Teogonia a origem dos Deuses



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Graías,  as "Velhas", "grisalhas de nascença", vv. 270-1). — O Mar gera 
Ketó,  cujo nome se liga a kêtos,  designativo dos cetáceos e de monstros 
aquáticos em geral: desta deusa Ceto unida a Fórcis nascem os monstros, 
divinos e de estranhas e compósitas formas, combatidos por Heracles e 
outros heróis (vv. 270ss.). — E o Mar gera ainda Euríbia (Euribíe="Larga 
Violência"), que, acasalando-se com o uranida Crios, tem entre seus filhos 
Astreu, o pai dos astros.
 
O Céu, lúcido e dominador de todas as paisagens, funda a Linhagem dos 
que se caracterizam predominantemente pela inteligência, lucidez e exercício 
do domínio. Entre os primeiros filhos do Céu estão duas das primeiras 
esposas de Zeus: Thémis (a Lei que vigora no interior da família, conforme o 
modelo indo-europeu) e Mnemosyne  (a Memória, mãe das Musas). A 
Linhagem do Céu é a dos reis Crono e Zeus.
 
Quanto à Linhagem de Caos, já estudada no capítulo anterior, vamos 
retomá-la aqui concisamente. A ela pertence tudo o que se marca pela 
chancela do Não-Ser, todas as formas de violência das potências negativas e 
destrutivas. Os descendentes de Caos não se unem procriativamente a 
ninguém (exceto a união de Érebos e Noite, que procriam assim Éter e Dia, 
segundo o verso 125, que por isso é dado como não-hesiódico por alguns 
editores); eles atuam como potências de cisão, de desagregação, da violência 
e da morte, — pois assim se expressa o poder de Caos.
 
No episódio em que Crono impõe um limite às atividades prolíficas do 
Céu, o golpe cortante da foice recurva incide sobre os médea. (Esta palavra 
médea se traduz, conforme o contexto, de dois modos diferentes: se se trata 
dos  áphthita médea de Zeus ou dos médea  de algum outro Deus, traduz-se 
por "desígnios imperecíveis" ou por "desígnios"; — se se trata do Céu, então 
os médea equivalem a genitália, — talvez porque, como os desígnios do Céu 
são só copular e emprenhar, despojá-lo de seus desígnios não é senão castrá-
lo.) Dos médea  arrancados ao Céu surgem, de uma parte, dos salpicos 
sangrentos caídos sobre a Terra, as Erínias, e, de outra parte, da espuma-
esperma  (aphrós)  ejaculada e caída no Mar, Afrodite. As Erínias vêm do 
sangue que se derruba no chão como Afrodite vem do esperma que 


docemente bóia no Mar. As Erínias vingadoras de todas as transgressões têm 
uma natureza ctônica e próxima da Terra tanto quanto Afrodite cheia de 
sorrisos e de enganos (cf. v. 205) tem a natureza mutável e manhosa como a 
do Mar. E pela violência com que na ardilosa emboscada ele impõe limites a 
seu pai, Crono encontra sua punição num ardil feminino, o de sua esposa 
Réia (vv. 471 ss.). Neste episódio em que Réia prepara as condições para 
que "o grande Crono de curvo pensar expie as Erínias de seu pai e dos filhos 
que engolira" (vv. 472-3) entra em vigor juntamente o poder de Afrodite e o 
rigor das Erínias, com os quais a manha feminina executa uma punição.
 
Para assegurar que seu poder não será superado e que o domínio que ele 
exerce sobre o seu pai não será por sua vez dominado, Zeus recorre a 
núpcias que são alianças políticas. Zeus, ao iniciar seu reino, desposa uma 
divindade de natureza aquática, Mêtis, e uma de natureza terrestre, Thémis.
 
Com esses dois casamentos inaugurais, Zeus garante o seu controle sobre 
esses âmbitos donde provieram as potências sob as quais Crono se viu 
dominado e superado: o aquático âmbito da manhosa presciência (Afrodite, 
Mêtis) e o terrestre âmbito da lei inconcussa (Erínias, Thémis).
 
Quando Crono impõe pela primeira vez o seu poder, superando o de seu 
pai Céu, instaura-se o âmbito de uma nova ordem, em que vige o 
acasalamento por graças e manhas de Afrodite (e não mais pela mera ação 
filogenética do cosmogônico Eros, que açulava o Céu) e em que vigem 
também as justiceiras Erínias, as belígeras ninfas Freixos e os Gigantes 
aguerridos;—um âmbito em que a guerra e enganosos gozos, as batalhas e 
ilusórios jogos de amor encontram os seus termos sob o império das 
implacáveis Erínias, mantenedoras do equilíbrio e reparadoras de infrações. 
— Crono é batido com as mesmas armas com que bateu seu pai: a ação 
oblíqua, o curvo pensar. O ardil de Réia, enquanto astúcia feminina, é 
homólogo à natureza do Mar donde emerge Afrodite e à natureza da 
oceanina  Mêtis;  — e, enquanto pena de talião que pune com o mesmo 
instrumento do crime, o ardil de Réia é a reparação das Erínias, vinculado à 
Terra que a foice recurva salpicou de sangue, e homólogo à natureza de 


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