Teogonia a origem dos Deuses



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Teogonia hesiódica as duas forças motrizes que em Empédocles encadeiam e 
desencadeiam o ciclo do processo cósmico: Neikos  e  Aphrodíte,  Ódio e 
Amor.
 
Como princípio ontogenético, Kháos  é uma imagem mítica que, ao 
pensar o Não-Ser em termos cosmogônicos, compreende também o Não-Ser 
na condição gemelar em que Não-Ser e Ser se encontram enquanto Ser e 
Não-Ser igualmente estão na raiz da constituição de cada ente.
 
A relação entre Kháos e Terra não se dá do mesmo modo que a relação 
entre Eros e Terra. Neste Quaternário Original a simetria não é estática, mas 
dinâmica: é a tensa simetria de uma unidade quádrupla e agônica.
 
Dada a diversidade de natureza entre as duas forças de procriação, há 
uma prioridade de Kháos  sobre Eros, e Hesíodo marca-a clara e 
reiteradamente. Para que mais bem se determine que prioridade é a de 


Kháos, examinemos por quais modos ela se marca: 
 
1) como prioridade temporal de Kháos  sobre Terra e Eros, expressa no 
advérbio  épeita  (= "depois") no v. 116: "Sim bem primeiro nasceu Kháos, 
depois também Terra (...)";
 
2)  com a situação já citada de Tártaro (cuja homologia com Kháos, 
parece-me, já está bastante evidente para não ser preciso demonstrá-la aqui) 
"no fundo do chão". Ou seja: Kháos não só ladeia como paredro a Terra tal 
como Eros o faz, mas ainda sob a imagem de Tártaro está no fundo da 
Terra; — o domínio de Kháos estende-se da colateralidade à profundidade
enquanto Eros permanece paredro;
 
3) com os versos 736-8 (repetidos em 807-9): "da Terra trevosa e do 
Tártaro nevoento / e do Mar infértil e do Céu constelado, / de todos, são 
contíguos as fontes e os confins". Aqui Terra e Tártaro (—Kháos)  são 
apresentados como numa contigüidade em que ambos igualmente se 
fundamentam. 
 
A discussão sobre o que significa a prioridade temporal deixarei para 
quando tratar da concepção hesiódica de tempo, já que épeita  (= "depois") 
no verso 116 não tem de modo algum um sentido cronológico e implica 
outras dimensões do Real que não os aspectos de que estou tratando aqui.
 
A inscrustação de Tártaro (— Kháos) no fundo da Terra e a contigüidade 
de "fontes e confins" entre Tártaro (— Kháos)  e Terra são, a meu ver
exemplos das retomadas e repetições com que o pensamento arcaico aborda 
os temas de sua reflexão. Ambas estas passagens do Poema (e não só elas) 
exprimem em termos míticos que tanto quanto o Não-Ser se determina e se 
define a partir da determinação e definição do Ser, o Ser se determina 
(onticamente) e se define (num discurso) pelo Não-Ser e pelo conceito de 
Não-Ser. Entendendo-se Kháos-
 
Tártaro como um princípio ontogenético, estas passagens citadas 
significam que cada ente se determina não tanto pelo que ele é, mas pelo que 
ele não é e pelo contraste (contigüidade) do que ele é com o que ele não é: 
tal como uma silhueta, cada ente ou cada coisa se determina e se define 
contra o pano de fundo 'e de dentro e de frente e de fora, — múltiplo fundo) 
do que ele ou ela não é.
 
Terra e Tártaro, que não só se confinam nos Meros mas têm contíguos 
fontes e confins, nomeiam ambos esta unidade antagônica em que se dão a 
totalidade do Ser e também o Não-Ser. A expressão mítica Terra e Tártaro 
equivale à expressão filosófica estóica ti, que, exprimindo o gênero supremo, 
engloba Ser e Não-Ser, — mas tendo eles em Hesíodo um antagonismo e 


uma identidade que não tiveram expressão no Estoicismo. Antagonismo e 
identidade pelos quais Tártaro se revela como uma contra-imagem do Céu ao 
revelar-se o Céu o igual e duplo da Terra. Simetria de Terra-e-Céu 
contrapostos especularmente ao Tártaro. E assim também Éter e Dia 
espelham Érebos e Noite. E assim também Kháos  e Eros, como princípios 
cosmogônicos, se espelham. (Note-se bem: como princípios cosmogônicos, 
— dado que como princípio ontogenético e ontológico Kháos tem um peso e 
uma envergadura que Eros não tem.)
 
 


VI
 
TRÊS FASES E TRÊS LINHAGENS 
 
 
Uma tardia instituição cultural, que a civilização européia elaborou ao 
longo de séculos, marca profundamente hoje a nossa visão de mundo e 
entendimento das coisas: essa interioridade psicológica, onde se enraízam e 
se originam nossas decisões e nossos atos, e que se nos dá como o 
fundamento e o estofo da personalidade. Somos de tal modo marcados por 
ela que nos causa espanto e até uma sensação de aporia a lembrança de que 
essa dimensão interior não é de modo algum um dado inerente à natureza 
humana, mas sim uma invenção ou descoberta que, por situar-se no centro 
organizador de nossa cultura, tem implicadas em si todas as perspectivas 
que, no âmbito de nossa cultura, nos restam abertas de entendimento e visão. 
Assim, parece-nos sem terceiro termo possível a distribuição de todos os 
fenômenos em duas categorias absolutas: ou são conteúdos de uma 
interioridade psicológica, ou uma realidade exterior e objetiva. E por um 
consenso unânime e inequívoco, há um elenco de fatos entendidos como 
interiores, subjetivos e por isso dotados de um grau inferior de realidade, 
dependentes e segundos, — aos quais se opõe uma realidade absoluta, forte e 
boa, entendida como exterior e objetiva. — Configurado pelas fronteiras 
entre o interior-subjetivo e o exterior-objetivo, está o Sujeito, detentor e 
custódio da dimensão interior e seus conteúdos, e fundado neste fulcro 
íntimo que é a vontade,—essa fonte permanente e inesgotável de todas as 
decisões e ações, e por cuja imanência e constância o Sujeito se torna em 
quaisquer circunstâncias responsável por seus atos presentes e passados
desde que a origem deles se defina como constituída por esta fonte que é a 
vontade.
 
No entanto, esse esquema dicotômico das coisas, essa complexa 
instituição que é a vontade e essa decorrente valoração do exterior-objetivo 
como realidade primeira e mais forte, — por mais naturais e reais que 
possam hoje nos parecer, — dificilmente encontram uma correspondência, 
próxima ou distante, na visão de mundo apresentada na Teogonia hesiódica. 
Não se verificam na mais antiga cultura grega.
 
São os líricos gregos que na Época Arcaica fazem a descoberta da 
profundidade e intensidade espirituais, preparando caminho para ulterior 
construção de uma interioridade subjetiva oposta à exterioridade objetiva A 
novidade do intenso e do profundo que então se descobrem nos sentimentos 
e pensamentos revela-se na afirmação de Heráclito segundo a qual "não 
poderias encontrar os limites da psique, ainda que percorresses todos os 


caminhos, tão profunda razão (lógos) ela tem" (frag. 45 D.K.). Para Homero, 
a inteligência, por exemplo, pode ser múltipla, cheia de recursos (polymetis, 


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