos outros ser o que cada um 
dos outros é. Assim, cada um é a causa de seu próprio evento — e 
simultaneamente a causa de todos os outros eventos que a ele estiverem 
ligados. Para cada ente ou evento não há outra causa senão ele mesmo — e, 
pelo fato de ele ser a única causa dele mesmo, ele também é causa de todos 
os outros entes e eventos ligados a ele, os quais entes ou eventos nada têm 
por causa senão a si próprios. E a relação entre os entes e os eventos é da 
ordem da concomitância, não a de causa e efeito.
 
Por exemplo, o poder e o ser de Zeus têm por causa a força de poder e de 
ser de Zeus — tanto quanto é causa do poder e do ser dos outros Deuses a 
ele ligados, os quais têm por causa a força que cada um deles tem de poder e 
ser. No entanto, o ser e o poder de Zeus têm por causa — além de si mesmos 
— outros seres e poderes concomitantes que são causas de si mesmos e que 
têm por causa o ser e o poder de Zeus.
 
A oceanina Estige, unida a Palas (híbrido descendente do Mar e do Céu), 
gerou os dois pares Zelo e Vitória, e Poder e Violência; por desígnios de seu 
pai Oceano (v. 398), ela decidiu (eboúleuse, v. 389) pôr esses quatro filhos 
na companhia de Zeus quando ele conclamava todos os imortais ao Olimpo 
para o combate contra os Titãs (vv. 390-3). E por ter sido Estige a primeira 
dos imortais a atender à conclamação (v. 397), "Zeus a honrou e lhe deu 
supremos dons: fez dela própria o grande juramento dos Deuses e seus filhos 
residirem para sempre com ele" (vv. 399-401).
 
Portanto, Estige é a "Deusa odiosa aos imortais, a terrível Estige" (vv. 
775-6), "o grande flagelo para os Deuses" (v. 793), o "juramento", a 
"imperecível água ogígia que brota de abrupta região" (vv. 805-6) — 1) por 
causa de si mesma, que decidiu e pôde, primeira dentre todos, aliar-se a 
Zeus, — e 2) por causa de Zeus, que em sua magnanimidade quis dar-lhe 
"supremos dons". — Por outro lado, Zeus é Zeus detentor de Zelo e Vitória, 
Poder e Violência, — 1) porque Zeus é "o mais glorioso e o maior dos 
Deuses perenes" (v. 548), — e 2) porque "assim decidiu Estige, a 
imperecível Oceanina" (v. 389).
 
Mas os próprios Zelo e Vitória, os próprios Poder e Violência não 
constituiriam o tão alto e honrado privilégio que constituem se não os 
honrasse e os privilegiasse Zeus com o fato de mantê-los em sua companhia, 
onde quer que esteja e por onde quer que vá. Basta a mera leitura destes 


versos 383-403 para que se perceba claramente que esses quatro filhos de 
Estige são quem são por serem quem são e também por Zeus que os faz ser 
quem são; mas Zeus é quem é por ser quem é e também por esses quatro que 
o fazem ser quem é.
 
Nesta seção da Teogonia consagrada a Estige e seus filhos (vv. 383-403) 
evidencia-se com a maior nitidez de que modo a relação de concomitância 
coordena e vincula entre si os entes e eventos, sem que se possa encontrar 
neles quaisquer indícios da relação de causa e efeito. Não há causa única 
nem sequer causa preponderante, pois cada ser divino é causa sui mas não 
poderia ser ele próprio senão no grande concerto cósmico (o Canto que para 
o deleite de Zeus as Musas cantam) composto por ele próprio e por inúmeros 
outros seres divinos não só diferentes dele próprio mas ainda freqüentemente 
em diferença com ele próprio.
 
Cada Deus é simultaneamente causa sui e causa de tudo o que a ele se 
refira, mesmo quando nesse conjunto de entes e eventos que a ele se refere 
encontram-se outros Deuses que são, também cada um destes, causa sui 
causa de tudo o que a cada um deles se refira. — Portanto, num universo 
cuja cosmologia pode ser narrada e só é narrada como uma teogonia, i.e., 
num universo constituído unicamente de forças divinas e cujas relações 
estruturais só se dão como inter-relações divinas, como con-vívio e com-bate 
de Deuses e famílias de Deuses entre si, — nesse universo 
constitucionalmente e exclusivamente divino —, todos os entes (i.e., Deuses) 
são, em todos os mo(vi)mentos e em todos os seus aspectos, sempre causas, 
nunca efeitos. Não é possível, portanto, falar-se de uma relação de causa e 
efeito: nesse universo o Ser se dá sempre, em cada caso, como causa sui et 


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