Teogonia a origem dos Deuses



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time, um apequenamento de sua grandeza, um enfraquecimento na expressão 
de seus poderes,—em suma, uma diminuição de seu Ser. Tocar a time de um 
Deus, apropriar-se de algum privilégio tomado a ele, é diminuir-lhe o Ser. 
Por isso é que, — afirma a expressão piedosa que Heródoto atribui a Sólon 
— a Divindade é ciumenta e perturbadora
1
. O Panteão grego se configura 
nessa recíproca oposição de domínios, de timaí  divinas, que não são senão 
presenças numinosas; é um jogo de Forças que neste mútuo confronto se 
determinam a si mesmas, estruturam-se e encontram sua própria expressão. 
Um confronto tenso, em que as fronteiras são atentamente vigiadas, estando 
cada Deus zeloso (phthonerós) de conservar íntegro o seu âmbito (sua time). 


— A este confronto, descreve-o a sabedoria de Heráclito: "a oposição é 
reunidora, e das desuniões surge a mais forte harmonia: através do conflito é 
que tudo vem a ser" (frag. 8 D.K.). Neste contexto, não é difícil entendermos 
como Heráclito tenha encontrado no Combate (Pólemos, frag. 53 D.K.) e na 
diferença (diapherómenon, frag. 10 D.K.) a causa e o fundamento de todos 
os seres, e que tenha sentido como uma instância deontológica o "saber que 
o Combate é comum, a Justiça é o Conflito e todos os seres surgem através 
do Conflito e da Necessidade" (frag. 80 D.K.). 
1) phthonerón te kaí tarakhódes, Heródoto, 1.32.
 
 
Tendo-se em vista essa natureza enantiológica do Panteão grego (um 
jogo de Forças que só se definem pela mútua oposição), também não é difícil 
entendermos, neste contexto, que uma antiga expressão com que os gregos 
designaram a Fatalidade fosse Moîra ou Moîrai,  lote ou lotes: embora essa 
expressão fosse suscetível de receber e recebesse uma ideação 
antropomórfica, fica claro neste nome Moîra  que a Fatalidade de modo 
algum era concebida como uma transcendência (hyperousía),  mas como 
imanente  (parousía).  A Fatalidade, Moîra,  é a condição constitutiva do 
próprio ser em que ela se exprime, e não uma imposição que se exercesse 
sobre o ser a que ela acompanhasse. Esta distinção é da maior importância 
para percebermos o quanto o pensamento arcaico é concreto, i.e., centrado 
na parousía: ele tende com a sua maior força para a Presença, o Ser para ele 
se dá como Presença. 
A Fatalidade se deu à visão grega como uma partilha ou lote; sua 
coerção sobre os entes se deu como a impossibilidade de cada ente (divino 
ou humano) ultrapassar a esfera que lhe era própria sem que com isso 
transgredisse a esfera que constituía os privilégios (timé)  de outro Deus. A 
força dessa Fatalidade é a da facticidade da partilha. 
A partilha e os lotes, após terem sido discernidos e decididos em bélica 
medição de forças, repousam sobre o equilíbrio que, instável e suscetível de 
rupturas e irrupções, essas forças encontram quando se submetem ao 
vigilante domínio de Zeus. Este é o tema central e precípuo da Teogonia 
hesiódica a partilha e os lotes. Na súplica que finaliza o hino-proêmio, 
Hesíodo pede às Musas que cantem "como os Deuses dividiram a opulência 
e repartiram as honras" (timás, v. 113). Essa divisão da opulência e partilha 
das honras não significam outra coisa que o advento de cada Deus à sua 
própria existência e a agonística constituição das inúmeras existências 
divinas. A partilha das honras, ou seja, a configuração do mundo em sua 
ordem atual, completou-se através de três diferentes momentos que, embora 
associados às três fases cósmicas, não se devem confundir com elas. Quais 


são essas três fases e que três momentos são esses? 
As fases cósmicas não se dispõem numa sucessão propriamente 
cronológica, embora também não sejam simultâneas. Cada uma dessas fases 
distingue-se das demais por uma temporalidade qualitativamente diversa, 
não havendo portanto um horizonte temporal uno e único que, ao reuni-las 
num mesmo plano, estabeleça entre elas uma rigorosa relação de 
anterioridade e de posteridade. Assim, ainda que essas três fases conservem 
múltiplos contatos entre si, não é possível representar num só e mesmo 
cronograma os eventos diversos das diversas fases, dadas as rupturas do 
nível temporal entre elas e, também, entre eles. 
A primeira fase está nas proximidades das Origens. Num universo ainda 
informe, prevalece a força fecundante do Céu, que, ávido de amor e com 
inesgotável desejo de cópula, freqüenta como macho a Terra de amplo seio. 
Nesta fase original, o Céu desempenha as mesmas funções que, enquanto 
Céu, sempre terá: 1) cobrir toda a Terra ao redor, e 2) ser para os Deuses 
venturosos assento sempre seguro (cf. vv. 127-8). Cobrir a Terra e fecundá-
la hierogamicamente através da chuva-sêmen; ser o assento dos Deuses é 
dar-lhes origem e fundamento, fundar-lhes a existência. Nesta primeira fase 
a Proximidade das Origens é tão forte e impõe-se tanto em sua unificante 
força de coesão, que ambas as duas funções do Céu se desempenham no 
único e mesmo movimento da fecundação: as mesmas hierogamias que 
fecundam a Terra assentam a existência dos Deuses de modo irresvalável. A 
Terra está constantemente prenhe, o Céu está em constante desempenho de 
ambas as suas funções, que, pela extrema vizinhança das Origens, se 
cumprem numa só ação extremamente cheia de potência vital. — A 
temporalidade dessa primeira fase é marcada por essa pletora de vida e por 
essa procriante superabundância que constituem as Origens no sentido de um 
início cronológico, mas Origens como as fontes permanentes e elementos 
constitutivos da vida. Assim, são fontes a Terra e seu igual (ison, v. 126), o 
Céu, a força do Amor que une e seu contrário, o Caos, cuja força é a da 
negação e da cisão; — a mais forte e intensa vizinhança dessas fontes é o 
que caracteriza a temporalidade desta primeira fase, o hierogâmico reinado 
do Céu.
 
O primeiro momento da partilha das honras é o da insurreição de Crono 
de curvo pensar, instigado pela Terra. Crono interfere na fecundação da 
Terra pelo Céu, pondo limite a essa fase em que os seres divinos (e também 
os humanos?) nascem diretamente do seio da Terra fecundada pelos sêmenes 
celestes. Crono representa uma forma de inteligência sinuosa, que age 
obliquamente, e, pondo-se de tocaia, surpreende e fere seu pai, o Céu, 
enquanto ele se entregava inadvertido e desenfreado a sua atividade, que, 


intensa e puramente vital, não conhecia regras nem a reflexão sobre 
conveniências e conseqüências. O ardil tramado pela Terra faz 
confrontarem-se a intensa e irrefletida vitalidade do Céu e o flexuoso 
pensamento de Crono. Esse confronto impõe um limite que regre a força 
fecundante do Céu, faz surgir Afrodite, que preside ao novo modo pelo qual 
Deuses e homens doravante se procriarão, e faz surgir também estas 
Potestades da retaliação às afrontas e transgressões: as Erínias, as Ninfas 
Mélias (= Freixos) e os Gigantes belicosos. Afrodite, aquém segue o 
cosmogônico Eros (v. 201), compartilha da natureza primordial do Céu, 
enquanto força incoercível e coercitiva de acasalamento, e compartilha da 
dissimulada inteligência de Crono, pelo que de enganos implicam os jogos 
amorosos (v. 205). Afrodite, ao subsumir no seu séquito Eros  e  Himeros 


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