Teogonia a origem dos Deuses



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(Himeros,  v. 201, é esse mesmo Desejo que espicaçava o Céu himeíron 
philótetos,  v. 177), manifesta esses mesmos poderes genesíacos, mas num 
grau mais requintado, trabalhado por um espírito sinuoso e previdente.
 
As Erínias devem preservar a ordem no novo jogo cujas regras se 
instituem com o golpe de Crono-Astúcia sobre o.Céu-Instinto, devem manter 
nesse jogo o equilíbrio por meio de (re-)ações compensatórias. O Sol, 
scilicet  os recursos da inteligência, não transgredirá as medidas, senão as 
Erínias auxiliares da Justiça o encontrarão (Heráclito, frag. 94 D.K.). A 
inteligência, que impõe limites ao instinto, encontra neles também os seus 
limites, impostos pelo instinto.
 
Esse novo âmbito, instaurado pelo afastamento do Céu e da Terra pela 
oblíqua intervenção da inteligência, é o mesmo campo em que se desfrutam 
e fazem suas vítimas os dons de Afrodite e em que se enfrentam e são 
vividos os riscos das potências guerreiras, os Gigantes combatentes e as 
Ninfas Mélias (Mélias são as lanças duríssimas, feitas do freixo, que têm em 
grego esse mesmo nome). A união afrodisíaca e o dissídio beligerante e 
mortífero têm um mesmo e único âmbito, esse onde campeia o rigor das 
Erínias, guardiãs da Justiça.
 
A segunda² fase cósmica é o reinado de Crono, cujo poder é o exercício 
de seu curvo pensamento, sempre de atalaia e sempre se disfarçando. Crono 
sabia, pela Terra e o Céu constelado, que, apesar de toda a sua força, era seu 
destino por desígnios do grande Zeus ser dominado por um filho (vv. 463-
5). Se, ao reinar, o Céu por sua atividade se define como fecundo (thalèrón, 
v. 138), Crono enquanto rei é o vigilante sempre à espreita (dokeúon,  v. 
466). Tocaiar e engolir seus filhos recém-nascidos são os expedientes com 
que ele toma o poder e procura preservá-lo. O seu modo de pensamento é 
dito curvo (anlcylométes) porque ele só age obliquamente e sob ardil: e nisso 
está ao mesmo tempo a sua mais eficaz arma (o curvo pensar, a foice 


recurva, o ocultar-se e o engolir) e o seu irremediável limite (o ocultar-se e o 
engolir não impõem sua presença real como uma soberania, nem atingem a 
matriz donde provém a ameaça à sua realeza). É com essa arma e por esse 
limite que Crono é batido e derrotado: o ardil concertado por Réia com Céu 
e Terra (v. 471)," as artes e violência" de Zeus (v. 496).
 
2) Que o recurso a esses ordinais (1
o
, 2
a
, 3
a
) nesta exposição não leve o leitor a supor exatamente o 
contrário do que nela se diz; eles têm aqui o mesmo valor que quando usados com referência a elementos 
que compõem o con-junto de uma estrutura. 
 
O reinado do Céu não é senão a manifestação primordial de poder 
procriativo das hierogamias de Céu e Terra nessa fase cósmica em que a 
natureza prolifera do Céu prevalece incontrastada. O reinado de Crono é 
uma soberania cuja circunscrição se delimita e se restringe pela própria 
natureza de seu poder, é uma soberania que não se expande mas que por sua 
própria natureza permanece sempre paroquial, — e assim paroquial e restrito 
permanece o reinado de Crono sobre os homens da Idade de Ouro 
(Trabalhos,  v. 111) e nas longínquas e além-mundanas Ilhas dos Bem-
Aventurados (Trabalhos, v. 173a). Os limites do reino de Crono coincidem 
com os limites do modo e da forma de inteligência que ele representa. 
Entretanto, o reinado de Zeus — que corresponde à terceira e perfeita fase 
cósmica — tem a universalidade desfrutada pelo reinado do Céu, sem se 
restringir como este a um instinto básico, e tem a vigilante previdência 
exercida parcialmente por Crono, sem se restringir como este ao modo e 
forma da inteligência sinuosa. O reinado de Zeus é a plenitude de poderes 
que centra em si a Totalidade Cósmica porque ele próprio se centra no 
espírito (sêisi epiphrosyneisi, v. 658; epíphrona boulén, v. 896); — própria 
de Zeus é a grande percepção (mégan nóon, v. 37).
 
O segundo momento da partilha das honras é o da dominação de Crono 
por Zeus e o catastrófico movimento que constitui a Titanomaquia. 
Contrastando com o aspecto benévolo com que perduram para sempre o 
reinado de Crono e a vida sob Crono (ho epi Krónou bíos), mas concorde 
com este outro lado de um Crono-Ogro a devorar os próprios filhos, temos 
essa horrenda batalha entre as forças coligadas por Crono e os Deuses 
Olímpios comandados por Zeus. Nessa disputa por decidir-se em quem se 
centra a realeza universal, a Terra, o Céu, o Mar e as circulares correntes do 
Oceano estremecem abrasados pelo fogo do combate. A Totalidade Cósmica 
parece reingressar nas Origens donde proveio: Céu e Terra parecem fundir-
se desabando-se um no outro, a chama prodigiosa reúne tudo num único 
sopro, e o próprio Caos—esse princípio cosmogônico de cisão e de 
diferenciação — é traspassado na fusão desse incêndio (vv. 690-705).
 
Quando o termo do combate, tal como o peso de uma balança, pende 




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