Teogonia a origem dos Deuses



Baixar 0.52 Mb.
Pdf preview
Página21/51
Encontro03.08.2021
Tamanho0.52 Mb.
1   ...   17   18   19   20   21   22   23   24   ...   51
Thémis.  (Cf. Esquilo, Prometeu,  vv. 209-10, "Thémis e Terra, uma forma 
única de muitos nomes".)—São esses dois âmbitos, o Mar e a Terra, de onde 
podem surgir a ameaça ao poder e a retaliação à tomada mesma do poder, 
que Zeus concilia e controla ao unir-se a Mêtis e a Thémis.
 
Não casualmente, Mêtis  não é uma nereida, mas uma oceanina. Como 
filha do rio que circunvolve a totalidade da TerraMêtis  representa a 
presciência oracular e prática que abarca a totalidade dos recursos do 
espírito. Ela é "a que mais sabe dentre Deuses e homens mortais" (v. 887). E, 
uma vez que ela é incorporada a Zeus, não há mais recurso ao espírito que 


não seja circunscrito pela consciência de Zeus, nem recurso do espírito que 
não esteja contido no espírito de Zeus. Nenhum logro pode ser tramado sem 
que se dê ao conhecimento de Zeus. Todos os estratagemas e todos os 
desígnios tão logo concebidos em qualquer tempo ou lugar são abarcados 
pela grande percepção de Zeus, porque, tendo incorporado a si a própria 
Mêtis  (Sapiência), Zeus não é um Deus que tenha entre suas faculdades o 
recurso à Mêtis,  mas é ele próprio o Metíeta Zeus, "Zeus Sapiente" (cf. v. 
904). Tal como o rio Oceano cinge com suas correntes circulares a totalidade 
da Terra-Fundamento inabalável, também o Metíeta Zeus cinge com sua 
grande percepção a totalidade do que é.
 
Se com a primeira aliança nupcial Zeus se assegura do domínio sobre o 
imprevisível, o instável e o cambiante {Mêtis  se traduz por Sapiência, mas 
também por Astúcia ou Ardil),—no segundo consórcio Zeus se associa ao 
estável, ao inabalável e incontestável: Thémis, filha do Céu e da Terra, e que, 
segundo o Prometeu de Esquilo, é um outro nome da própria Terra.
 
Tendo-se tornado Metíeta  e tendo com isso posto seu reinado 
definitivamente ao abrigo das sublevações, Zeus gera Palas Atena, que é ela 
própria a Sapiência guerreira. Unindo-se à Lei Ancestral Thémis,  Zeus 
estabelece ordem, ritmo e medida no seu reinado: gera as Hórai e as Moirai. 
No seu livro Le vocabulaire des institutions indo-européennes, Émile 
Benveniste define assim este vocábulo: "Na epopéia, entende-se por thémis 
prescrição que fixa os direitos e deveres de cada um sob a autoridade do 
chefe do génos,  quer na vida cotidiana no interior da casa, quer nas 
circunstâncias excepcionais: aliança, casamento, combate. A thémis  é o 
apanágio de basileús, que é de origem celeste, e o plural thémistes indica o 
conjunto destas prescrições, código inspirado pelos Deuses, leis não-escritas, 
coletânea de ditados, sentenças dadas pelos oráculos, que fixam na 
consciência do juiz (no caso, o chefe da família) a conduta a manter todas as 
vezes que a ordem do génos está em jogo".
 
Filhas de Thémis,  as  Hórai  ("Estações") são três: Eqüidade, Justiça e a 
viçosa Paz (v. 902). Os nomes das três estações põem em evidência quanto o 
pensamento arcaico apreende como uma Ordem única e unitária o que nós 
cindimos em distinções como ordem político-social, ordem natural e ordem 
temporal. Uma crença profunda de Hesíodo era a de que as injustiças sociais 
acarretavam não só perturbações e danos às forças produtivas da Natureza 
mas também subvertiam a própria ordem temporal. As Hórai,  portanto, 
nascidas de Zeus e Thémis, têm por função instaurar a boa distribuição dos 
bens sociais, as boas relações entre homens e a ordem que ritma as forças 
produtivas da Natureza. — As Moirai  (na tradução latina, as Parcas), "a 
quem mais deu honra o sábio Zeus" (v. 904), fixam aos homens mortais os 


seus lotes de bem e de mal. Enquanto filhas de Zeus e Thémis,  as  Moirai 
representam a Fatalidade sob o aspecto positivo de configuração e ordenação 
dos destinos humanos segundo um peso e medida divinos; sob o aspecto 
negativo, essas Moirai  são filhas da Noite (vv. 217-9) e representam a 
sofrida experiência do restrito e inexorável lote de bem e de mal a que cada 
homem tem que se submeter como seu único destino.
 
As Hórai regram a Natureza, o tempo e as ações humanas integrando-os 
num todo uno e indiviso, que será harmonioso ou terrível segundo nele os 
homens concorram com ou sem o senso de justiça. As Moirai regram o que 
de bem e de mal aos homens é dado viver, segundo uma medida divina pela 
qual a vida humana (feliz ou desventurada) encontra sua razão de ser e se 
integra na ordem maior de Zeus.
 
No seu terceiro casamento, Zeus desposa, como da primeira vez, uma 
Deusa de natureza aquática: a oceanina Eurínome, irmã de Mêtis (cf. v. 358) 
e cuja aparência desperta forte desejo amoroso (polyératon eîdos ékhousa, v. 
908).  Eury-nóme  significa "Grande-Partilha" e esta oceanina unida a Zeus 
gera as Graças (Khárites), de cujo olhar esparge-se Eros solta-membros (vv. 
910-1) — esse mesmo Eros que participa do séquito da emergente Afrodite 
(v. 201) e com esse mesmo epíteto com que é nomeado como Potestade 
integrante da Quádrupla Origem da Totalidade Cósmica (v. 122). — Esta 
oceanina Grande-Partilha, explicitada por suas filhas cuja beleza (como a 
dela própria) incute amor e desejo, revela nesta beleza afrodisíaca o lado 
gemelar e outro da Guerra (das Erínias, das ninfas Freixos e dos Gigantes 
combatentes, que nascem todos eles juntamente com Afrodite). Em seu 
âmbito e seus encantos aquáticos e afrodisíacos, a amorosa oceanina 
Eurynóme  constitui, com a própria Guerra (este segundo momento da 
Grande-Partilha das timaí),  o processo agonístico e cósmico da Grande-

Compartilhe com seus amigos:
1   ...   17   18   19   20   21   22   23   24   ...   51


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal