Teogonia a origem dos Deuses



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Kháos);  Dia e Noite aqui são princípios ontológicos, a exprimirem 
imageticamente a esfera do Ser e a do Não-Ser. Esta oposição especular 
(Érebos: Éter: Noite: Dia) é subsumida no jogo enantiológico que é a 
mundivisão exposta na Teogonia. Dia e Noite, Ser e Não-Ser, guardam em si 
uma relação íntima e profunda entre si: o Ser vige e configura-se segundo 
uma estrutura configurada pelo Não-Ser, de tal forma que o pensamento que 
pensa o que é o Ser não pode não pensar o Não-Ser.
 
Érebos, as trevas infernais, tem só que invertidas a mesma posição e 
natureza que Éter, a luminosidade celeste,—e mais: o masculino Éter e seu 
par o Dia (que é feminino em grego: Hemére)  nascem do par acasalado 
Érebos e Noite.
 
Do mesmo modo, "no fundo do chão" (i.e., da Terra) está o Tártaro. 
Vimos j á a mesma simetria especular entre Tártaro e Terra-Céu; e agora fica 
mais claro para nós o que significa, enquanto situação do Tártaro, esta 
expressão "no fundo do chão" (mykhôi khthonós, v. 119). Terra, como 
assento inabalável e inconcusso de todas as coisas (Ser), tem "no fundo do 
chão" este seu duplo invertido, o Tártaro, que é pura Queda cega sem direção 
e sem fim, a total ausência e negação do Fundamento, uma imaginosa 
expressão do Não-Ser. "No fundo do chão" significa "no âmago da Terra", 
mas um âmago onde a Terra não é mais Terra e sim seu contrário: no âmago 
do Ser encontramos sua gemelaridade com o Não-Ser.
 
Tendo em vista a afinidade e confinidade de Tártaro com Érebos e, 
portanto, com Kháos  (de cuja natureza Érebos como descendente é uma 
explicitação), prossigamos o exame do sentido e função desta Potestade que, 
do Quaternário Original, Hesíodo nomeia primeiro. Tártaro, Kháos  e seus 
filhos Érebos e Noite são expressões diversas de diversas situações e 
modalidades em que manifesta a violência da Negação (do Não-Ser). Tártaro 
e Érebos, que nos ínferos se confinam, exprimem o Não-Ser 
topograficamente como o ínfimo além da extrema circunscrição aonde se 
estendem a luz do Céu e a firmeza da Terra. Noite e seus filhos (vv. 211-32) 
exprimem-no metafisicamente como o princípio de destruição e de perda que 


sob várias formas atua dramaticamente na vida humana. Kháos, como outra 
expressão metafísica do Não-Ser, é um princípio cosmogônico e — para 
dizê-lo com exatidão e integralmente — também ontogenético.
 
Como princípio cosmogônico, Kháos  é a potência que instaura a 
procriação por cissiparidade, é um princípio de cissura e de separação, e 
como tal opõe-se a Éros,  que, como princípio cosmogônico, instaura a 
procriação por união de dois elementos diversos e separados, masculino e 
feminino. Ambos, Kháos  e  Éros,  estão lado a lado de Terra de amplo seio, 
de todos sede inabalável sempre. A rigor, Kháos Éros, enquanto potências 
cosmogônicas, são paredros de Terra, que, sim, é o assento sempre firme, — 
o Fundamento Originário. Kháos  e  Éros,  portanto, ladeiam a Terra - Ser 
como puros princípios ativos e energéticos, de naturezas opostas e 
contrapostas, como paredros (par-édroí)  deste Assento Primordial (pánton 
hédos). Éros, princípio da união, é estéril, dele mesmo não surge nenhum 
rebento, ele de si mesmo nada produz. Kháos,  princípio de divisão e 
separação, é prolífico e tem através de sua filha Noite numerosos 
descendentes :— todos eles, incorpóreos como ele, são como ele puros 
princípios ativos e energéticos, sem substância física. Que o princípio da 
união seja estéril e o da divisão e separação prolífico — eis algo muito 
congruente com a sensibilidade e visão gregas. No Banquete de Platão, Eros 
é filho da Indigência (Penía)  e do Expediente (Poros)  herdando da mãe a 
incurável penúria e do pai a inesgotável habilidade. Na sabedoria de 
Heráclito, Pólemos (a Guerra) é o pai de todas as coisas e o rei de todas as 
coisas (cf. frag. 53 D.K.); a Guerra (que, nomeada no verso 228 da Teogonia 
como Hysmínas te Mákhas te, é descendente e portanto uma das expressões 
explicitadoras da natureza de Kháos) é um princípio cosmogônico fecundo e 
construtivo. Kháos Éros, nesta leitura que estou propondo, prefiguram na 


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