Teogonia a origem dos Deuses



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Danaides de Ésquilo:
 
3) Cf. Page. Lyrica Graeca Selecta. Oxford, Oxford University Press, 1968, frag. 199, p. 104. Essa 
ode, eu a traduzi assim:
 
Parece-me par dos Deuses  
ser o homem que ante a ti  
senta-se e de perto te ouve  
a doce voz 
e o riso desejoso. Sim isso  
me atordoa o coração no peito:  
tão logo te olho, nenhuma voz
 
me vem
 
mas calada a língua se quebra,  
leve sob a pele um fogo me corre,  
com os olhos nada vejo, sobrezum-
 
bem os ouvidos,  
frio suor me envolve, tremo  
toda tremor, mais verde que relva  
estou, pouco me parece faltar-me
 
para a morte.  
Mas tudo é ousável e sofrível...
 
 
 
"O Amor (Éros) de acasalar-se domina a Terra.
 
"Ama (erâi) o sagrado Céu penetrar a Terra.
 
"A chuva ao cair de seu leito celeste
 
"Fecunda a Terra, e esta para os mortais gera
 
"As pastagens dos rebanhos e os víveres de Deméter". 
 
Eros, enquanto um dos quatro elementos que são a Origem, ao ser 
nomeado e ao presentificar-se o seu domínio, envolve já a referência a todos 
os homens e todos os Deuses, que surgirão depois dele. Tal como a Terra, ao 
ser nomeada como Origem, traz com sua nomeação a presença dos imortais 
que têm o Olimpo nevado. — E como potência cosmogônica, como força de 
fecundação da Terra pelo Céu através da chuva-sêmen, como força de 
acasalamento e da multiplicação da vida, Eros está tanto mais perto e 


aparentado ao Céu e à Terra (estas sedes sempre seguras dos Deuses e 
âmbitos da luz e da vida) quanto o Tártaro, por sua natureza hipoctônica, 
noturna e letal, está mais perto e aparentado ao Kháos com sua descendência 
tenebrosa e mortífera.
 
O nome Kháos está para o verbo khaíno ou sua variante khásko (= "abrir-
se, entreabrir-se" e ainda: "abrir a boca, as fauces ou o bico") assim como o 
nome Éros está para o verbo eráo ou sua variante éramai (= "amar, desejar 
apaixonadamente"). Tal como Éros  é a força que preside a união amorosa, 
Kháos é a força que preside à separação, ao fender-se dividindo-se em dois. 
A imagem evocada pelo nome Éros  é a da união do par de elementos 
masculino e feminino e a resultante procriação da descendência deste par. A 
imagem evocada pelo nome Kháos  é a de um bico (de ave) que se abre, 
fendendo-se em dois o que era um só. Éros  é a potência que preside à 
procriação por união amorosa, Kháos é a potência que preside à procriação 
por cissiparidade. Se a palavra Amor  é uma boa tradução possível para o 
nome  Éros,  para o nome Kháos  uma boa tradução possível é a palavra 
Cissura — ou (e seria o mais adequado, se não fosse pedante): Cissor.
 
("Sim bem primeiro surgiu Cissor, depois também 
 'Terra de amplo seio, de todos sede irresvalável sempre, 
 "dos imortais que têm a cabeça do Olimpo nevado,  
"e Tártaro nevoento no fundo do chão de amplas vias, 
 "e Amor que é o mais belo dos deuses imortais"...) 
 
Há na Teogonia  duas formas de procriação: por união amorosa e por 
cissiparidade. Os primeiros seres nascem todos por cissiparidade: uma 
Divindade originária biparte-se, permanecendo ela própria ao mesmo tempo 
que dela surge por esquizogênese uma outra Divindade. Assim Érebos e 
Noite nasceram do Kháos  (v. 123). Assim Terra primeiro pariu igual a si 
mesma o Céu constelado, pariu as altas Montanhas e depois o Mar infértil 
(vv. 126-32).
 
Toda a descendência de Kháos  nasce por cissiparidade, exceto Éter e 
Dia, que constituem exceção também por serem dentro desta linhagem os 
únicos positivos e luminosos. Tudo o que provém de Kháos pertence à esfera 
do não-ser; todos os seus filhos, netos e bisnetos (exceto Éter e Dia) são 
potências tenebrosas, são forças de negação da vida e da ordem. Seus filhos 
são Érebos e Noite. Érebos é uma espécie de antecâmara do Tártaro e do 
reino do que é morto. Noite, após parir Éter e Dia unida a Érebos em amor, 
procria por cissiparidade as forças da debilitação, da penúria, da dor, do 
esquecimento, do enfraquecimento, da aniquilação, da desordem, do 
tormento, do engano, da desaparição e da morte — em suma, tudo o que tem 


a marca do Não-Ser. Estas potências negativas, toda a linhagem de Kháos, 
são geradas por cissiparidade; Éter e Dia, potências positivas, são exceções 
desta linhagem e geradas por união amorosa.
 
Neste caso, há uma simetria especular entre os genitores e os gerados: 
Érebos é a região subterrânea, tétrica e noturna ligada ao reino dos mortos; 
Éter  (Aithér  vem de aítho  = "queimar, abrasar") é a região superior e de 
esplêndida luminosidade do céu diurno. Nem Noite nem Dia são aqui 
períodos cronométricos, não têm vínculos com o Sol e os astros (estes 
nascem de uma outra linhagem, independente e sem conexão com a de 


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