Teogonia a origem dos Deuses


Partilhar é unir. Partilha é aproximação e união: a união do corte (confronto



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Partilhar é unir. Partilha é aproximação e união: a união do corte (confronto 
de Céu e Crono), a união da Guerra (em que o Todo arde em Fogo), e as 
uniões nupciais de Zeus com diversas Divindades que, como descendentes 
das diversas Potestades Originais, são explicitações em que essas Origens 
atingem as mais definidas expressões de alguns de seus aspectos.
 
Zeus casa-se com Mêtis,  a oceanina; com Témis,  a uranida; com 
Eurínome, a oceanina; com Deméter, a cronida sua irmã; com Memória, a 
uranida; com Leto, neta de Céu e Terra; e com outra irmã sua, Hera; — e 
assim constitui o seu reino.
 
Para apreciarmos o sentido e função de cada uma dessas Potestades
temos que as apreciar como momentos que elas são de uma particular 
linhagem. As três fases cósmicas, ou melhor, essas três expressões em cada 
uma das quais determinada Ordem (= um kósmos) se exprime, encadeiam-se 


entre si através de Linhagens. Essas Linhagens são conexões genealógicas 
que embora pareçam implicar a sucessão de pai a filho não impõem às fases 
cósmicas nenhuma relação de sucessividade, porque os filhos já estão 
(implícitos) nos pais assim como os pais estão (explícitos) nos filhos. O 
significado de cada casamento de Zeus é dado pelo ponto em que sua 
cônjuge surge na Linhagem dela, e pela natureza dessa Linhagem.
 
Enraizadas nas Origens distinguem-se três Linhagens: a do Caos, a do 
Céu e a do Mar. As Origens constituem-se de: CAOS, que como força de 
separação se opõe à força de união EROS, CÉU, que como duplo positivo da 
TERRA se opõe ao duplo negativo dela, TÁRTARO; — a Terra como 
fundamento e centro (assento inabalável) ladeia-se de duas forças-paredros 
Caos e Eros, e duplica-se simetricamente no seu igual, o Céu (assento 
inabalável), e na sua contra-imagem, o Tártaro (o anti-assento, queda 
abissal). O Tártaro — distante da Terra como a Terra dista do Céu — por 
sua natureza abissal tétrica está para o negativo e noturno Caos assim como 
o Céu prolifero e fundamentador está para o fecundante Eros. O Tártaro, tão 
próximo de Caos, não tem descendência, mas o Caos, sim, se explicita numa 
Linhagem. Eros, tão próximo de Céu, não tem descendência, mas o Céu, 
sim, se explicita numa Linhagem. Terra, que é o centro e o fulcro de Tudo, 
explicita-se não só através da Linhagem de seu igual, o Céu, mas ainda numa 
outra esquizogênese procria o Mar, que se explicita em sua própria terceira 
Linhagem. Tão múltiplo é o ser do Fundamento que sua explicitação se 
impõe em dupla Linhagem centrada em torno de dois eixos: o ser do Céu e o 
ser do Mar. — A Linhagem do Caos em nenhum momento cruza com as 
duas outras explicitadoras do ser da Terra, i.e., a do Céu e a do Mar, — mas 
essas duas Linhagens irmãs cruzam-se múltiplas vezes.
 
O Mar, este ser mutável e informe, funda a Linhagem dos que se marcam 
predominantemente por essa natureza primordial do Mar. A variabilidade, as 
transformações, o disforme e a imensidade são traços pertinentes, sob 
aspectos positivos ou negativos, desta Linhagem. Os aspectos positivos do 
Mar exprimem-se em Nereu e nas Nereidas. A navegação propícia, fonte de 
riquezas, ligação e caminho entre as terras, os ingredientes marinhos das 
belas paisagens mediterrâneas, tudo isso se revela nos nomes das Nereidas; 
— e não só isso: mutável, imenso e informe, o Mar representa também um 
tipo de sabedoria de inesgotáveis recursos, que prevê o imprevisível, que 
enxerga o recôndito e o inescrutável; — em suma: uma consciência que, 
como o Mar, domina, em todas as suas dimensões, a amplidão temporal e 
espacial. Um saber oracular e prático que Nereu — o mais velho filho do 
Mar (v. 234) — detém, e cujos diversos aspectos alguns nomes de suas filhas 
nomeiam. Muito próximo, por sua natureza aquática, de seu tio Mar, o 


uranida Oceano também detém esse mesmo tipo de sabedoria, que sob a 
forma mais plena e depurada se revela no nome e no ser desta oceanina que, 
primeira esposa de Zeus, a ele se incorporou: Mêtis, a Sapiência ou Astúcia.
 
Imenso, mutável e informe, o Mar gera o Espanto (Thaúmas),  de que 
nascem as duas surpreendentes Harpias (que são Tempestade e Alígera) e a 
rápida íris mensageira dos Deuses (vv. 265-9). — O Mar gera também o 
grisalho e viril Fórcis, cujo nome se liga tanto ao de um peixe marinho 
quanto ao adjetivo phorkós, "alvacento", "grisalho" (e Fórcis é pai das duas 


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