Teogonia a origem dos Deuses



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(eklínthe, v. 711) favorável aos Olímpios, — as forças de Crono são
 
encadeadas e desterradas e lançadas ao Tártaro. A Titanomaquia, em que 
Zeus, para enfrentar o adversário múltiplo se socorre à coligação de outros 
Deuses, duplica-se no episódio da luta contra Tifeu, em que Zeus enfrenta só 
um adversário só. Também nessa segunda e solitária luta, a Terra, o Céu, o 
Mar, o circunvolvente Oceano e o Tártaro retumbam e fervem. Tal como o 
estanho e o ferro se derretem e se fundem sob a força metalúrgica do fogo, a 
Terra prodigiosa se queimava e se fundia à intensidade do fogo do combate 
(vv. 839-68). Vencido, também Tifeu, — tal como os adversários 
precedentes — é lançado ao Tártaro.
 
Assim, o segundo momento da partilha cósmica consiste no movimento 
de uma guerra em que tudo — tanto quanto a sorte das duas forças que se 
combatem, — está em jogo, e em que tudo, — até as Divindades Primordiais 
e Extremas, originadoras da Totalidade Cósmica, se dissolve e se funde 
nessa única oposição na qual se opõem essas duas forças que não são senão 
desempenho e empenho de combater. O movimento dessa guerra funde e 
revolve tudo em si próprio e transmove tudo em sua própria conflagração. 
Até o princípio ontológico e cosmogônico de cisão e de distinção, o Caos, é 
traspassado, envolvido e contido no incêndio divino (kaûma dè thespésion 
kátekhen kháos, v. 700): — tudo é um só e vivo fogo que, ao medirem-se, as 
forças antagônicas conflagram; e, nessa Ekpyrosis  que é a guerra, Zeus se 
mostra Rei, e seus inimigos se fazem prisioneiros. (Cf. Heráclito, frags. 30 e 
53 D.K.)
 
Lançar ao Tártaro, ao infra-mundo ou ao além-mundo, os inimigos 
vencidos e agrilhoados significa, a rigor, excluí-los da atual fase do mundo. 
Os inimigos são vencidos, não extintos; não são mortos porque são divinos e 
imortais tanto quanto Zeus e os Deuses Olímpios. Eles apenas podem ser 
expulsos e terem o exercício de seus poderes restringido a esferas remotas, 
longínquas; e de lá poderiam regressar, se não os obstasse a irredutível 
vigilância do espírito de Zeus e suas armas fulminantes. O reinado de Zeus e 
a sublime vida dos Olímpios têm o seu fundamento na previdente e 
ininterrupta vigilância sobre as monstruosas forças que, para constituírem-se, 
esse reinado e essa vida olímpicos combateram, recalcaram e mantêm sob 
custódia. De Zeus é o grande espírito, mégas nóos, o que em grego significa 
primeiramente: a grande percepção, — o irrelaxável estado de alerta.
 
Além das fronteiras do mundo, esses inimigos estão vivos e despertos, 
foram apenas despojados da mais alta time  que constitui a participação no 
cosmo de Zeus. Esses inimigos não pertencem de modo algum a um passado 
perdido e irrecuperável. O não-presente não é um pretérito irreversível, mas 
é tão-somente o distante e longínquo. Se não pertence mais à atual fase do 


mundo, o não-presente é então o além-mundano, o que se situa na distância 
além do círculo do Oceano ou nas profundezas abissais do Tártaro. É esse o 
estatuto temporal dos inimigos vencidos de Zeus: eles estão excluídos do 
lúcido e bem ordenado tempo de Zeus, porque a própria natureza deles 
pertence a uma temporalidade de outra natureza que a de Zeus. Esses 
inimigos, forças que são da violência e da desordem, não são compatíveis 
com o tempo regular, organizado e cíclico que, sob o nome de Horas  (= 
Estações), Zeus gerou unido a Têmis (= a Regra que define o direito no 
interior da família). Esses inimigos são degredados a essas regiões ônticas 
cuja temporalidade amorfa e confusa condiz com a natureza deles. Para a 
Cultura da Época Arcaica, note-se bem, o tempo não flui num único e 
irreversível sentido, mas cada acontecimento, grande ou pequeno, tem o 
tempo que qualitativamente lhe é próprio e que a ele se vincula com patente 
e inextricável solidariedade (cf. Trabalhos, vv. 765ss.). E tudo o que com o 
selo do Ser vem à luz tem sempre a possibilidade de retornar à luz da 
Presença, pelos dons de Memória e das Musas, por meios mágicos (como, 
e.g., a descida ao Hades, na Odisséia),  ou pelo poder da vidência que, 
adquirido mediante certas práticas, dá aos homens acesso ao Invisível e ao 
Longínquo.
 
No entanto, se, para uma sensibilidade piedosa como a de Hesíodo, a 
mais alta time  (o mais alto mérito, a mais alta dignidade) consiste na 
diligente participação do cosmo de Zeus,—isso não significa que seja má e 
pior que a dos homens sob o reinado de Zeus a vida que se vive em outras 
fases do Mundo, isto é, em outro kósmos,  outra Ordem que não a de Zeus. 
Em  Os trabalhos e os dias, por duas vezes Hesíodo se refere à vida 
paradisíaca e à perfeita beatitude vividas por homens morais em outra fase 
do Mundo. A primeira é a referência aos homens da raça de ouro, "que 
viveram sob o reinado de Crono, quando ele reinava no céu; e como Deuses 
eles viviam tom o ânimo sem tristezas, sem conhecer a fadiga nem a miséria; 
nem a velhice vil lhes sobrevinha, mas sempre iguais quanto aos braços e 
pernas eles se regozijavam na opulência, distantes de todo o mal; morriam 
como subjugados pelo sono, e tinham todos os bens". {Trabalhos, vv. 111-
7.) — A outra é a referência aos Heróis, "a quarta raça sobre a Terra 
multinutriz" (Trabalhos, v. 157), os quais "Zeus Cronida instalou nos confins 
da Terra, e eles com o ânimo sem tristezas habitam as Ilhas dos Beatíficos, 
junto ao Oceano de rodopios profundos". (Trabalhos, vv. 168-71).—Ambas 
essas raças vivem num Tempo carregado de força vital, num tempo opulento 
e forte, em que o solo fértil produz espontaneamente doces e generosas 
colheitas; ambas as raças foram feitas (poíesan, v. 128; poíese,  v. 158) por 
Zeus e pelos Deuses Olímpios; e ambas vivem sob o reinado de Crono. — 


Portanto, se o tempo instaurado por Zeus é regular, orgânico, bem ajustado e 
cíclico, próprio para que nele os homens se empenhem com recompensada 
diligência no culto do(s) Deus(es) e no cultivo da(s) Terra(s), — não é de 
modo algum o único compatível com a vivência da Ordem, nem o melhor e 
o mais feliz dentre os muitos tempos divinos e humanos.
 
"Quando os venturosos completaram a fadiga  
"e decidiram pela força as honras dos Titãs,  
"por conselhos da Terra e exortavam o Olímpio  
"longividente Zeus a tomar o poder e ser rei 
 "dos imortais. E bem dividiu entre eles as honras." 
 
Esses versos da Teogonia (881-6) abrem a descrição principal do terceiro 
momento da partilha das honras. Impostos pela força aos Titãs e a Tifeu o 
discrímen e a disciplina de Zeus, que no combate se revela o maior e o mais 
sábio, segue-se a aclamação de Zeus, pelos Deuses a ele coligados, como o 
definitivo árbitro na divisão da opulência. A Grande Partilha se completa na 
configuração definitiva em que se firma o cosmo de Zeus, por meio das 
diversas núpcias do novo soberano com Potestades primordiais, resultando 
dessas uniões os poderes divinos centrai s na vigência da Ordem que é a 
terceira e perfeita fase do Mundo.
 
O terceiro momento da partilha coincide portanto com a estruturação e 
constituição do reino de Zeus. Tal como o segundo momento da partilha se 
decide por essa forma de (re-)união que é a Conflagração bélica e nesse 
momento a Totalidade, pela força do Fogo do Combate, reingressa em uma 
agonística Unidade anterior às Origens (que são múltiplas e até o originante 
Cissor-Caos se funde nessa Unidade agônica), — assim também o terceiro 
momento da partilha se decide sob a forma das uniões nupciais de Zeus. 

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