Teogonia a origem dos Deuses



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(Mousáon therápon, v. 100), — enquanto pelo exercício deste mesmo poder 
os reis são diotrephées, "sustentados por Zeus",ou—na bela fórmula clássica, 
— "aluirmos de Zeus" (v. 82). Belavoz é a mais importante das Musas, 
porque ela é que acompanha os reis venerandos (vv. 79-80). A voz é bela 
não porque seja agradável e requintada, é bela não por características que 
consideraríamos formais, — mas por este poder, compartilhado por reis e 
poetas, de configurar e assegurar a Ordem, por este poder de manutenção da 
Vida e de custódia do Ser. O cantor servo das Musas é o guardião do Ser, os 
reis alunos de Zeus são os mantenedores da Ordem (do Cosmo), a ambos por 
igual patrocina e sustenta Belavoz — Bela, por seu poder influir 
decisivamente nas fontes do Ser e da Vida, pela sua pertinência às dimensões 
do mundo e ao sentido e totalidade da Vida.
 
3) harmoníe aphanés. Cf. Heráclito, frag. 54 D.K.
 
 


 

A QUÁDRUPLA ORIGEM DA TOTALIDADE 
 
As figuras que o pensamento arcaico elaborou são, freqüentemente, 
como que centro de coincidentia oppositorum. Reunindo em si atributos 
contraditórios, aspectos díspares e conflitantes da realidade, estas figuras os 
transcendem e integram em seu ser profundo, e podem revelar-se sob 
aspectos antitéticos. Se esta transcendência de todos os atributos é o modo de 
ser próprio da Divindade, o pensamento arcaico — marcadamente sensível à 
experiência numinosa — está muito mais apto e preparado para captar e 
compreender as múltiplas nuances enantiológicas do que nos permitem fazê-
lo nossos hodiernos hábitos de rigor conceitual.
 
Ambigüidade e pletora de sentidos são características destas figuras. 
Nosso esforço por compreendê-las e por transpô-las numa linguagem 
conceituai deve estar atento e precavido de que, se esta transposição é 
possível, o pensamento arcaico tem outros módulos de organização, outras 
instâncias e outra modalidade de coerência.
 
Ao buscarmos o sentido de uma destas figuras, devemos antes contar 
com nuances cambiantes que refletem aproximações ou identificações para 
nós insólitas entre estas figuras, e não com noções unívocas. O pensamento 
arcaico é concreto e simbólico, enquanto o nosso pensamento, abstrato, 
aspira à univocidade. O mais profícuo — parece-me — é ir circulando em 
torno destas figuras, em sucessivas abordagens, que sempre as apanhem de 
novo de um novo ponto de vista. Assim, nesta abordagem em círculos 
sucessivos, obteremos, em várias visões superpostas, as diversas implicações 
e correlações em que vigem e vivem estas figuras. Este método de 
circunvoluções e retomadas parece-me justificar-se por si mesmo, já que não 
é de outro modo que o pensamento arcaico procede: jamais aborda um 
objeto de uma única e definitiva vez descartando-se dele depois, mas sempre 
o retoma dentro de outras referências, circunvoluindo através de enfoques 
sucessivos e por vezes contrastantes
1
, — como em verdade se verifica por 
toda a Teogonia hesiódica. 
1) Fränkel, Hermann. Early Greek Poetry and Philosophy. Trad. ingl. de Moses Hadas e 
James Willis. Oxford, Basil Blackwell, 1975, p. 105. 
 
Se perguntarmos pelo significado das Potestades originárias, os primeiro 
nomeados, nos versos 116-22 que abrem após o Proêmio a cosmogonia de 
Hesíodo, — teremos muitas respostas diversas de scholars  que se 
preocuparam sobretudo com o sentido da palavra Kháos  nestes versos, e, 


além destas respostas por vezes incongruentes, deparamos com uma 
enigmática questão. 
Versos cuja autenticidade alguns editores suspeitaram e outros 
aceitaram, e cuja interpretação também variou, tornam controvertível o 
número destas Divindades originárias: são três ou quatro? Kháos,  Terra e 
Eros — ou Kháos, Terra, Tártaro e Eros?—M. L. West admite em sua edição 
crítica a legitimidade dos versos que nesta passagem (116-22) a tradição nos 
legou: 
"Sim bem primeiro nasceu Caos, depois também "Terra de amplo seio, 
de todos sede irresvalável sempre, "dos imortais que têm a cabeça do Olimpo 
nevado, "e Tártaro nevoento no fundo do chão de amplas vias, "e Eros: o 
mais belo entre deuses imortais "solta-membros, dos Deuses todos e dos 
homens todos "ele doma no peito o espírito e a prudente vontade". 
F. Solmsen atetiza (i.e., suspeita) o verso 119: "e Tártaro nevoento no 
fundo da Terra de amplas vias". Neste verso entretanto M. L. West, 
aceitando-o, recomenda que se leia Tártaro como um elemento primordial 
distinto—contra uma outra possibilidade, que é a de ler a palavra Tártaro 
como complemento do verbo têm  do verso anterior (= os imortais têm o 
Olimpo e o Tártaro). Ambas estas leituras remontam aos antigos, que já 
sentiam o problema: uma a Plutarco, Comuto, Pausânias e Damáscio (a que 
é seguida por West), outra a Teófilo e Estobeu. Se acolhermos a proposta de 
West, que me parece mais bem fundada na tradição e autoridade dos Antigos 
(e mais bem encaixada no sentido do contexto), as Potestades que estão nas 
Origens são em Hesíodo: Kháos, Terra, Tártaro e Eros. 
Mas em que relação se encontram entre elas estas Potestades? Por que 
esta multiplicação do Ser original? O que significam, nestes versos, estes 
quatro primeiro nomeados? Como se distinguem e quadruplamente se 
reúnem? — Porque dificilmente seria concebível esta multiplicação da 
Origem em quatro seres independentes e absolutos, e sem nenhum 
significado e função para esta quaternidade. 
Como assinala Paula Philippson
2
, há na Teogonia três eficientes recursos 
com que se determinam a natureza e sentido de cada Deus. Primeiro, o nome 
é por si mesmo significativo—salvo exceções de nomes cuja antigüidade ou 
etimologia não-grega tornaram opacos (e neste caso Hesíodo, seguindo uma 
tendência da Época Arcaica, procura resgatar-lhes a significação por meio de 
trocadilhos e jogo de palavras). Segundo recurso são os epítetos com que 
cada personagem pode ser, no estilo épico, amplamente qualificado. E, por 
fim, cada Deus se define por seu ponto de inserção na sua linhagem 
genealógica: toda descendência é uma explicitação do ser e natureza da 
Divindade genitora; quanto mais alta e próxima da origem uma Divindade, 


tanto mais rica e extensa em suas possibilidades de determinação, pois ela 
contém em si como virtualidade todos os poderes e seres que dela 
descendem. 
2) Philippson, Paula. Origini e forme dei mito greco. Trad. it. de Ângelo Brelich. Milão, Einaudi, 
1949, pp. 48-9.
 
 
Terra, além da clareza do nome, tem um epíteto que lhe define o ser: "de 
todos sede irresvalável sempre". É a segurança e firmeza inabaláveis, o 
fundamento inconcusso de tudo (pánton hédos, v. 117), nela e por ela têm a 
sua sede os Deuses Olímpios (pánton hédos... athanáton, vv. 117-8). Esta 
referência aos Imortais que tem o Olimpo exprime integramente o que há de 
sagrada proximidade nesta mais remota origem: o Olimpo representa para 
Hesíodo a mais atual e a mais forte experiência numinosa (nele Zeus tem sua 
sede). É esta atualidade numinosa (expressa nos Deuses Olímpios) que 
Hesíodo lembra ao nomear Terra como Potestade original, porque a aparição 
e presença da Terra como sagrada origem de tudo implica já uma 
experiência atual que é a destes habitantes do Olimpo, os seus mais perfeitos 
e belos descendentes — estes "Deuses doadores de bens", como também os 
designa Hesíodo (v. 111). 
O Tártaro é nevoento  (invisível) e fica no fundo da Terra de largos 
caminhos. O verso 720 o situa "tão longe sob a Terra quanto é da Terra o 
Céu". A simetria estabelecida por este verso é altamente significativa. Já que 
o Céu é uma espécie de duplo da Terra (cf. vv. 116-7), o Tártaro "no fundo 
da Terra" é uma espécie de duplo especular e negativo da Terra e do Céu 
(que são ambos "sede irresvalável para sempre"). Os vv. 740-5 o descrevem 
como um "vasto abismo" (khásma méga) onde se anula todo sentido de 
direção e onde a única possibilidade que se dá é a queda cega, sem fim e sem 
rumo. O Tártaro, "temível até para os Deuses imortais", é o lugar onde "se 
estabelece a casa temível da Noite trevosa, aí oculta por escuras nuvens" (vv. 
744-5). O Tártaro, portanto, é o duplo especular e negativo (conforme a 
simetria descrita no verso 720 e vigorosamente enfatizada nos subseqüentes 
vv. 721-5) da Terra e do Céu—tanto quanto é o Céu um duplo perfeito e 
positivo da Terra que o "pariu igual a si mesma" (v. 126) "para cercá-la toda 
ao redor e ser aos Deuses venturosos sede irresvalável sempre" (vv. 127-8). 
A localização do Tártaro ("no fundo da Terra") e sua natureza simétrica e 
negativa quanto à da Terra (lugar da queda sem fim nem rumo e do império 
da Noite) ao mesmo tempo que o ligam íntima e essencialmente à Terra (de 
que ele é o contra ponto) aproximam-no e aparentam-no a Kháos,  em cuja 
descendência se incluem Érebos (região infernal) e Noite.
 
A Eros sob a forma de uma pedra-ídolo era dirigido em Téspias pela 


época de Hesíodo um culto agrícola da fecundidade. Eros é a Potestade que 
preside à união amorosa, o seu domínio estende-se irresistível sobre Deuses 
e sobre homens ("de todos os Deuses e de todos os homens doma no peito o 
espírito e a prudente vontade"). Ele é um desejo de acasalamento que 
avassala todos os seres, sem que se possa opor-lhe resistência: ele é solta-
membros  (lysimelés).  O melhor comentário que conheço a este epíteto de 
Eros é uma ode de Safo em que ela descreve seu estado de paixão amorosa 
que, num crescente, beira a lassidão, abandono e palidez da morte, enquanto 
sua bem-amada entretém-se com um homem³ . E o melhor comentário que 
conheço a Eros como força cósmica de fecundação é este fragmento de As 


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