Teogonia a origem dos Deuses


parte. No reinado de Crono como no de Zeus, o Céu perdura com as mesmas



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parte. No reinado de Crono como no de Zeus, o Céu perdura com as mesmas 
funções que ele sempre teve e desempenhou: cobrir fecundantemente toda a 
Terra e ser para os Deuses venturosos o assento irresvalável de sempre (vv. 
127-8). Acontece que Crono, ao afirmar a força do pensamento flexuoso, 
define-se tanto quanto a si mesmo também ao âmbito próprio das 
fecundantes forças urânicas, instauradoras e mantenedoras das formas 
terrestres e divinas da vida. No confronto em que Crono define sua própria 
time  (seu âmbito, sua natureza e valor), ele define também e fatalmente a 
time daquele cujo modo de ser se confronta com seu modo de ser.
 
Tal como perdura o Céu, Crono de curvo pensar, — que se instaura pelo 
confronto e nas fronteiras com as úberes forças do Céu-Pai primordial, — 
também perdura para sempre com o seu curvo pensar e com sua proximidade 
das ubertosas forças primordiais: ele reina nessa época imperecível e além-
mundana (i.e., além do reino de Zeus) na qual o solo espontaneamente 
produz generosas colheitas todo o ano, reina sobre homens que não 
conhecem a fadiga nem a velhice nem a morte, — num tempo opulento e 
carregado das urânicas forças instauradoras e mantenedoras da vida. Cada 
Deus vive num tempo cujas qualidades, como os mais próprios e exclusivos 
privilégios desse Deus (i.e., as suas timaí),  manifestam-se como 


qualificações constitutivas desse Deus. Por isso, as três fases cósmicas 
permanecem, em suas múltiplas inter-relações, irredutíveis à cronologia 
linear pautada por nossa moderna concepção quantitativa e abstrata de 
tempo.
 
O reinado de Crono tem, por seu próprio ser e natureza, um âmbito 
restrito, que se curva em torno de si mesmo e assim se delimita. Não há em 
toda a Teogonia referência de que ele tenha exercido o poder fora do âmbito 
de seu otkos, i.e., de sua mulher e filhos. O seu confronto com seu pai se dá 
através de um ardil (o que é próprio do seu modo de ser) mas não liberta a 
todos os seus irmãos, cuja condição carcerária em alguns casos não é 
alterada pela ação de Crono. É preciso que Zeus "os remeta das trevas 
subterrâneas para a luz livre" (cf. v. 669); eles aí permaneciam, no útero 
terrestre, desde que foram concebidos pelo florescente Céu (i.e., desde que o 
Céu aí "a todos ocultava e não os permitia virem à luz", v. 157). A soberania 
de Crono, portanto, permanece, desde que se instaurou, indiferente a tudo o 
que ultrapassa o seu restrito insulamento em si mesma: ele reina numa ilha, 
as ilhas dos Bem-Aventurados que desfrutam todos os benefícios de habitar 
o tempo forte das opulentas Proximidades das Origens.
 
O reinado de Zeus é o mandálico centro da totalidade cósmica porque ele 
é o único cujo centro se dá como a mais plena manifestação do espírito. 
Como sua filha primogênita Palas Atena, Zeus se caracteriza pela vontade 
centrada no espírito (epí-phrona boulén, v. 896); o que constitui a essência 
de suas ações é serem fundadas e centradas no espírito (epi-phrosyneisin, v. 
658); as forças que por Zeus são combativas guiam-se por uma atenta 
percepção e pela vontade centrada no espírito (ateneî te nóoi kai epíphroni 
boulêi,  v. 661). — O Metíeta Zeus é a Sapiência que, semelhante ao rio 
Oceano, abarca a totalidade do que é. As armas de Zeus são o Clarão, o 
Trovão e o Raio, que ele libertou da abstrusa virtualidade em que jaziam no 
útero da Terra  (Gaîa kekeúthei, v. 505; cf. Gaíes en keuthmôni, v. 158) e 
que são a mais pura e pujante expressão (e explicitação) da força do espírito 
(e do ser do Céu de que Zeus descende).
 
Tendo ele completado e coroado a Grande-Partilha das honras, o reinado 
de Zeus é a grande percepção (mégas nóos) que fixa cada Deus em seu 
âmbito,—i.e., que sobrevê a divisão da Opulência do Ser nessa Grande 

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