Teogonia a origem dos Deuses



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polyphron), mas não profunda: o pensar profundo (bathymétes, bathyphron) 
é uma dimensão nova, explorada pela primeira vez pelos líricos e a seguir 
pelos pensadores, que inauguram uma nova modalidade de discurso.
 
A tragédia fará um de seus temas centrais a reflexão sobre o vínculo 
entre o agente e a ação, sem que ainda se possa constituir essa noção de 
vontade, de complexas implicações, que assinala no âmago do agente a fonte 
espiritual e constante das ações. Caberia ao esforço de reflexão que por seis 
séculos os Estóicos sustentaram dar a contribuição maior para que se 
delimitasse essa área de autonomia do sujeito, uma autonomia fundada e 
centrada na noção de vontade (que eles propuseram), — e assim se 
configurasse essa instituição cultural que, por analogia com a representação 
teatral, se denominou pessoa. Esta metáfora, que veio coroar o esforço dos 
dramaturgos atenienses e que fez a p&lawapersona  transpor o âmbito do 
teatro para com maior glória designar isto que hoje todos nós entendemos 
que somos, esta metáfora devemo-la ao estóico e embaixador grego em 
Roma Panécio de Rodes.
 
Não importa nem cabe aqui historiar as vicissitudes originárias da noção 
de pessoa e sua constituição multi-secular. Basta-nos estarmos atentos e 
lembrados de que essa noção e seus elementos constitutivos, que 
enumeramos, não são traços da estrutura da visão de mundo hesiódica. E, 
sem esses traços, como esta visão de mundo se estrutura?
 
Caracterizadas a vontade, a pessoa e a dicotomia do interior-subjetivo e 
do exterior-objetivo como meros traços culturais, que podem não marcar 
determinada visão do mundo e do homem, examinemos então como se 
apresentaram o mundo e a realidade humana à visão de Hesíodo e seus 
contemporâneos.
 
Na oposição entre homem e Deus, pela qual unicamente se determina a 
área de atribuições e atributos de cada um dos dois, as fronteiras entre ambos 
são variáveis segundo a visão que deles têm as diversas culturas. A 
compreensão que o homem tem de sua própria essência e condição, de seu 
próprio corpo e das funções de seus órgãos corporais,
 
— também não tem nada de inerente a uma natureza humana, mas é dada 
culturalmente, — tal como a idéia que o homem possa fazer de seu(s) 
Deus(es). Assim, muitas das atribuições que hoje por nós são entendidas 
como meramente humanas, os contemporâneos de Hesíodo as entendiam 
como privilégios da Divindade, inacessíveis aos mortais,
 
— e o que na moderna perspectiva cristã se cinge exclusivamente ao 
Divino, os gregos arcaicos o compartilhavam em sã consciência com os seus 


Deuses.
 
Para Hesíodo, o mundo não é uma materialidade fundada em uma 
essência universalmente homogênea, subsistente por si mesma, e entregue às 
suas próprias leis nela inscritas e nas quais ela em seus movimentos e 
transformações se inscreve. Não há, nas diversas partes do cosmo, essa 
homogeneidade sob os fenômenos, nem essas diversas partes se regulam por 
leis intrínsecas, constantes e universais. Essa imagem do mundo é um 
produto da nossa ciência moderna e não extrapola as nossas modernas 
crenças científicas.
 
Para Hesíodo, o mundo é um conjunto não-enumerável de teof anias, 
séries sucessivas e simultâneas de presenças divinas. Cada presença é um 
pólo de forças e de atributos, que instaura e determina a área temporal-
espacial de sua manifestação. Esta presença, que instaura a si mesma ao 
instaurar-se, inaugura de um modo absoluto o tempo e o espaço definidos de 
sua manifestação como o lugar decorrente e originado de sua presença. 
Trata-se em cada caso da presença de um Deus, somente com a qual passam 
a existir o tempo e o espaço em que esse Deus existe; — e desde que esse 
Deus passa a existir ele já está inteiramente presente em todos os tempos e 
lugares em que ele se manifesta e historicamente se dá sua vida. Não há um 
tempo e espaço que existissem antes de esse Deus existir e que ele viesse 
ocupar: a presença do Deus é a força suprema e original, originadora de si 
mesma e de tudo o que a ele concerne. O Deus não é senão a sua 
superabundante presença e está todo ele presente em todas as suas 
manifestações, já que presença não é senão manifestação, negação do 
esquecimento, verdade, a-létheia.
 
A presença de um Deus coincide com o âmbito de seu domínio. 
Entendido esse domínio de um Deus tanto no sentido temporal e espacial, 
como no de esfera de atribuições, conjunto de encargos e de funções 
exclusivos a ele, podemos dizer que um Deus grego não é senão sua time. 
Toda transgressão ao domínio de um Deus implica para ele uma ofensa à sua 


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